









O Presente Do Amor (Don't Say Goodbye) - Diane Schwemm

Protagonistas: Charlotte Kennedy e Jared Colburn

Charlotte Kennedy e Jared Colburn formam um par perfeito. Combinam em tudo e namoram h sculos. E, no ano de formatura, tem tudo para serem eleitos o casal mais popular da escola. S que no  isso que Charlotte sente. Na verdade, ela est quase terminando o namoro com Jared. Porm, quando cria coragem para expor seus sentimentos, ele sofre um acidente e fica gravemente ferido.  claro que Charlotte no pode abandonar o namorado agora. E talvez no o abandone nunca: depois do acidente, Jared ficou muito mais compreensivo, carinhoso e sensvel. Ser que ele est realmente mudado? Ou melhor: ser que Charlotte est se apaixonando de novo por seu prprio namorado quando considerava tudo perdido?
"Ser que, mesmo depois de ter certeza de que seu namoro chegou ao fim, voc ainda pode se apaixonar de novo? E por seu prprio namorado?" - Charlotte Kennedy.









PRLOGO
Charlotte Kennedy, de quinze anos, no estava se importando muito em ir  festa da praia, mas sua melhor amiga, Madeline Howe, no conseguia pensar em outra coisa.
-  a ltima festa das frias de vero  lembrou Maddie, enquanto as duas jogavam vlei no quintal de Charlotte. Maddie lanou a bola sobre a rede com um saque forte mas impreciso.
Charlotte pulou para rebater a bola, fazendo voar seus cabelos loiros, que batiam na cintura.
- Voc no prefere ir ao cinema?  perguntou Charlotte.  Vo acontecer outras festas depois que a escola comear. No estamos indo para a priso. S vamos entrar no Ensino Mdio.
- Mas no vai ser mais vero  Maddie falou, estendendo a mo para tocar a folhagem espessa de uma rvore.  Logo as folhas vo comear a cair. Vo acontecer geadas. E estaremos nos arrastando com neve at os joelhos.
Charlotte soltou uma gargalhada. O ar abafado e quente do vero tocava sua pele  naquele momento, o inverno parecia algo muito distante. Mas Maddie tinha uma ponta de razo.
- Bem, j que voc coloca as coisas dessa maneira  ela cedeu com um sorriso.
- Tinha certeza de que viria comigo  falou Maddie com satisfao.  Eu sabia que voc no perderia a ltima chance de ver todo o time de futebol americano da escola Parker de sunga.
Charlotte se esticou na direo da bola, mas deixou-a escapar.
- Quem disse que eu estou interessada no time de futebol americano da Parker, com ou sem sunga?
- D um tempo  debochou Maddie, puxando um cacho de seu cabelo castanho avermelhado que pendia sobre a testa.  Todo mundo viu voc secando Jared Colburn na festa da piscina da Bev no fim de semana passado.
- Eu no estava secando ningum  Charlotte se defendeu, enquanto abaixava para pegar a bola no gramado.  Eu s estava... inspecionando. Alm do mais, todas as garotas ficam olhando pro Jared.
- Tudo bem, mas ele tambm estava lanando olhares pra voc  retrucou Maddie.  Com certeza estava acontecendo uma inspeo dos dois lados.
- No estava  protestou Charlotte, com as bochechas queimando.
- Estava  insistiu Maddie.
No fim da tarde, elas ainda discutiam o mesmo assunto no banco traseiro do carro da me de Maddie, enquanto iam de carona para a praia.
- Porque Jared estaria olhando pra mim?  Charlotte perguntou para Maddie.
- Ah, por favor  Maddie revirou os olhos.  No me faa dizer isso. Voc  a garota mais bonita da turma. Os caras esto sempre paquerando voc. S que voc  muito tmida pra perceber.
Charlotte no respondeu. Seria mesmo possvel que Jared Colburn tivesse algum interesse nela? E se ele tivesse... e a? Ela lanou o olhar pela janela em direo ao mar enquanto a senhora Howe parava o carro no estacionamento da praia. Logo alm das dunas, o Oceano Atlntico recebia a ltima luz do dia, lanando um reflexo prateado sob aquele cu cortado por nuvens. Havia, agora, uma brisa que carregava o cheiro da maresia.
Respirando profundamente aquele ar vindo da praia, Charlotte percebeu que seu corao acelerava por antecipao. Ao longe, um grupo de jovens se reunia em torno de uma churrasqueira porttil. Ser que Jared j est aqui?, ela se perguntou.
Maddie combinou com a me um horrio para que ela viesse busc-las, e as duas garotas pularam para fora do carro.  medida que elas atravessavam as dunas, Charlotte retardou os passos.
- Espere um pouco  disse ela.
- Qual  o problema?  perguntou a amiga.
- Estou nervosa  confessou Charlotte, com seu rosto bronzeado ficando rosa.  E se... quer dizer, o que eu devo fazer se, bem, se... voc sabe  ela gaguejou.
Maddie abriu um sorriso, seus olhos faiscavam.
- Se Jared Colburn vier falar com voc? Relaxe. E seja voc mesma  aconselhou, dando um aperto de encorajamento no brao de Charlotte.  Eu tenho a sensao de que esta vai ser sua grande noite, Charlotte Kennedy  previu Maddie.
Relaxar. Ser eu mesma, Charlotte pensou, conforme seguia Maddie em direo  praia. Maddie fazia tudo parecer fcil demais. Alm disso, concluiu Charlotte, talvez ele nem tente conversar comigo. Quer dizer que ele sorriu umas duas vezes pra mim, e da? Ele  s um cara simptico, s isso. Charlotte levou apenas dez segundos para se convencer de que havia imaginado a coisa toda e de que no existia a menor chance de ele estar interessado por ela. Desde a stima srie, quando Jared se mudou para Parker Point, um bairro abastado no litoral norte de Boston, onde Charlotte morara a vida inteira, havia diversas garotas caindo por ele. Jared poderia ficar com quem quisesse. Porque escolheria justamente ela?
A festa na praia j estava super animada. Dois garotos tomavam conta da churrasqueira, havia uma tina enorme de plstico abarrotada de gelo e latinhas de refrigerante, frisbees voavam e a msica alta no parava de sair das caixas de um aparelho de som. Charlotte conhecia quase todos ali. Era a galera popular da escola, e ela se encaixava bem entre eles, ainda que tivesse uma tendncia a ficar junto dos mais tmidos nesse tipo de festa.
Talvez isso acontecesse porque, em vez de ser uma das meninas que faziam parte da torcida organizada da escola, tinha aulas de bal cinco vezes por semana e gostava mais de msica clssica do que de rock. Poderia ser por causa de sua aparncia. Alta e magra, com pernas longussimas, Charlotte tinha traos delicados. Tinha tambm uma maneira elegante de andar, tpica de uma bailarina, costas sempre retas, e um hbito inconsciente adquirido no bal de erguer seu queixo no ar  o que fazia algumas pessoas a acharem esnobe. Poderia ser porque, ao contrrio da maioria das outras meninas, incluindo Maddie, ela ainda no tinha comeado a namorar de verdade.
- Vou pegar um hambrguer  anunciou Maddie.
Charlotte seguiu a direo do olhar de Maddie, que estava fixo em Jeff Swanson, o alto, magro e loiro co-capito do time de futebol americano da escola Parker. Jeff estava ao lado da churrasqueira, com uma lata de soda em uma das mos e a esptula na outra.
- Quer dizer, voc vai pegar o cara que est assando os hambrgueres  debochou Charlotte.
Maddie sacudiu seus cabelos para trs, sorrindo.
- Com alguma sorte, eu vou pegar o hambrguer e o cara.
Charlotte viu Maddie caminhar em direo a Jeff, invejando a confiana da amiga. Ento, avistou sua vizinha, Christine OHearn, ajoelhando-se perto do som e vasculhando um punhado de fitas cassetes. Ela se precipitou na direo de Chrissy, mas seu caminho foi bloqueado. Um rapaz alto e atltico, com cabelos escuros ondulados e olhos verdes brilhantes, havia parado exatamente  sua frente, e parecia no ter a menor inteno de sair dali. Jared Colburn.
Assim que Charlotte levantou seu olhar, ele abriu um lento sorriso. Ela tentou disfarar, mas teve a sensao de que Jared havia percebido seus joelhos se dobrarem de nervosismo.
- Charlotte Kennedy  disse Jared.
Agora, Charlotte desejava que, naquele cair da noite, ele tambm no pudesse perceber que a temperatura do corpo dela havia aumentado uns dez graus s de ouvi-lo pronunciar seu nome.
- Exatamente a garota que eu estava procurando  continuou Jared.
- Eu?  ela falou numa voz esganiada.
- , voc. Venha  ele colocou a mo no brao dela e a conduziu para outra direo.  Vamos pegar um pouco de comida e achar um lugar calmo para sentar.
Charlotte no entendeu como conseguiu encher um prato de plstico sem derrubar salada na roupa. Seu rosto ainda formigava dos ps  cabea por causa do rpido toque de Jared em seu brao.
Antes que tivesse tempo de entender como realmente estava se sentindo, Jared a levou para longe da multido. Eles se sentaram um ao lado do outro em uma pedra, com os pratos equilibrados sobre os joelhos.
- Agora podemos nos escutar enquanto conversamos- disse Jared.
- , concordou Charlotte, constrangida.
Ele soltou uma gargalhada.
- Eu sou um pouco abusado, n?
Ela balanou a cabea, seus longos cabelos loiros batiam contra suas costas.
- No necessariamente  ele falou com cautela.
- Voc no precisa me fazer companhia se no quiser  ele garantiu. E lanou mais um daqueles sorrisos de dobrar os joelhos.  Eu s vinha pensando que, ah, eu quero conhecer aquela garota melhor, ento decidi aproveitar a oportunidade, entende?
Nesse momento, o rosto de Charlotte ficou to vermelho que ele no tinha como no perceber. Ela mal pde resistir  idia de encostar a latinha gelada de refrigerante em suas bochechas ultra coradas.
- Bem...  falou envergonhada.
Jared deu uma risada.
- Desculpe. Eu no queria deixar voc sem graa.
Ele deu uma mordida no hambrguer. Charlotte fez o mesmo, ainda que estivesse com tanto pnico que nem sequer conseguia mastigar e engolir.
Diz alguma coisa, ela ordenava a si mesma, antes que ele fique entediado e perca a vontade de conhecer voc.
Sua lngua, porm, parecia estar amarrada. Felizmente, Jared quebrou o silncio.
- Eu ouvi que voc dana  ele disse. - Bal, no ?
-   respondeu ela, surpresa de que ele soubesse.  Tenho aula no Conservatrio New England, em Boston. Comecei quando tinha cinco anos.
Ele assoviou.
- Uau! Voc deve ser muito boa.
Ela balanou os braos.
- Ah, dano bem. Voc joga futebol, certo?
Ele concordou com a cabea, terminando o hambrguer e limpando seus dedos num guardanapo.
- E beisebol na primavera.
- Eu amo beisebol  Charlotte soltou espontaneamente.
- Mesmo? Um monte de garotas acha chato.
- No eu  disse ela.  Meu pai me leva para os jogos dos Red Sox desde que fiquei grande o suficiente para segurar um lpis e ajud-lo a acompanhar o placar.
- Que legal  disse Jared.  E aquele jogo semana passada contra os Yankees, hein?
Eles embarcaram numa animada conversa sobre as possibilidades de o Red Sox ir bem no campeonato, o que depois se transformou numa conversa sobre msica.
Conforme Jared contava a Charlotte sobre suas bandas locais favoritas, ele soltava frases como mal posso esperar para lhe mostrar esse CD e tenho que levar voc pra assistir a um show deles. O pulso de Charlotte se acelerava, ouvindo-o falar. Estou a ss com Jared Colburn, pensou ela, sentindo uma certa vertigem, e posso estar errada, mas acho que ele vai me convidar pra sair!
A noite havia cado. Ao longe, na praia, as brasas da churrasqueira brilhavam como olhos vermelhos na escurido. Alguns garotos estavam recolhendo pequenos pedaos de madeira para fazer uma fogueira.
- Como  que ficou to tarde de repente?  perguntou Jared. Ele escorregou para mais perto dela sobre a pedra. Os braos dos dois estavam se tocando agora.
As horas tinham voado como minutos.
- No sei  Charlotte falou suavemente.
- Eu no devia ter monopolizado voc assim  Jared virou-se para poder v-la de frente.  Seus amigos devem estar se perguntando o que aconteceu com voc.
Ela baixou os olhos timidamente.
- Acho que eles no devem estar to preocupados.
- Charlotte.
- O qu?  falou, levantando o rosto.
- Voc tem olhos lindos.
As bochechas dela ruborizaram.
- Ah... obrigada.
- E um cabelo muito bonito  falou, levantando a mo para retirar um fio que estava cado no ombro dela.  Voc acha que...
Charlotte prendeu sua respirao. Ele vai perguntar se pode me beijar!, ela imaginou. Na verdade, ela nunca havia beijado um garoto antes, pelo menos no na boca. O que ela deveria falar? O que ela deveria fazer?
Antes que Jared pudesse terminar sua frase, a magia do momento foi quebrada.
- Desculpem por estar interrompendo vocs  Maddie falou de uma certa distncia - , mas minha me chegou, Char.
Charlotte olhou para Maddie e concordou com a cabea.
- Eu preciso ir  ela disse desapontada.
Eles se levantaram. Jared recolheu os pratos de plstico e as latas vazias de refrigerante.
- Vou ligar para voc  prometeu ele.
- O.k.
- Eu vou, voc sabe.
Ela riu.
- Eu acredito em voc!
Jared abaixou sua cabea para perto da dela. Seus lbios encostaram no canto da boca de Charlotte, num toque leve como uma borboleta.
- No, eu quero dizer, de verdade. Eu vou mesmo  ele piscou para ela antes de se virar para ir embora.  At logo, Charlotte.
- At  respondeu ela.
Assim que Jared se afastou um pouco, Maddie correu para perto de Charlotte exigindo detalhes.
- Charlotte, ele no conversou com mais ningum durante a noite toda!  Maddie soltava risadas estridentes enquanto elas atravessavam as dunas em direo ao estacionamento.  Jared Colburn est apaixonado por voc!
- Ele no est apaixonado por mim  protestou Charlotte. Mas seu rosto ainda continuava brilhando.
Maddie suspirou extasiada.
- Voc e Jared Colburn. Ele  o cara mais bonito do colgio! Ele convidou voc pra sair?
- Ele disse que vai me ligar.
- Amanh?
- Eu no sei!
- Voc tem que me ligar logo depois que ele ligar  insistiu Maddie.
- Est certo.
- Uau, Char  Maddie agarrou os braos de Charlotte e deu-lhe uma sacudidela.  Jared Colburn!
Elas correram para o carro da senhora Howe, dando risadinhas como se fossem duas malucas. A adrenalina fervia nas veias de Charlotte, ela sentia como se pudesse ir para casa flutuando.
At aquele momento, ela no tinha gasto muito tempo pensando no que aquele primeiro ano do Ensino Mdio iria trazer. Imaginava que seria bem parecido com os outros anos, apenas com matrias mais difceis. Mas agora, repentinamente, ela estava aguardando o inicio das aulas de uma maneira inteiramente diferente, por uma razo inteiramente diferente. Ela tinha a sensao de que sua vida estava prestes a mudar.
 Jared Colburn, Jared Colburn. Ela cantava o nome dele em sua cabea, seus ps danando pela calada. Maddie estava certa. Aquela tinha se transformado em sua grande noite.

Captulo UM
A madeira queimada na fogueira produzia estalos, lanando fascas dentro da escurido daquela noite de vero. Charlotte observava Jared colocar mais lenha no fogo. Logo depois de voltar a sentar na areia fresca, apoiando as costas em um tronco, Jared envolveu-a com seus braos, puxando seu corpo para mais perto.
Aconchegando-se junto ao namorado, Charlotte no podia deixar de lembrar daquela noite, dois veres atrs, quando ela e Jared haviam de encontrado pela primeira vez. Apesar de sua falta de experincia em relacionamentos naquela poca, Charlotte teve a certeza de que algo estava para acontecer entre eles. Mas nunca poderia imaginar que manteriam um namoro firme por dois anos. Em breve, comeariam o ltimo ano do Ensino Mdio e ainda estavam juntos. Eram praticamente uma instituio na escola Parker, certamente seriam escolhidos para o casal da classe no livro anual dos alunos.
-Este vero foi incrvel  comentou Jeff Swanson, entornando uma lata de refrigerante garganta abaixo e depois esmagando o alumnio com seu punho.
- Festas excelentes  concordou o ruivo Matt McClellan.
- Vocs se lembram da noite em que pegamos a lancha dos pais da Paige no cais e Jared caiu no mar?  Perguntou a namorada de Jeff, BEV Constable. Ela era uma garota loira, baixinha, com covinhas e olhos azul-escuros.
Todos gargalharam. Jared abriu um sorriso de deboche.
-Ei, eu no ca. McClellan me empurrou  disse ele.
- E a ele zarpou coma lancha e deixou voc nadar de volta at o cais  lembrou Paige Bristol, balanando seus cabelos castanhos.  Gente, se meus pais soubessem disso!
- E aquele dia no estdio?  perguntou o namorado de Paige, Bob Kowalski, goleiro do time de hquei da escola Parker.
- E quando ficamos na arquibancada, assando no sol e comemos trs cachorros-quentes cada um?  resmungou Jared.
-Eu no diria que esse foi um ponto alto do vero.
-E aquele fim de semana em que os pais de Charlotte viajaram e ns praticamente nos apossamos da casa dela e fizemos uma festa de quarenta e oito horas?  disse Bob.
Jared ajeitou os longos cabelos loiros de Charlotte para o lado, de modo a poder passar o nariz por sua nuca.
- Agora sim, esse foi um ponto alto  murmurou ele.
Enquanto seus amigos continuaram trocando histrias sobre o vero e comearam a falar sobre o ltimo ano na escola, Charlotte estudava os rostos que circulavam a fogueira. Paige, Bob, Jeff, Matt, BEV, Maddie, Walker, Samantha. Todos eram bonitos, bronzeados, relaxados, adolescentes que haviam levado uma vida favorvel e no esperavam nada do futuro alem de continuar tendo felicidade e sucesso.
Novamente, Charlotte se lembrou da festa na praia dois anos atrs. Ela ainda continuava sendo um pouco tmida quando estava entre o pessoal mais popular da Parker. Mas agora, graas, principalmente, ao fato de namorar Jared, ela era vista como uma das scias daquele clube. Mas s vezes eu sinto como se no fizesse parte disso, refletiu.
Enquanto Samantha Steiner terminava uma historia engraada sobre seu mais recente passeio por uma faculdade, Charlotte puxou os braos de Jared para mais perto, saboreando a segurana que a proximidade dele lhe dava.
Neste momento, Maddie lanou um sorriso para Charlotte de relance.
- Falando em faculdade, vocs sabem  anunciou Maddie  que a professora de bal de Char acha que ela deve tentar uma vaga em alguma faculdade com programa de dana ou at mesmo fazer um teste para o Bal de Boston?
- No brinca?  disse Bev.  Isso  o Maximo, Charlotte!
-Uau!  exclamou Paige.
- O bal de Boston?  repetiu o atual namorado de Maddie, Walker Smith.  E nem fazer faculdade?
- No brinca?  disse Bev.  Isso  o Maximo, Charlotte!
-Uau!  exclamou Paige.
- O bal de Boston?  repetiu o atual namorado de Maddie, Walker Smith.  E n em fazer faculdade?
Charlotte sentiu os braos de Jared apertarem seu corpo.
- Ei, voc no me contou isso  disse ele, com um tom acusador em sua voz.
Charlotte mordeu os lbios, desejando que Maddie no tivesse tocado no assunto do bal.
Eu acho que no disse nada porque ainda no sei se devo levar isso a srio  respondeu ela.  Voc conhece a senhora Laurent. Uma vez na vida ela me elogia, mas a maior parte do tempo  to hipercrtica! Tenho certeza que de que, na prxima aula, ela vai me lembrar o quanto sou completamente atrapalhada.
- No seja modesta Char  repreendeu Maddie afetuosamente.  Voc poderia facilmente ser aceita por aquela escola em Nova York, a Suny Purchase.
- Talvez, mas...  comeou Charlotte.
- Mas ela no quer ir para uma escola como essa  interrompeu Jared.  Ela no vai para a Faculdade Wellesley, como sua me, sua av e sua irm. No , Char?
A coluna de Charlotte endureceu.
- No sei  afirmou baixinho.  Quer dizer, eu acho que se eu passasse para Wellesley eu iria...
-  claro que voc vai passar  assegurou Jared.  Voc  uma excelente aluna, tem o lance da dana que conta a seu favor e, alm do mais, tem um histrico que ajuda. Todas as mulheres de sua famlia estudaram l. Voc vai passar.
A afirmao definitiva de Jared terminou a discusso. A conversa seguiu em outras direes. Por um tempo, o grupo conversou sobre que atividades extracurriculares da universidade pareciam mais interessantes.
Ento, os meninos comearam a fazer previses sobre a prxima temporada do time de futebol americano da Parker.
Charlotte comeou a se sentir inquieta. Sempre volta para o futebol, pensou ela, disfarando um bocejo. Jared e Jeff seriam os dois capites do time principal, e desde que os treinos pr-temporada haviam comeado, futebol americano era o nico assunto para Jared. Mas  natural, Charlotte aceitou. Ele  o astro.
Bem no fundo de seu corao, porem, ela sabia que, naquele momento, no era a onipresena do futebol que a estava chateando. Ela ainda estava irritada com os comentrios de Jared sobre Wellesley, pelo modo como ele a tinha interrompido, concludo a frase por ela e suposto que sabia exatamente o que ela pretendia dizer e como se sentia.
Assim que reconheceu seu ressentimento, Charlotte imediatamente se sentiu culpada e desleal.  claro que Jared s tinha boas intenes. Ela havia conversado varias vezes sobre a possibilidade de seguir a tradio da famlia e estudar em Wellesley, uma faculdade de prestgio freqentada s por mulheres que ficava ao lado de Boston. E uma vez que Jared sonhava em conseguir uma bolsa de estudos para esportistas em Harvard, naturalmente ele queria que ela continuasse na rea de Boston tambm. A atitude dele fazia sentido. Mesmo assim...
Charlotte se afastara alguns centmetros de Jared enquanto seus pensamentos comearam a vagar. Ela, ento, aproveitou a oportunidade de observ-lo enquanto ele conversava. Seu lindo rosto brilhava conforme ele descrevia sua estratgia para levar o time de futebol para o campeonato estadual. Divertido contador de histrias, ele mantinha sua audincia gargalhando. Era uma viso familiar. Jared era o centro das atenes em seu crculo social, e sempre havia sido.
Charlotte abraou as pernas e enfiou os dedos dos ps na areia fria. Repousando seu queixo sobre os joelhos, fitou melancolicamente a fogueira que soltava fascas. No conseguia deixar de sentir alguma coisa naquela noite, naquele momento, no estava totalmente certa. Dois anos depois que comeara a namorar Jared, a situao era a mesma. Ele era o mesmo, a praia era a mesma, os amigos deles eram os mesmos. Mas eu estou diferente, pensou Charlotte repentinamente. Ou pelo menos quero estar.
Ela sentiu uma mo deslizando por suas costas. Jared comeou a massagear seus ombros. Charlotte fechou os olhos e seu corpo relaxou automaticamente. Ela se lembrou se como seu corao acelerara na primeira vez em que ele havia lhe tocado, lembrou-se da magia de ouvir pela primeira vez uma outra pessoa falar que os dois formavam um lindo casal, da maneira como as outras garotas da escola a invejaram Ela havia conquistado Jared Colburn, o cara mais quente da escola Parker. E se lembrou de quando passeou com Jared numa tarde de outono, pelo parque da cidade. Ele havia entalhado as iniciais deles em um banco de madeira do parque, com vista para o litoral.  J. C. + C. K. , para sempre, dentro de um grande corao.
As mos de Jared seguraram sua nuca, afetuosamente possessivo. Para sempre, pensou Charlotte. O que ela podia entender por para sempre quando tinha apenas quinze anos? E mesmo agora, como entendia isso?
Ela suspirou, uma estranha agitao atormentando-a novamente. Jared e Charlotte, Charlotte e Jared. A unio deles era algo que todo mundo, especialmente Jared, parecia dar como certa e inaltervel. Um novo e inoportuno pensamento tomou conta de Charlotte. ser que sou a nica pessoa, perguntou a si mesma,  que no tem certeza de que somos um casal perfeito?
Jared entrou com seu carro conversvel usado na garagem dos Kennedy, puxou o freio de mo e desligou o motor.
- Foi uma noite divertida  ele disse em voz baixa, deslizando um brao ao redor da cintura fina de Charlotte e puxando-a para perto dele.
- J estou atrasada para o toque de recolher  falou ela.
Ele sorriu para ela na escurido.
- Ainda temos cinco minutos. Vamos aproveitar.
Eles se abraaram. Beijar Charlotte era uma das atividades extracurriculares preferidas de Jared  ele havia esperado por esse momento toda a noite. Como sempre, a sensao de beijar a namorada, tendo os braos ao redor do seu corpo delgado, era deliciosa. Afinal de contas, a prtica levava  perfeio, e no apenas no futebol americano.
No entanto, quando Jared estava se entregando, Charlotte o afastou.
- Eu tenho mesmo que ir  falou, esticando a camisa de algodo e passando os dedos pelos longos cabelos sedosos.
Jared percorreu o brao dela com o dedo indicador, do ombro at o pulso.
- Ainda falta um minuto e trinta segundos no relgio.
- Acho que estou cansada  desculpou-se Charlotte.  Fiz uma aula extra de ponta depois da minha aula normal de bal hoje - explicou, mas sem sair do carro. Depois de um momento de silncio, ela acrescentou hesitantemente.  Jared...
- Humm?  murmurou ele, inclinando-se para beij-la novamente.
Ela encostou as costas na porta do carro, escapando do toque dele.
- Sobre aquilo que ns conversamos na festa hoje  noite. O lance do bal.
Irritado, Jared desistiu da tentativa de beij-la.
- O que  que tem?
- Ah, bem, eu s queria que voc soubesse que no  nada definitivo  ela virou o rosto e lanou o olhar para frente, em direo ao pra-brisa preto.  Quer dizer, nem sei se vou ou no me inscrever na Suny Purchase ou alguma outra escola dessas, e muito menos se vou fazer um teste para o Bal de Boston. Quer dizer, talvez sim... e talvez no.
Jared no conseguia entender por que, repentinamente, Charlotte sentira que precisava retomar esse assunto naquele momento. Eles j no haviam falado tudo o que precisava ser dito? No entanto, ela parecia estar precisando de mais segurana para tomar sua deciso.
- Ei, se voc quiser tentar a Purchase, eu no vejo motivo para que voc no tente  Jared lhe falou.  Seria uma grande massagem no seu ego se voc passasse. Mas voc no pode abrir Mao de Wellesley, Chat. Uma boa faculdade de artes humanas pode ser um trampolim para qualquer lugar que voc queira ir. Um curso de administrao, de direito, o que for.
- Acho que sim  murmurou Charlotte.
- E vai ser muito legal  continuou Jared.  Estarei em Cambridge, e voc vai estar numa cidade alguns quilmetros a oeste; nos veremos o tempo todo  ele puxou-a para seus braos, esfregando a ponta do nariz contra o dela.  E, alm disso, estaremos morando em dormitrios. Sem parentes, sem toques de recolher. No parece o mximo? No  o que voc quer?
Charlotte no respondeu de imediato. Jared comeou a ficar irritado de novo. Normalmente, era sempre to fcil conviver com ela! Charlotte no era o tipo de garota que fazia o gnero descubra-o-que-estou-pensando. O que estava acontecendo essa noite?
- No  o que voc quer?  repetiu ele.
- Eu quero...  comeou Charlotte.
Jared esperou que ela se explicasse, cumprimentando a si mesmo por estar sendo to paciente. Ele decidiu que daria a ela uma chance de deixar as coisas mais claras em sua cabea, mas, se continuasse to indecisa, ele no hesitaria em se intrometer e dizer-lhe o que ele achava que ela precisava.
Charlotte, porm, mudou de humor bem na hora certa, segundo a opinio de Jared.
-   disse ela com um suspiro quase imperceptvel, descansando seu rosto sobre o peito dele.   isso o que eu quero.
s oito horas da noite do dia seguinte, Charlotte se ajoelhou sobre a cadeira perto da janela de seu quarto. Depois de abrir a persiana o mximo possvel, pressionou o nariz contra o vidro para olhar melhor do lado de fora. Uma lua crescente estava pendurada no cu escuro, e a brisa agitava as folhas dos carvalhos que circundavam o campo ao lado de sua casa vitoriana. Aquele cheiro de terra no ar fresco noturno lhe dava um sinal de que era outono.
Charlotte se reclinou um pouco para trs e abraou suas pernas, seus olhos fixos no desenho da lua. Vozes distantes vindas do lado de fora chegavam pela janela. Eve e Alan, seus pais, estavam no gramado pouco iluminado bem abaixo. Charlotte pde ver sua me se curvar sob um arbusto do jardim. A taa de vinho na mo de seu pai cintilou, refletindo um raio de luz vindo de uma das janelas do primeiro andar.
Por algum motivo, ver e ouvir seus pais no jardim fez com que Charlotte se sentisse s.  Gostaria que Amlia estivesse em casa, pensou. Sua irm mais velha, ema caloura de faculdade, havia partido para Wellesley na semana anterior. No que Amlia pudesse dizer a Charlotte o que pensar e sentir sobre o relacionamento com Jared. Ela provavelmente s daria uma palestra de como as coisas so muito mais complicadas para adultos como ela e TIM, agora que ele estava longe na Johns Hopkins, estudando medicina, imaginou Charlotte.
Ela diria que estou pensando demais e que deveria apenas relaxar.
E talvez Amlia estivesse certa. Charlotte suspirou. Era possvel. Ela teve muita certeza do que sentia quando, pela primeira vez, disse a Jared que o amava. Ser que valia a pena escutar as coisas confusas que seu corao estava lhe sussurrando ultimamente? Por que ela deixara de saber, tanto quanto j soubera uma vez, como era realmente amar algum e ser amada?
Charlotte abaixou as persianas da janela, escondendo a lua crescente. Amanh seria o primeiro dia de um novo ano escolar. Ela e Jared estariam no ltimo ano do ensino mdio. Vamos s ver o que vai acontecer, decidiu. por que fazer tempestade num copo dgua?
Captulo DOIS
Realmente existiam algumas vantagens em ser um aluno do ltimo ano, Jared concluiu na quarta-feira, o primeiro dia de aula na escola Parker. Logo de cara percebeu que as
coisas estavam diferentes... e melhores. Colocara o carro no setor do estacionamento reservado aos alunos do ltimo ano, ou seja, as vagas mais prximas do prdio da escola.
Os antigos alunos do ltimo ano haviam desaparecido dos corredores, substitudos por uma multido de calouros idiotas, que trombavam pelos cantos com seus narizes enfiados em mapas da escola e mochilas novinhas caindo de seus ombros.
Como alunos do ltimo ano, Jared e seus colegas tinham recebido o direito de utilizar o territrio principal da cafeteria: um conjunto de mesas ao lado das janelas. Conforme Jared comeou a andar naquela direo, percebeu, com satisfao, que todos os olhares estavam voltados para ele. Nem estava vestindo a jaqueta da equipe de futebol, mas sabia que, mesmo assim, a maioria dos alunos o reconhecia. Pelo menos os alunos que contavam: os mais legais.
Jared desacelerou o passo assim que se aproximou de uma mesa cheia de garotas populares do segundo ano. No ano anterior, Charlotte as havia apelidado de as fs, porque compareciam a todos os jogos do time de futebol americano, na escola ou em qualquer outro lugar, levantando cartazes e pompons, dedicando uma energia sem limites para idolatrar os jogadores, Jared em especial. E isso era algo bem tranqilo para ele  na verdade, Jared achava que este era um dos maiores atrativos de ser um Cara Famoso da escola.
-Ei, Jared  Chamou Deidre Hess, balanando seus cabelos pretos sedosos.  Teve boas frias?
Todas as fs eram bonitas, mas Deirdre era absolutamente linda. Jared no se importava em perder alguns minutos flertando com ela. Puxou a cadeira vazia ao lado de Deirdre e sentou-se com o encosto de madeira voltado para a frente, encarando-a.
- Foi razovel  falou lentamente.  E voc? Fez alguma coisa alm de pegar esse bronzeado?
Deirdre sorriu. Era impossvel no notar o quanto seus clios eram pretos e exuberantes  e ela os agitava numa velocidade tremenda.
- No muito.
A conversa no era exatamente brilhante, mas Jared no se importava. Era divertido apenas olhar Deirdre e saber que ela e suas amigas dariam risadinhas e praticamente desmaiariam assim que ele desse as costas.
Quando avistou Charlotte vindo em sua direo com a bandeja do almoo, Jared levanto-se.
-Vejo voc nas arquibancadas  falou ele, abrindo seu sorriso mais amvel para Deirdre.
Sem titubear, deslizou um brao ao redor da cintura de Charlotte e conduziu-a para uma mesa vazia no territrio dos alunos do ultimo ano. Antes que se sentassem, retirou a bandeja das mos de Charlotte, colocando-a sobre a mesa. Ento, abraou-a e beijou seus lbios.
Charlotte se desvencilhou do abrao.
-Estou chateada com voc - disse.
Jared levantou uma sobrancelha.
-O que foi que eu fiz?
-Bev me contou que voc tem ingressos para um show na sexta-feira  noite  ela disse com uma voz irritada -, e que nos todos iremos jantar fora antes. Voc deveria ter me dito isso antes.
Jared atirou-se numa cadeira e despejou sobre a mesa o contedo da sacola com seu almoo: dois sanduches, uma ma, um saco de batatas fritas, meia dzia de bolachas e uma garrafa de uma bebida energtica verde fluorescente.
- Por que, voc tem outros planos?  ele debochou.
- No, mas...- sua frase ficou inacabada.
Charlotte andava fazendo muito aquilo ultimamente, no terminando seus pensamentos, o que aborrecia Jared um pouco. Era um trabalho extra tentar adivinhar o que se passava pela cabea dela.
- Mas o qu?  ele estimulou.  Voc no quer ver o show? Eu aposto como consigo encontrar outra pessoa que queira ir. Deirdre Hess, talvez.
Ele estava apenas provocando. Charlotte devia saber que Deirdre no representava realmente uma ameaa. Jared nunca iria alm das piscadas de olho e sorrisinhos; era somente um jogo.
Charlotte, porm, ficou ruborizada, como se seus sentimentos tivessem sido realmente feridos.
- Se voc prefere levar Deirdre, ento leve  disse num tom de voz baixo.
- Pare com isso, Char  ele falou e lhe deu um abrao suave, beijando-a atrs da orelha.  O show vai ser o mximo. Voc vai me agradecer depois, tenho certeza.
Ela nem respondeu.
Jared ia insistir no assunto, mas antes que pudesse perceber a mesa foi tomada por seus amigos. Todos comearam a comentar como tinha sido legal Jared conseguir aqueles ingressos to disputados para o show.
Enquanto Jared comia seu segundo sanduche, lanou um olhar para Charlotte. Est vendo?, diziam seus olhos. Todo mundo est louco pra ir. Por que voc est reclamando?
Charlotte desviou o olhar e se manteve em silncio pelo resto do almoo; assim, Jared no pensou mais sobre o incidente. No que ele tivesse chegado a chamar aquilo de incidente. Ele e Charlotte estavam namorando h muito tempo e sempre haviam se dado super bem. Ela s estava com um humor estranho. Na sexta-feira  noite, eles se divertiriam muito no show. Juntos. Ele estava contando com isso.
- Quanto tempo ser que o judys vai durar, agora que abriu aquele novo caf no quarteiro?  Maddie perguntou a si mesma em voz alta, enquanto enfiava um canudo de biscoito em seu milk-shake de baunilha.
Charlotte, Maddie e Samantha haviam se reunido, aps o primeiro dia de aula, no ponto de encontro predileto delas, uma lanchonete chamada Judys, freqentada pelos alunos da Parker desde os anos 1940. Era mobilhada com tradicionais poltronas de vinil vermelho, um balco cromado e uma jukebox antiga. A singularidade da decorao do Judys, porm, era de um mau gosto surpreendente: pinturas melodramticas de ondas estourando na praia e baleias esguichando gua estavam espremidas entre estantes entulhadas de conchas, miniaturas de ncoras e pequenos navios dentro de garrafas.
Samantha tinha sugerido que fossem ao Coffee Club em vez do Judys, mas a maioria foi contrria a idia.
- Parece que eles tm uns sanduches fantsticos e uns cookies de morrer  disse Samantha, numa voz cheia de vontade.
Charlotte franziu o nariz.
- Eles servem picol em vez de sorvete  salientou, como se isso j dissesse tudo, e deu uma mordida no picles que vinha acompanhando seu sanduche de atum.  Felizmente ainda existem pessoas que gostam mais de caf de coador e hambrguer do que de expresso e queijo de cabra.
Maddie apoiou um cotovelo sobre a mesa e virou-se para Samantha com um interesse exagerado.
- Cookies de morrer? Mesmo?
Charlotte deu um chute de brincadeira na canela da amiga. Maddie deu um pulo, fingindo sentir dor. Ento, de repente, deu um pulo de verdade.
- Eu contei pra vocs o que o senhor Schalkmeyer fez?  perguntou ela, referindo-se ao professor de Historia Americana.  No primeiro dia de aula, ele deu uma pesquisa de dez paginas sobre a Suprema Corte. E a turma vai ter s duas semanas pra entregar.
- Argh!  exclamou Samantha.
- Pelo menos eu tive uma luz e me inscrevi numa aulinha fcil de ingls  refletiu Maddie.  Voc foi maluca de ter escolhido Shakespeare, Char.
- Vai ser difcil  reconheceu Charlotte - , mas que se importa quando voc tem que ficar uma hora sentada olhando pro professor Irving?
- Verdade  Maddie concordou com uma risadinha.
Samantha acabou de separar os croutons de sua salada, colocando-os num canto do prato, e retirou o excesso de molho. Antes de dar uma mordida, virou-se para Charlotte.
- Ouvi sobre a armao que voc e Jared fizeram pra conseguir duas janelas na grade de horrio.
- No foi uma fraude. Simplesmente aconteceu  disse Charlotte.
- E como  que ele est?  perguntou Maddie.
- Bem  respondeu Charlotte, sem querer se aprofundar muito naquele papo.
- S bem?  instigou Samantha.
- , s bem  repetiu Charlotte.
Maddie bebeu o resto de seu milk-shake, levantando as sobrancelhas.
- Por acaso vocs dois brigaram?
- Bem...  Charlotte se recostou no assento por um momento e pensou sobre o que havia lhe aborrecido naquele dia. Foram apenas coisinhas bobas, mas que tinham realmente lhe tirado do srio: andar na direo dele enquanto ele flertava descaradamente com Deirdre, jogando todo seu charme. Se alguma vez ela flertasse daquele jeito, ele pularia em cima do cara... como ele tinha duas medidas para tudo! E aqueles ingressos estpidos para o show! Jared sempre supunha que ela estava disponvel, no importava quando. Isso a deixava louca!
De repente, Charlotte sentiu um impulso irresistvel de contar tudo o que passava por sua cabea a suas amigas. Talvez elas pudessem ajud-la a colocar em ordem os sentimentos confusos que estava tendo em relao a Jared.
- Bem, no, na verdade ns no brigamos  comeou ela.
- Que bom  exclamou Samantha  porque seria o fim do mundo se a gente soubesse que voc e Jared tinham terminado o namoro. Quer dizer, vocs so o casal mais perfeito da escola Parker.
- Desde o inicio eles j eram perfeitos um pro outro  concordou Maddie.  E, como vocs devem lembrar, eu tive um papel fundamental no comeo dessa histria  ela acrescentou, cheia de si.
- Parem com essa coisa de perfeitos um pro outro, casal perfeito  interrompeu Charlotte, totalmente frustrada   um peso isso. E, alm do mais, nem  verdade.
- Mas vocs dois tm tudo  protestou Samantha, enquanto examinava suas unhas pintadas  Jared  um gato e voc  linda.
Os dois so inteligentes. Ele  um grande atleta; voc, uma grande bailarina. Ele tem carisma; voc tem classe. E, alm disso, vocs ficam bem juntos!
Charlotte fechou a cara.
- Ento  s isso que importa num relacionamento? Como as pessoas ficam bem juntas?
- No di nada ser bonito  contribuiu Maddie.
- E sobre ter coisas em comum?  persistiu Charlotte.  E... sobre ser capaz de conversar com o outro?
- voc e Jared conversam  falou Maddie.
-  claro que ns conversamos, s que...
 Ns no conversamos sobre as coisas que realmente importam. Ele est muito voltado pro prprio umbigo pra poder me escutar, pensou Charlotte pensou.
- s vezes, acho que Jared me escolheu apenas porque fao com que ele fique bem, sem tirar o refletor de sua direo  resmungou.
- Isso no  verdade, Char. E voc sabe  declarou Maddie.  Jared adora voc.
- Sim, mas ser que ele quer ficar comigo pelo o que eu sou? Ou apenas gosta de mim porque... - Charlotte interrompeu a frase com um suspiro. Maddie e Samantha a olhavam como se no conseguissem entender o que ela estava dizendo. Se pelo menos fosse possvel dar algum exemplo concreto para elas, como uma briga violenta ou algo parecido, sabia que suas amigas seriam supercompreensivas. Mas, do jeito que estava, suas reclamaes eram to vagas que as meninas simplesmente no entenderiam.
- Deixem pra l  Charlotte finalmente disse.  eu acho que estou meio perturbada hoje.
- Ns perdoamos voc  debochou Maddie.
- S no faa nenhuma bobagem  recomendou Samantha.  Voc tem sorte de ter um namorado como o Jared. Ele  um em um milho.
- Eu sei  disse Charlotte com a voz apertada.
 Elas acham que eu estou maluca, refletiu. Como posso estar insatisfeita se estou namorando o cara mais desejado da escola Parker?
Enquanto o professor Shirtavani assessorava os alunos que iam at sua mesa mostrar alguns exerccios de matemtica, Charlotte batia suas unhas na carteira de madeira, olhando preguiosamente para o cabelo ruivo de Margie Kendall, que estava sentada  sua frente. Margie folheava uma revista de moda. Os outros alunos estavam em suas carteiras, em diversas poses de tdio e distrao. Quando o vice-diretor, o senhor Cobb, comeou a anunciar as notcias da manh pelos alto-falantes que ficavam suspensos no teto da sala, meia dzia de alunos aproveitou a oportunidade para abaixar a cabea e tirar um cochilo na carteira.
O senhor Cobb estava divagando sobre estimular assemblias estudantis, encontros da sociedade nacional de educao e mudanas nos horrios das prticas esportivas do perodo vespertino.
Aps um bocejo, Charlotte resolveu revisar os clculos de seu dever de casa mais uma vez. Ela no tinha a menor idia de como havia feito aquilo corretamente. Sua professora de matemtica a senhora Hansen, havia jogado sua auto-estima no fundo do poo. Matemtica sempre tinha sido uma das melhores matrias para Charlotte; mas era apenas o segundo dia na escola e ela j se sentia completamente perdida nessa disciplina.
Foi ento que alguma coisa que o senhor Cobb disse chamou sua ateno.
- Estaremos lanando uma srie de workshops sobre conscincia da diversidade para as turmas do ensino mdio  o vice-diretor anunciava com sua voz montona.  No futuro, esse treinamento para diversidade dever ser uma parte obrigatria de nosso currculo. Este ano, no entanto, estamos oferecendo um curso experimental e, sendo assim, a participao  voluntria. Alunos interessados devem se inscrever com seus professores hoje pela manh. O primeiro workshop ser amanh s seis, no ginsio, com pizza e refrigerante fornecidos pela escola.
Charlotte ajeitou-se na cadeira. treinamento para diversidade? O que era isso?
Ela lanou um olhar pela sala, curiosa para saber se mais algum estava intrigado com a ltima notcia. Mas a maioria das plpebras ainda estava caindo. Era impossvel dizer se os poucos alunos que pareciam no estar em estado de coma tinham realmente escutado o senhor Cobb.
Dar uma olhada em seus colegas de classe, contudo, foi instrutivo de outro modo. Ela percebera a diversidade doa alunos: Raj, Jagannathan, Shizue Kawamura, Dolores Ramirez...
Quando Charlotte era criana, Parker Point era uma comunidade onde viviam apenas brancos norte-americanos descendentes de europeus. Metade das famlias na cidade podia seguir o rastro de suas razes at o Mayflower, o navio que trouxera os primeiros colonos para os Estados Unidos. seus ancestrais vieram da Irlanda durante a grande onda de imigrao que se seguiu  escassez de batata. Nos ltimos anos, porm, a cidade mudara. Como todo o restante do pas, imaginava Charlotte. A maioria dos estudantes da escola Parker ainda era formada por caucasianos, mas tambm havia muitos alunos de outras etnias.
O sinal tocou. Por toda a sala, corpos sem energia voltaram  vida. Charlotte se juntou  multido que se arrastava em direo  porta. Conforme foi se aproximando da mesa do professor Shirtavani, ficou atrs de Bob Kowalski e Pete Jarrett. Pete estava murmurando para Bob:
- Voc consegue acreditar nessa porcaria de conscincia da diversidade?  Pete, com a voz baixa mas com um tom inconfundivelmente desdenhoso, continuou: - Quanta...
Charlotte no escutou o resto do pronunciamento claramente  sensvel e articulado de Pete. Parou e deu um passo para o lado, a fim de sair do caminho dos outros. Num impulso, aproximou-se da mesa do professor.
Shizue Kawamura, mais conhecida como Susie, tinha ficado para trs e estava inclinada sobre a mesa do professor Shirtavani, escrevendo algo numa prancheta.
- Esta  a lista de inscrio pro workshop de diversidade?  Charlotte perguntou ao professor, apontando para a prancheta.
Ele fez que sim com a cabea.
- Com certeza. Voc vai experimentar?
Mesmo com o incentivo extra da pizza, no tinha acontecido exatamente uma algazarra em direo  mesa do senhor Shirtavani aps o sinal. Charlotte ainda podia ouvir os comentrios preconceituosos de Pete em sua cabea. Ela sabia que ele no era o nico a pensar daquela maneira. Na verdade, ela conseguia imaginar aquelas mesmas palavras saindo da boca de uma dzia de outras pessoas.
Como de Jared, por exemplo.
Susie virou-se para Charlotte com um sorriso tmido, pronta para lhe entregar a caneta.  algumas pessoas podem no se incomodar em aprender a pensar de uma maneira diferente, refletiu Charlotte.  Eu teria coragem de me esforar um pouco?
A resposta brilhava bem a sua frente. Charlotte retribuiu o sorriso de Susie com uma cordialidade verdadeira.
- Vou  disse ao professor Shirtavani.  Eu acho que vou experimentar.

Captulo TRS
- Por que  que voc no pode ir ao jantar hoje  noite?  Jared perguntou a Charlotte na sexta-feira  tarde, com uma voz aguda, no acreditando no que acabara de ouvir.
Os dois haviam se encontrado depois que ele terminara o treino de futebol americano. Estavam caminhando pelo gramado na frente da escola, em direo ao carro dele. Jared no conseguia aceitar que Charlotte estivesse acabando com os planos dos dois para aquela sexta.
-  aquele workshop sobre diversidade  repetiu, apertando uma pilha de livros da biblioteca contra o peito.  Voc no ouviu o senhor Cobb ontem?
- Ouvi, mas...  Jared deu uma gargalhada.  Vamos l, Char. Voc est brincando, certo? Voc vai dispensar um jantar na cidade e um show s pra ir num workshop idiota sobre conscincia da diversidade?
- No deve ser to idiota  ela respondeu se defendendo.  quer dizes, pode ser esclarecedor.
Jared balanou a cabea, com o cabelo preto ainda mido do chuveiro.
-  uma perda de tempo  declarou  Alm disso, temos outros planos.
- Mas j me inscrevi.
- E da? No v. Voc acha que algum vai se importar? Charlotte mordeu o lbio.
- Eu vou  disse ela aps um momento de silncio.  Eu quero ir ao workshop, Jared.
- Por qu?  perguntou ele, enquanto abria a porta do carro.  Voc j  to ocupada com o bal... pra que voc precisa disso agora?
Charlotte largou sua mochila no banco traseiro e depois se sentou na frente, ao lado de Jared.
- O mundo est mudando, voc sabia?  disse ela, apertando o cinto de segurana.  As pessoas no so todas iguais.
- Imagino que sim  respondeu ele, colocando a chave na ignio.  Hoje em dia, a gente encontra mais coreanos e paquistaneses em Parker Point do que antes. E da? Pra mim, tudo bem se eles querem morar aqui, mas tm que aprender ingls e se misturar.  assim que a Amrica deve funcionar.
- Mas as coisas no so to simples assim  argumentou Charlotte.  Por um motivo, a maioria das pessoas que no  branca no consegue uma chance nesse pas. Algumas delas esto aqui h mais tempo que a sua famlia ou a minha. No todos precisamos nos esforar para nos conhecer.
Jared lanou um olhar sobre Charlotte. Ela pegou os culos de sol do bolso de sua jaqueta e os colocou. Desde quando ela tinha se transformado na rainha-do-politicamente-correto?
- Deixe-me adivinhar. Voc est concorrendo para representante estudantil e quer conquistar os votos das minorias  ele brincou.  Ou voc realmente quer que eu leve Deirdre pro concerto em vez de voc.  isso?.
-  claro que no  Charlotte disse irritada.  Eu quero entender mais sobre a diversidade, s isso.
- Workshops comoventes no iro fazer com que grupos diferentes se dem bem  ele afirmou, com aborrecimento.  Todo mundo quer conviver com pessoas semelhantes  disse Jared. Ele olhou para ela, mas os olhos de Charlotte estavam ocultos atrs das lentes escuras.
- Mas voc no acha que fica chato, s vezes, fazer parte de uma panelinha que nunca muda? No tem vontade de conhecer pessoas diferentes
Jared pensou sobre isso por meio segundo.
- No necessariamente  concluiu.  o que  que est acontecendo com ela ultimamente? , pensou.
Por alguns minutos eles permaneceram sem conversar, apenas escutando o rdio. Jared segurou o volante com a mo esquerda e esticou o brao direito por trs do banco de Charlotte, de modo que conseguisse passar os dedos pelo cabelo dela.
Tomou o silncio da namorada como um reconhecimento de que estava certo. Isso fez com que se sentisse carinhoso e afetuoso em relao a ela, tanto que chegou at a repensar a idia do workshop sobre diversidade. Eu deveria dar algum crdito a ela, pensou. Talvez exista uma outra perspectiva. Ento, repentinamente, viu que ngulo era esse.
Jared desligou o rdio.
- Talvez no seja mesmo to estpido  anunciou ele.
Charlotte arqueou suas sobrancelhas.
- O qu?
- O workshop sobre diversidade  ele respondeu, balanando a cabea. Sim, agora ele estava bem certo sobre os objetivos dela... ou quais deveriam ser seus objetivos.  Voc est certa; isso pode ser bom para quando tentar uma vaga na faculdade.
- No  por isso que eu estou fazendo!  protestou Charlotte.
- Ah, vai... as faculdades gostam desse lance de conscincia social  persistiu.  Servir sopa em abrigos e tal. Eu mudei de idia, Char.  uma pena que tenha que perder o show, mas voc tem mesmo que ir pra esse workshop.
Charlotte no respondeu. Jared ligou o rdio novamente ento deslizou a mo pela coxa dela para dar um aperto em seu joelho. Ela tinha andado um pouco irritadia ultimamente, mas agora eles estavam em sintonia de novo. O que era bom, porque, com o primeiro jogo da temporada de futebol americano se aproximando, tudo o que Jared no precisava era ter que se preocupar com uma namorada mal-humorada. , fico feliz que entramos num acordo, pensou.
- Vai, Jared!  gritou Maddie. Ela comeou a pular para cima e pra baixo, to fortemente que a arquibancada sacudia.  Vamos l, Patriots!
Sentada ao lado de Maddie, Charlotte pulava tambm, batendo as mos com obedincia.
- Vamos l, Patriots!  repetiu ela.
Era um lindo sbado de setembro, o cu perfeito estava to azul que parecia quase violeta. Uma multido havia aparecido para ver o primeiro jogo da temporada com os Patriots, o principal time de futebol americano da escola Parker.
Charlotte estava rodeada pela turma de sempre: Maddie, Walker, Paige, Bob, Bev, Samantha e Matt. Eles estavam muito empolgados. Apesar de o jogo ter comeado h pouco tempo, os Patriots j ganhavam do time da escola West Salem por uma larga vantagem. Tanto Jeff quanto Jared tinham marcado vrios pontos.
- Esse jogo est incrvel  declarou Maddie, quase sem flego, despencando o corpo cansado no assento.  No est incrvel?
-  um grande jogo  concordou Charlotte.
Matt, que trouxera uma caixa de isopor de casa, comeou a distribuir refrigerantes para todos. Enquanto isso, Bev abriu uma vasilha cheia de seus famosos cookies de aveia e passas.
Charlotte mastigou um cookie enquanto olhava fixamente aquele campo de futebol americano verde-esmeralda. Ele estava se esforando ao mximo para ficar envolvida com o jogo, mas simplesmente no conseguia. Sentia-se estranhamente desligada, como se sua mente estivesse em algum outro lugar, enquanto seu corpo permanecia sentado nas arquibancadas, movendo-se num piloto automtico.
Algumas fileiras  frente, Deirdre e todas as outras fs faziam um tremendo barulho, como sempre. Todas estavam vestidas de vermelho, branco e azul, as cores da escola Parker. A cada cinco minutos, uma delas lanava um punhado de confetes no ar. Sempre que os Patriots faziam uma boa jogada, elas berravam e se abraavam; e quando o time se atrapalhava durante uma partida, gemiam num desespero coletivo.
 medida que observava aquelas meninas mais novas, um pequeno e melanclico sorriso apareceu nos lbios de Charlotte. Seu segundo ano parecia ter sido h um sculo. Ser que, alguma vez, j fui assim to agitada e histrica? , ela se perguntou.
Lembrou-se de quando viu Jared jogando numa partida no outono de seu segundo ano. Ela tinha quinze anos e estava completamente apaixonada. Sim, havia comparecido a todos os jogos daquela temporada, sacudindo um pompom vermelho, branco e azul e levando um broche colocado na jaqueta, no qual se lia: Fora, Patriots! Ela havia explodido de orgulho quando Jared fez o ponto final decisivo de uma partida, e tinha se afogado em lgrimas quando o time perdera. Jared sempre podia contar com ela para ser sua f nmero um.
 mas essa no sou mais eu, Charlotte se deu conta. Ela enfiou o cookies comido pela metade no bolso de seu casaco, e ento fechou os punhos. Estava assistindo quele jogo porque se sentira obrigada. Todo mundo, especialmente Jared, esperava isso dela. Afinal de contas, era a namorada do capito do time. Mas, na verdade, no queria estar l. Nem se importava se os Patriots ganhariam ou no. J fazia muito tempo que a magia daquilo havia acabado.
Eu preferiria estar no museu com Susie, Meera e Bill qual o sobrenome dele mesmo, enfim, aquele garoto descendente de indianos, pensou Charlotte.
Na tarde anterior, ela fora ao workshop sobre conscincia da diversidade na escola. Havia ficado um pouco nervosa, sem conseguir imaginar como seria, mas acabou se divertindo bastante.
Toda a experincia tinha sido transformadora. Eles tinham comeado com exerccios, em grupo, em que trabalhavam a autoconfiana. Logo depois, se deitaram de costas sobre colchonetes, formando um grande crculo, com as cabeas voltadas para o centro. Um por um, tinham que responder a perguntas feitas pelo coordenador do workshop: O que  preconceito?, O que  ser norte- americano?, Como voc reage ao ouvir algum falando com sotaque?, Como voc descreveria as relaes entre estudantes de diferentes raas e etnias na escola Parker?
Como estavam dispostos em crculo, os participantes no conseguiam ver os rostos uns dos outros, apenas ouviam suas vozes. Charlotte sentiu como se, durante aquelas rpidas duas horas, tivesse aprendido mais sobre si mesma e sobre sua escola e comunidade do que durante os trs anos em que estudava na escola Parker.
A maior surpresa, no entanto, fora o som de sua prpria voz. Primeiro, se sentira inibida em dividir seus pensamentos. Queria ser honesta, mas tambm no queria ofender ningum. Mas, ao final da sesso, estava se sentindo completamente  vontade. Por muito tempo, Jared e o bal tinham sido as nicas coisas em sua vida. Agora, uma porta para um novo mundo estava se abrindo e Charlotte sentira imediatamente que nos workshops sobre diversidade poderia crescer.Logo depois, ela sara com Susie Kawamura e alguns outros participantes para comer doces e tomar caf. Susie mostrou ser muito divertida e, como Charlotte, interessada em msica clssica, dana e arte. Quando Susie sugeriu um passeio para ver a nova exposio no Museu de Artes de Boston na tarde do dia seguinte, todos na mesa concordaram com entusiasmo. Apenas Charlotte, ficando ligeiramente ruborizada, admitiu ter outros planos: um jogo de futebol americano.
O devaneio de Charlotte foi repentinamente interrompido pela voz de Maddie.
- Intervalo  disse ela.  Voc vem, Charlotte?
Charlotte fez que sim com a cabea, seguindo Maddie por entre os quiosques. Nos intervalos das partidas, as duas sempre seguiam uma rotina rigorosa: primeiro, compravam um saco gigante de pipoca amanteigada e suco gelado de ma; depois, paravam perto do banco de reserva do campo e, se o tcnico Baldwin no estivesse berrando com o time, Charlotte conseguia s vezes trocar uma palavra rpida com Jared.
Hoje, Charlotte inventou uma desculpa para sair da rotina.
- Vou dar um pulo no ginsio para usar o banheiro  falou para Maddie.  Encontro voc na arquibancada, O.K.?
Maddie franziu rapidamente a testa, estranhando essa quebra no programa das duas, mas concordou.
- Lgico. Eu vou tentar no comer toda a pipoca, mas no posso prometer nada.
Charlotte se virou antes que Maddie pudesse adivinhar que ela estava mentindo. Na verdade, ela no precisava ir ao banheiro. Apenas no queria ver Jared. Mas, cedo ou tarde, terei que encar-lo, pensou. Cedo ou tarde vou precisar decidir o que fazer.
Enquanto Charlotte discava o nmero de Jared s seis horas da tarde do mesmo dia, seu corao batia como um martelo. O telefone tocou trs vezes, ento a quarta. Ela estava quase desligando, aliviada por no ter ningum em casa, quando Jared atendeu.
- Al?- Sou eu  disse ela, com a voz esganiada.
- Ei. E a?
Ainda no  tarde para voc sair dessa, Charlotte. Diga apenas: S liguei para dizer novamente que voc jogou super bem!  Hum, eu estava pensando...  Charlotte bateu com o dedo gota de suor nos seu lbio superior.
- Voc vai me pegar s oito para a festa, no ?
- Certo.
- Bem, voc acha que, ah, voc poderia vir s...
Quanto tempo isso vai demorar?, imaginou ela, entrando em pnico. Serpa que iremos discutir por muito tempo? Vamos chorar? Ou ele vai apenas desaparecer?. Ela no tinha nenhuma experincia nisso. Jared tinha sido seu primeiro e nico namorado!
- Voc poderia vir meia hora antes?  ela finalmente conseguiu perguntar.  Quero conversar com voc sobre uma coisa.
- Claro  respondeu Jared.  Sem problema. At l.
- O.K. Tchau.
Charlotte colocou o fone rapidamente no gancho.
- Isso no foi to difcil  sussurrou para si mesma. Ento, quase soltou uma gargalhada. No,  claro que no tinha sido. A parte mais difcil viria depois, s sete e meia. Pelo telefone, Jared parecia despreocupado e alegre porque ainda continuava excitado pela vitria do time de futebol... e porque ele no tinha a mera idia de que sua namorada estava prestes a terminar com ele.
Ela desceu as escadas arrastando os ps. Na cozinha, encontrou sua me num roupo de banho de flanela, empoleirada num banco alto perto do balco, com rolos no cabelo loiro acinzentado. Ela bebia ch quente e fazia as palavras cruzadas do Boston Globe, o jornal que assinavam.
- Voc e papai vo sair hoje  noite?  perguntou Charlotte. Ela abriu a geladeira e olhou desanimada para tudo que tinha l dentro.
- Vamos a um concerto  respondeu Eve Kennedy, escrevendo uma palavra nas cruzadas e apagando em seguida.  E voc e Jared?
- Tem uma festa na casa do Jeff  Charlotte fechou a porta da geladeira sem tirar nada.  Sabe, pra comemorar a vitria na partida de hoje.
- Parece que vai ser divertido  comentou a senhora Kennedy.
- , muito  Charlotte falou secamente.
A senhora Kennedy largou a caneta e levantou o olhar.
- Voc no est entusiasmada  observou ela.
- Ah,  s...
  s que eu provavelmente no vou  festa, me, porque eu estou pretendendo terminar com Jared antes.
Ela e a me tinham um timo relacionamento, mas por algum motivo Charlotte no conseguia se abrir para revelar suas intenes em relao a Jared. Se fizesse isso, no teria outra escolha quando Jared chegasse. Assim, sem falar nada, ainda poderia mudar de idia at encontr-lo.
-  s que  sempre a mesma coisa  explicou, procurando melhorar a voz  Ento, fica difcil ficar muito animada por isso.
A senhora Kennedy balanou a cabea, concordando.
- s vezes, me sinto assim nas festas a que seu pai e eu vamos. Coquetis na casa dos Carmichaels de novo, no! Mitch Carmichael sempre conta as piores piadas, e Claire sempre fala pra ele se calar e parar de chatear as pessoas, mas  claro que isso nunca acontece. E, ento, Brad McGinnis sempre traz um lbum cheio de fotos de seu iate idiota, e espera que todos ns fiquemos elogiando  continuou.  Ele  to obcecado por aquele barco que nem percebe quando Penny toma vrios usques e comea a flertar com Peter Bristol. Preciso dizer mais alguma coisa?
Charlotte soltou uma gargalhada.
- No,  isso parece pior do que uma festinha de comemorao do jogo de futebol na casa do Jeff Swanson  comentou Charlotte. Ela foi em direo de sua me e lhe deu um beijo.  At mais tarde, me.
- Tenha uma boa noite, querida  a senhora Kennedy disse, voltando-se para as palavras cruzadas.
Charlotte saiu da casa e comeou a perambular pelo quintal. Caiu sobre a espreguiadeira acolchoada e jogou a cabea para trs, fitando o cu. Os dias estavam se tornando mais curtos. O gramado j estava totalmente nas sombras.
Repentinamente, Charlotte sentiu sua garganta se apertar. Seus olhos se encheram de lgrimas que, em seguida, escorreram pelo seu rosto. Ela havia chegado a um ponto em que no conseguia imaginar um futuro com Jared, mas tambm no conseguia imaginar um futuro sem Jared. Estavam juntos h muito, muito tempo, e tinham compartilhado alguns momentos realmente felizes.  Isso vai doer, imaginou ela, mais do que qualquer outra coisa em minha vida.
Imaginava que poderia adiar isso, mas terminar com Jared seria doloroso, no importando quando acontecesse. E precisava fazer isso. No o amava do mesmo jeito que antes  e todas as lembranas felizes dos dias em que eram mais jovens no poderiam alterar esse fato. Charlotte estava amadurecendo, mas a relao no amadurecia com ela.
Jared simplesmente no mudaria nunca. Jogaria futebol americano e conseguiria boas notas em Harvard, ento estudaria numa escola de administrao ou direito. Teria o emprego certo e os amigos certos, dirigiria o carro certo e seria scio do clube certo. Nunca se incomodaria em explorar o mundo alm da porta da frente de sua casa.
Ainda assim, sentiria falta dele. As lgrimas de Charlotte comearam a correr mais rapidamente. Jared nunca mais iria beij-la. Nunca mais passaria os dedos pelos seus cabelos ou massagearia seus ps aps uma aula dura de bal. Sem passeios no carro conversvel dele para a costa de Maine durante o vero, sem caminhadas na neve durante o inverno. Sem encontros para estudar ou sesses de cinema ou festas de escola. Nunca mais seriam votados para  o casal do ano da escola Parker.
 a coisa certa a fazer, Charlotte se lembrou. Mas ela seria realmente capaz disso? Ela e Jared tinham sido inseparveis por muito tempo. Ela realmente queria ficar sem ele?
s sete e meia em ponto, Charlotte estava sentada no sof da sala de estar, vestida para a festa, ainda que realmente no esperasse ir. Apesar de seus olhos estarem secos e sua expresso aparentemente normal, ela no conseguia parar de passar os dedos pelo anel prateado e azul-turquesa que Jared lhe havia dado no primeiro aniversrio de namoro.
Ela olhou para o relgio. Sete e quarenta. Jared estava atrasado.   melhor ele chegar aqui logo, pensou, abraando uma almofada de brocado contra o peito para se confortar.  Quero acabar com isso de uma vez.
s oito horas, Charlotte estava confusa. s oito e quinze, j estava preocupada. Aps correr para a cozinha, ligou para a casa de Jared. Ningum atendia.  Ele deve estar a caminho , sups.
Voltou para a sala de estar. Mais alguns minutos tensos se passaram. E quando ela ia ligar novamente para Jared. Ou tentar telefonar para algum amigo deles, faris brilharam atravs. A Toyota branca da me de Jared estava subindo a pequena rampa da entrada de carros.  deve ter alguma coisa errada com o carro dele...  por isso que ele se atrasou, pensou Charlotte. Mas por que ele est dirigindo como um louco?
Derrapando ligeiramente a Toyota parou subitamente, lanando alguns gravetos sobre o gramado. A porta do motorista se abriu e um garoto alto de cabelo escuro saiu do carro. Sob a luz fraca do poste, Charlotte levou alguns segundos para perceber que aquele no era Jared. Havia uma ntida semelhana familiar, mas aquele garoto era mais magro e mais jovem.
- Jimmy?  chamou Charlotte   voc?
Jimmy Colburn, o irmo de dezesseis anos de Jared, correu em direo a Charlotte. Ele estava sem flego, com os olhos arregalados. Assustado.
Charlotte sentiu sua respirao parar e um terror sufocante tomar conta de seus pulmes.
- Jimmy, o que aconteceu?  ela falou com a voz embargada.
-  o Jared  Jimmy respondeu ofegante, confirmando o temor dela  um acidente de carro. Foi pro hospital.
- Um... um acidente de carro?  gaguejou Charlotte  pro... pro hospital?
- Algum idiota avanou o sinal vermelho e bateu na lateral dele.  grave, Char.
A cor desapareceu do rosto de Charlotte. Ela fitava Jimmy sem conseguir acreditar. Ele tambm a fitava, com o maxilar tenso e os olhos castanhos arregalados.
- Minha famlia foi direto para o hospital, mas eu achei que voc gostaria de ir tambm. Vamos  ele apressou, puxando-a pelo brao.
Saindo aos tropeos, Charlotte seguiu Jimmy at a Toyota. Imagens de pesadelo passavam diante de seus olhos: um cruzamento  noite, um semforo mudando do amarelo para o vermelho, o barulho agudo dos pneus freando no asfalto. Metal amassado, vidro estilhaado.
 E sangue, ela pensou, aturdida. O sangue de Jared.
Captulo QUATRO
Enquanto esperavam por noticias sobre o estado de Jared, os Colburn e Charlotte tinham a sala de espera da UTI do hospital s para eles. Os minutos se arrastavam como se fossem horas. As horas passavam como anos.
Charlotte tentou ler algumas revistas. Atravessou o corredor rapidamente em direo a uma mquina de vender doces e comprou uma barra de chocolate, que jogou no lixo aps dar apenas uma mordida. Ela observou os quadros nas paredes da sala, memorizando cada detalhe daquelas paisagens suaves e suas molduras. Mas nada fazia o tempo passar mais rpido.
- Que horas so?  a senhora Colburn perguntou novamente ao marido, ainda que houvesse um relgio na parede bem  sua frente.
- Cinco para a meia-noite- replicou Don Colburn. Ele parou um pouco de andar de um lado para o outro e fez o carinho no ombro da esposa.  Vamos saber algo em breve, tenho certeza  acrescentou ele, com voz suave.
Jimmy permanecia jogado numa cadeira, as sobrancelhas despencadas e a boca ligeiramente entreaberta. Um minuto depois, um ronco abafado quebrou o silncio tenso que havia tomado conta da sala.
- Como  que ele consegue dormir?  comentou Charlotte, segurando o impulso de chutar a canela de Jimmy. Seus nervos estavam uma baguna; ela sentia como se estivesse prestes a explodir- quando o irmo est... pode estar...  ela engoliu em seco, incapaz de pronunciar a palavra morrendo.
- Vai ficar tudo bem, Charlotte  prometeu o senhor Colburn, apesar de um tique em sua bochecha esquerda desmentir a calma que tentava transmitir.  Jared  jovem e forte. Ele vai superar isso tranquilamente.
Como se soubesse o momento certo de aparecer, uma jovem mdica entrou na sala de espera.
- Senhor e senhora Colburn? Eu sou a doutora Higgins.
Brbara Colburn levantou-se num sobressalto. Sua bolsa, que estava sobre o colo, caiu no cho com a abertura para baixo, espalhando tudo o que havia dentro, mas a senhora Colburn nem sequer atentou-se para os batons moedas que saram rolando.
- Sim?  disse ela  Voc pode nos dizer como Jared est?
- Jared ainda est na UTI, e permanece inconsciente  relatou a Dra. Higgins.  Mas os sinais vitais dele j esto estabilizados. Apesar de ter sofrido uma fratura craniana, no parece ter acontecido nenhuma hemorragia interna que resulte em dano cerebral. Ainda no sabemos a extenso dos ferimentos e provavelmente ser uma incgnita por mais alguns dias. Vocs podem entrar para v-lo, se quiserem.
A senhora Colburn apressou-se em direo  porta, seguida pelo marido, Jimmy havia acordado, levantando-se rapidamente. Charlotte seguiu por ltimo.
 medida que atravessavam o corredor estril e deserto, Charlotte ouviu pedaos da conversa entre a doutora e os pais de Jared.
- Eletro encefalograma...  murmurou a Dra. Higgins. Mais alguns termos ameaadores apareceram.  Sistema nervoso central... fludo crebro-espinhal... Hematoma subdural...
Charlotte quis tapar os ouvidos com as mos. Eles no podem estar falando sobre o Jared, pensou. Isso devia ser um pesadelo, uma punio por ela ter pensado em terminar o namoro.
Mas no era um sonho, era bem real. Um minuto depois, ela estava em p[e ao lado da cama onde Jared permanecia imvel sob um lenol branco liso. Seu rosto estava machucado, seus olhos fechados como se estivesse desmaiado, a cabea envolta por gaze. Havia tubos em seu nariz e na garganta, e uma agulha com soro em seu brao direito.
Charlotte se viu fitando aquele brao. Era to moreno, to forte. Exatamente naquela tarde ele havia feito passes para os Patriots da escola Parker! Como isso podia ter acontecido?
A doutora Higgins trocou mais algumas palavras com os pais de Jared. Ento, a enfermeira noturna vestindo calas brancas e um guarda-p rosa conduziu gentilmente a famlia para fora do quarto.
- Vocs todos devem descansar um poo e voltar amanh de manh  a enfermeira disse com um sorriso.
- Descansar um pouco... h!  a senhora Colburn bufou. Ento, virou-se para o senhor Colburn, pressionou seu rosto contra o ombro dele e desfez-se em lgrimas.
Charlotte tentou no ficar olhando para a me de Jared. Sua prpria angstia j era to grande que ela mal podia suportar... ver Jared daquele jeito, to machucado e frgil... e se ele nunca mais acordasse? Ela no conseguia livrar-se do sentimento de que, de algum modo, aquilo tudo era culpa dela. Se no tivesse pedido a ele que viesse um pouco mais cedo, isso nunca teria acontecido, Charlotte pensou arrependida.
Ela sabia que tambm no conseguiria dormir. Pelo menos no nessa noite e na noite seguinte tambm. No antes de saber se Jared vai ficar bem.
O dia seguinte amanheceu claro e azul, mas Charlotte no conseguia prestar muita ateno na beleza daquele cu de outono.
Enquanto ia de carro para o hospital, esfregava os olhos secos e cansados. Na noite anterior, no tinha conseguido dormir mais do que vinte ou trinta minutos seguidos. Seus pais tentaram confort-la, mas ela realmente no sentira nenhuma vontade de conversar.
Antes de Charlotte sair de casa, o telefone no parara de tocar  na maioria amigos, ligando para saber de Jared. Charlotte escapou sem atender nenhuma das chamadas. Ela no estava pronta para conversar com ningum. No sabia se Jared ficaria bem. No sabia nada.
No caminho para o quarto de Jared, Charlotte deu uma espiada na sala de visitantes do hospital. Ainda vestindo as mesmas roupas da noite anterior, o senhor e a senhora Colburn estavam sentados, apoiados um no outro, ambos dormindo. Eles no tinham voltado para casa.
Charlotte andou nas pontas dos ps pelo corredor. A porta do quarto de Jared estava entreaberta. Uma enfermeira mais velha tinha acabado de sair.
- Bom dia  ela cumprimentou Charlotte.  Eu estava conferindo o soro dele. Ele est dormindo profundamente. Entre.
Charlotte deu um sobressalto.
- Dormindo? Dormindo de verdade? Voc quer dizer que ele no est mais inconsciente, ele...
A enfermeira deu um sorriso sem graa.
- Desculpe-me, querida. Eu deveria ter escolhido as palavras com mais cuidado. No, ele ainda no acordou. Mas no perca as esperanas.
A enfermeira virou-se e Charlotte entrou no quarto. Aproximou-se da cama de Jared, puxando uma cadeira para se sentar.
Eles estavam a ss, mas por algum motivo aquele quarto no dava uma sensao de privacidade. Havia muitos aparelhos. Charlotte nem tinha certeza se poderia tocar nele. E se acidentalmente derrubasse o soro ou desconectasse o tubo respiratrio?
Cuidadosamente, esticou um brao e acariciou suavemente a testa dele com a ponta dos dedos.
- Jared  sussurrou. No houve resposta. Sua respirao continuava, com certa dificuldade mas constante. Cautelosamente, Charlotte colocou a mo dele na dela, apertando seus dedos imveis. Ela repetiu o nome dele:
- Jared.
A nica resposta foi o zumbido do monitor cardaco. Charlotte engoliu seu desapontamento, tentando rir de si mesma. O que voc esperava, Kennedy? Que ao ouvir sua voz ele se sentaria e lhe daria um abrao? Isso no  um filme de tev.
Mas milagres acontecem. Mesmo sendo realista do jeito que era, Charlotte acreditava nisso. Alm disso, no tinha lido em algum lugar que, s vezes, pessoas em coma respondiam s vozes das pessoas queridas? Valia a pena tentar.
- Ah, Jared... oi  Charlotte deu uma pausa para limpar a garganta, acanhada.  Sou eu, Charlotte  ela dizia, apertando gentilmente a mo dele.  Seus pais esto aqui tambm, e aposto como o Jimmy est l embaixo na lanchonete, devorando algum sanduche. Estamos todos aqui, e ficaremos aqui at... at... - ela engoliu em seco.  at quando for preciso.
Ela observava-o de perto, na esperana de detectar algum movimento de suas plpebras, talvez uma contrao dos lbios ou at mesmo uma alterao do ritmo da respirao. Mas nada acontecia.
- O jogo ontem foi o mximo  Charlotte mentiu, sabendo que aquilo era por uma boa causa.  Eu nunca tinha visto voc jogar to bem. Foi incrvel!
Jared continuava sem responder. Nesse momento, Charlotte virou o rosto, seus olhos encheram-se de lgrimas.
- Se existem dois assuntos que voc sempre adorou, Jared Colburn, so futebol americano e voc  sussurrou ela, fungando.  Acorda, vai.
Ainda assim no houve resposta.
Por alguns minutos, Charlotte apenas permaneceu sentada silenciosamente, segurando a mo de Jared e olhando a janela com a cortina meio aberta do outro lado do quarto. Sua cabea estava cheia de pensamentos melanclicos. Ela esteve prestes a terminar com Jared, a tir-lo de sua vida. Agora parecia que ela iria perd-lo de um modo diferente, mais definitivo e horrvel.
Charlotte voltou os olhos para o rosto de Jared. Dando um ltimo aperto em sua mo, ela comeou a empurrar a cadeira para trs. Ento, congelou. O que aquele corpo desmaiado havia feito? Ele tinha se mexido na cama?
E aquele barulho. Sem sombra de dvidas, ele fizera um barulho. Um suspiro pequeno, quase inaudvel, mas ela escutara.
- Jared!  gritou Charlotte, agarrando novamente a mo dele e apertando-a com fora.
No tinha sido imaginao dela. As plpebras de Jared tremeram e ento, lenta e dolorosamente, se abriram. Ele olhou diretamente para Charlotte, mas seu rosto estava sem expresso, vago. Charlotte segurou sua respirao.
- Jared  sussurrou.  Voc pode me ver? Pode me escutar?
Por um longo momento, os olhos verdes de Jared permaneceram perplexos. Ele nem mesmo piscou. Ainda est fora de si, Charlotte pensou desanimada.
Ento a boca de Jared se moveu lentamente. Existia um lampejo de conscincia em seus olhos, que agora fitavam os dela com uma intensidade desesperada. Ela podia v-lo se esforando para focar, para formar palavras.
Ela esperou pelo que parecia ser uma eternidade, sabendo que, para Jared, devia estar sendo pior. Finalmente, ele conseguiu falar algo.
- Charlotte  ele suspirou.
- Estou aqui- respondeu ela, prendendo as mos dele nas suas.
Ele demorou algum tempo recuperando a respirao antes de repetir o nome dela.
- Charlotte.
- Como voc se sente?  ela procurou o boto que ficava ao lado da cama para chamar as enfermeiras.  Eu vou chamar os mdicos e as enfermeiras. E seus pais! Eles vo ficar to emocionados!
A expresso de Jared no refletia a felicidade de Charlotte. Seus olhos estavam obscurecidos por uma sombra, que no era de dor, mas de alguma outra coisa. Algo pior.
Desespero.
- Charlotte  disse ele novamente.  Char, eu no consigo mover as pernas.
Para Charlotte, os dias seguintes se passaram como um borro de visitas ao hospital, conversas tensas com os amigos e a famlia de Jared e agitadas noites mal dormidas. Os pais dela escreveram uma carta para escola, assim ela pde faltar na segunda e na tera. Pra que ir se estava to cansada e perturbada que no conseguiria aprender nada?
Na quarta-feira. Charlotte acordou com o mesmo sentimento de dor e pnico que vinha sentindo desde sbado  noite, quando Jimmy Colburn aparecera na frente de sua casa.
- Mais um dia, me  ela implorou na mesa do caf da manh, assim que sua me negara a autorizao para que faltasse  aula mais uma vez.  por favor. Eu no consigo encarar isso ainda.
- Tudo bem, querida  a senhora Kennedy acabou cedendo com um suspiro.  Mas amanh voc realmente precisa tentar voltar a sua vida normal. Eu sei que  difcil, mas voc no pode se dar ao luxo de atrasar mais seu curso. E o bal, ento?
Escola, bal. Charlotte no sabia como explicar para sua me que essas coisas pareciam triviais quando Jared estava deitado numa cama de hospital, com suas pernas paralisadas.
- Eu vou  escola amanh  prometeu ela.
Charlotte passou as horas de visita da manh junto a Jared, lendo o jornal Boston Globe para ele. Quando ele cochilou  ainda estava meio tonto por causa dos analgsicos  ela tentou fazer alguns dos deveres de casa atrasados que Maddie havia lhe passado. Depois de sair rapidamente para almoar um sanduche de frango na lanchonete do hospital, retornou ao quarto.
Jared estava dormindo. Sua me sentava-se na cadeira prxima  janela, bordando uma toalha.
- Mais uma hora antes que os amigos comecem a aparecer  a senhora Colburn observou.
Jeff, Matt, Bev, Paige e Bob tinham aparecido todos os dias aps a escola. Sempre traziam alguma coisa: flores, bales, revistas, um ursinho de pelcia vestindo uma camiseta dos Patriots, alguns dos cookies feitos por Bev.
- Acho que vou dar uma sada antes de todo mundo chegar e voltar antes do jantar  disse Charlotte.  Eu simplesmente no consigo...  ela terminou a frase encolhendo os ombros. Os amigos dela e de Jared eram outra coisa com a qual ela no conseguia lidar.
- Eu vou ficar  a senhora Colburn ofereceu-se.  Eu preciso falar com eles mesmo. Coloc-los a par das ltimas.
- Os mdicos falaram mais alguma coisa sobre as pernas de Jared?
Sem responder de imediato, a senhora Colburn colocou o bordado no colo e levantou a cabea para Charlotte. Seus olhos, repentinamente, ficaram embaados.
- Senhora Colburn?  instigou Charlotte, com a voz trmula.
- Hoje de manh o doutor Belsky me contou...  a senhora Colburn parou, pressionando um punhado de lenos de papel contra o rosto.  Os ltimos exames mostraram que as terminaes nervosas da lombar esto...  ela fez uma nova pausa. Depois de assoar o nariz, continuou.  Jared tem alguma sensao nas pernas, isso quer dizer que a medula espinhal no est gravemente afetada. Estas so boas noticias.
- Ento, so boas noticias  Charlotte falou baixinho.  Ns j sabemos que ele precisa ficar mais um tempo na cama. Mas ele vai voltar ao normal, certo?
- Talvez sim, talvez no. No h nenhuma garantia. O mdico diz que... ele diz que Jared no deve...  a voz da senhora Colburn transformou-se num sussurro de um corao partido.  Ele no deve voltar a andar.
Aquelas palavras atingiram Charlotte com a fora de um soco.
- Ele no deve voltar a andar?  repetiu ela.  Mas e o futebol e o beisebol? A bolsa de estudos para atletas da universidade? Jared  to forte! Com certeza ele...
- No h nenhuma garantia  a senhora Colburn repetiu.   isso o que os mdicos esto nos dizendo agora. Sem garantias.
Charlotte olhou Jared dormindo na cama do hospital. O curativo que envolvia sua cabea fora removido, e seus cabelos escuros estavam amassados e encaracolados. Vestindo uma roupa fina de hospital, seu brao ainda preso ao soro, ele parecia muito mais novo do que seus dezessete anos... e incrivelmente vulnervel.
O prognstico foi devastador, um golpe duro para todos que gostavam de Jared. Mas havia,  claro, uma pessoa que teria ainda mais dificuldades para aceitar a noticia: o prprio Jared. Quando, e como, iremos contar a ele?, Charlotte imaginou.

Captulo CINCO
Numa manh chuvosa de quinta-feira, Charlotte pegou o nibus para a escola Parker. Era a primeira vez que ela pegava aquele nibus, j que desde a metade do ano passado, quando Jared havia tirado sua carteira de motorista, ia para a escola com ele todos os dias. Ele nunca ficou doente, nem uma vez sequer, ela pensou. Jared sempre fora to malditamente saudvel! E agora ele, o superatleta, estaria usando uma cadeira de rodas... Possivelmente para o resto da vida.
Enquanto esperava no ponto, sob o guarda-chuva, Charlotte desejou que o nibus se atrasasse, imaginando que, com sorte, chegaria na escola bem na hora de entrar na sala de aula.
No foi isso, porm, que aconteceu. Apesar da chuva, o nibus chegou no horrio, o que significava que estaria na frente da escola quinze minutos antes de as aulas comearem. Quinze minutos para ficar escondida no banheiro, decidiu Charlotte, fugindo das gotas de chuva durante seu caminho para o prdio.
No havia passado nem dois metros da entrada principal quando di abordada.
- Charlotte, estou to triste por Jared  disse Kelly OConnor, a chefe da torcida organizada da escola. Kelly segurou o brao de Charlotte firmemente, como se esperasse que uma das duas ou ambas desmaiassem diante daquela tragdia toda.  Eu ouvi dizer que ele est...  a voz de Kelly transformara-se num sussurro fnebre  paraltico.
- Ele no est paraltico  replicou Charlotte rispidamente, soltando o brao.  Mas obrigada por sua preocupao, Kelly.
- D um beijo nele pela torcida, ta bem?  disse Kelly.
- Dou sim.
Charlotte avanou rapidamente. Nolan Fitch e Juan Suarez, dois jogadores do time de futebol americano, a interceptaram.
- Charlotte, como est o Jared?  perguntou Nolan.
- Ele est melhorando  respondeu ela, com falsa alegria  Ele vai voltar logo pra escola.
- Mas no pro time, certo?  disse Juan.  Quer dizer, eu ouvi dizer que ele vai ficar, tipo, tetraplgico.
- Paraplgico  corrigiu Nolan.  S as pernas. Os braos no, certo, Charlotte?
- As pernas dele esto bem  ela disse rapidamente.  Quer dizer, elas no esto bem, mas tambm no esto mal assim. Obviamente que ele no voltar a jogar futebol imediatamente, mas talvez em um ms ou dois...  Por que eu estou mentindo? ela se perguntou. Por que eu estou falando com essas pessoas?  Com licena, meninos, eu preciso...
Ela os abandonou abruptamente, correndo para a escada central. A biblioteca, pensou. Aquele seria um lugar seguro para ficar at o sinal tocar.
Aps subir metade da escada, ouviu um barulho de saltos atrs de si. Uma mo agarrou seu ombro.
- A est voc!  exclamou Maddie.
Charlotte se virou para ver no apenas Maddie, mas Samantha, Bev e Paige tambm.
- Vamos  disse Maddie, puxando Charlotte pelo brao.  Vamos sentar em algum lugar tranqilo at a aula comear. Bev trouxe um bolo, no , Bev?
Bev concordou com a cabea.
- E uma garrafa trmica com aquele cappuccino que voc adora, Char.
Charlotte parou de resistir e se deixou ser levada para o corredor do segundo andar.
- A sala dos professores?  perguntou, ao ver para onde Maddie a estava levando.
- Tudo bem  assegurou Paige.  Temos permisso do senhor Cobb. E, pela manh, a maioria dos professores usa a sala do primeiro andar mesmo. Ningum vai nos incomodar aqui.
A sala estava silenciosa. Charlotte no protestou quando Maddie lhe forou gentil mas firmemente a se sentar num medonho sof acolchoado, ou quando Bev colocou um pedao de bolo de nozes em sua mo. As amigas se aproximaram dela, sentando duas no sof e duas nas cadeiras.
- Isso  terrvel pra voc  disse Samantha, esticando-se para afagar a mo de Charlotte.
- Muito terrvel  repetiu Paige.
- Eu s posso dizer que voc no est nem comendo nem dormindo  falou Bev, derramando um pouco de caf na tampa da garrafa trmica.
- Coitadinha!  declarou Maddie, enchendo os olhos de lgrimas.
Todas elas falavam num tom baixo, respeitoso. Da mesma maneira como as pessoas falaram com tia Chloe no velrio do tio Patrick, pensou Charlotte.
- Meninas, eu no sou viva  ela lembrou.
-  claro que no  disse Samantha, olhando chocada.  Mas o que voc deve estar sofrendo! Com seu namorado no hospital, to gravemente ferido...
Maddie continuou o lamento.
- Ver algum que voc ama passando por tanta dor... Voc deve estar arrasada, Char. E toda a historia do nervo afetado ou seja l o que for. Pobre Jared. Como ele est lidando com isso?
- Eu no tenho certeza se ele j compreendeu qual  a situao  Charlotte deu um golinho no caf.  Ele ainda est por fora.
- Jared vai superar  declarou Paige com confiana.  Sabe por qu? Porque ele tem o amor e o apoio de Charlotte. Isso faz toda a diferena.
- Certo  concordou Bev, balanando a cabea enfaticamente.  Jared ficar bem. Vocs dois ficaro bem.
- E voc sabe que se tiver alguma coisa que ns possamos fazer, qualquer coisa, estaremos aqui para ajudar  Paige falou para Charlotte.  Por vocs dois.
- Obrigada  Charlotte disse com a voz fraca.
As amigas no poderiam ter sido mais carinhosas, mas mesmo assim Charlotte se sentiu ridiculamente aliviada quando o sinal tocou.
 assim que vai ser durante todo o dia? Durante toda a semana? E depois e depois e depois?
Ela j sabia que seria difcil lidar com as perguntas e curiosidades das pessoas. O que ela no imaginava era que a simpatia das amigas faria com que se sentisse um milho de vezes pior. Todos supem que eu estou arrasada por causa do acidente, pensou Charlotte, enquanto se sentava numa carteira no fundo da sala de aula. E ela estava, naturalmente, mas no da maneira que estaria se ainda estivesse apaixonada por Jared.
Aos olhos do mundo, Charlotte ainda era uma namorada devotada. Enquanto todos na sala viravam o pescoo para observ-la, ela mantinha o olhar fixo no caderno, sentindo-se uma fraude completa. Se o acidente tivesse acontecido um nico dia depois, ela e Jared no seriam mais um casal. Mas do jeito que tudo havia acontecido, ela, e somente ela, sabia que o que sentia por Jared era bem diferente do que as pessoas imaginavam.
Afogada em sentimentos de culpa e confuso, Charlotte relembrou as coisas que suas amigas tinham acabado de lhe dizer na sala dos professores. Voc deve estar arrasada... Ver algum que voc ama passando por tanta dor... Jared vai superar porque ele tem Charlotte... Pela primeira vez, Charlotte comeou a pensar em como o acidente de Jared afetaria sua vida. Ela quase terminara o namoro para poder seguir seu prprio caminho. E agora?
No, os sentimentos dela eram bem diferentes do que as pessoas imaginavam. Eles eram um milho de vezes mais complicados.
Jared estava sozinho em seu quarto particular do hospital. O pai estava no escritrio, a me fora convencida por uma amiga a sair para almoar e tomar um pouco de ar, Jimmy e Charlotte ainda estavam na escola. A enfermeira da tarde tinha fechado a fina cortina da janela a fim de suavizar a luz forte do sol. Jared permanecia imvel na cama, observando o jogo de sombras e luz nas paredes brancas do quarto. Em algum lugar do lado de fora havia movimento. Uma rvore, ele pensou. Galhos. Vento.
Fechou os olhos, cansado at mesmo daquela rpida observao de reflexos. Pelo menos meu crebro est funcionando, pensou amargamente, ainda que por um minuto de cada vez.Com os olhos ainda fechados, moveu a mo direita sobre o lenol branco at que repousasse sobre sua perna. Cuidadosamente, apertou a carne musculosa da coxa. A experincia foi chocante, como se estivesse apertando o membro de um manequim. Apesar do lenol fino, seus dedos podiam sentir o calor de sua prpria pele, mas no havia nenhuma sensao de resposta.
Jared apertou os dentes, lutando contra as lgrimas que escorriam de seus olhos. Ele no sentiria pena de si mesmo. Ele sabia que se alimentasse sentimentos de auto-piedade, cairia num buraco to fundo e escuro que talvez nunca mais conseguisse sair.
No que isso no fosse tentador. Meu ltimo ano escolar, eu ou o co-capito do time vou perder toda a temporada de futebol americano, pensou mal-humorado. Droga, nunca mais vou fazer esportes, pelo menos no esportes de verdade. Talvez possa participar daqueles campeonatos de pingue-pongue na cadeira de rodas.
Irritado, ele beliscou a perna com fora. Teve a impresso de ter sentido algo, bem longe e l no fundo. Em algum lugar, embaixo da inrcia absoluta, uma parte dele continuava viva. Um lampejo de otimismo retornou. Meu pescoo no est quebrado... eu posso ficar satisfeito por isso, lembrou. Minhas pernas no ficaro completamente paralisadas... os mdicos dizem que eu ainda tenho alguns reflexos satisfatrios. Pare de se lamentar, Colburn.
Naquele momento, algum bateu suavemente  porta entreaberta.
- Ei, entre  disse Jared.
Charlotte deu uma espiada pela fresta da porta.
- Estou sozinha.
- Eu tambm  ele respondeu, mostrando um sorriso.
Ela andou at o lado da cama.
- Voc est com uma aparncia tima hoje  disse ela.  Muito mais acordado.
- Eles cortaram os analgsicos  explicou ele.
- Voc vai voltar logo para casa, n?
- J vou tarde.
Ela puxou uma cadeira para perto da cama e sentou-se, cruzando as pernas. Jared virou a cabea sobre o travesseiro de modo a poder enxerg-la.
Era engraado. Ele conhecia Charlotte h tanto tempo que s vezes, paradoxalmente, ele quase se esquecia de sua aparncia. Ele no conseguiria dizer com preciso qual era a cor dos olhos dela, ou se ela normalmente usava o cabelo solto ou preso, ou se tinha unhas longas ou curtas. Agora ele se deleitava com sua aparncia: os brincos prateados brilhando contra o cabelo sedoso, a pele macia, a postura elegante de bailarina, o suter branco felpudo e a saia curta plissada, as meias verde-escuras que cobriam suas pernas bem torneadas. At mesmo os sapatos pretos comuns estavam parecendo mais interessantes hoje.
Abruptamente, Jared virou o rosto para o outro lado. Charlotte acompanhou-o com o olhar. Para onde ele...
O rosto dele ficou quente de vergonha. Desejou poder se sentar na cama desejou estar vestindo uma cala de moletom, pelo menos, no lugar daquele roupo fino de hospital e daquela coberta inadequada.
- Voc tem vindo aqui todos os dias, no ?  disse Jared, fitando a tela escura da televiso que ficava no alto da parede oposta.
-  claro.
- Obrigado.
- Ei, afinal, pra que so os amigos?
-  srio, Char  as lgrimas ameaaram cair novamente, mas ele conseguiu segura-las.  Eu sei que fiquei fora do ar esses dias, mas me lembro de que em alguns momentos em que tudo parecia estar meio enevoado pude ouvir sua voz. E isso me ajudou a ter fora. Eu no sei o que faria sem...
Jared parou, no se permitindo continuar. Ele nunca havia chorado na frente de Charlotte, e no pretendia comear a fazer isso agora.
Ela se inclinou para tocar o brao dele.
- No precisa agradecer  ela falou suavemente.
- Por alguns minutos, os dois permaneceram em silncio. Ento Charlotte se curvou para pegar alguma coisa de sua bolsa.
- Eu trouxe um punhado de cartes do pessoal da escola, desejando melhoras  ela disse, com uma voz alegre novamente.  Voc sabia que  um cara bem popular, Jared Colburn? Absolutamente todo mundo me perguntou sobre voc. At pensei em dar uma entrevista coletiva!
Jared pegou o mao de cartes mas nem chegou a olhar.
- Ento sou o assunto na cidade.
- As pessoas esto sentindo falta de voc,  s isso. Querem saber quando voc vai voltar.
Jared no pretendia ficar pensando em quando voltaria para a escola Parker. Mame vai ter que me dar carona, porque o meu carro est totalmente destrudo. Ele quase soltou uma gargalhada. No faria diferena se tivesse um carro novo... ele no seria capaz de dirigi-lo mesmo!
- Sabe, voc no precisa ficar todas as tardes aqui comigo  ele disse a Charlotte.  Deve ser deprimente.
- No . Mas, se voc quiser descansar, eu posso...
- Eu no quero descansar  ele falou de rompante.  Tudo o que eu tenho feito ultimamente ...  Jared fechou os olhos. O esforo para levantar a voz fez sua cabea latejar.  Desculpe, Char  falou baixinho.  Eu no deveria reclamar com voc. Voc tem sido a melhor.  s que... eu no sei como vou lidar com isso. Eu realmente no sei.
- Voc vai ficar bem  prometeu ela, acariciando a mo dela.
Ele sabia que as intenes dela eram as melhores, mas o jeito como ela acariciava sua mo fazia com que ele se sentisse um homem velho e frgil. Como se ele fosse ficar numa cadeira de rodas para o resto da vida, dependendo de outras pessoas para ajuda-lo com as coisas mais simples e idiotas, como se vestir e ir ao banheiro. Por um segundo, odiou Charlotte porque, quando as horas de visita terminassem, ela simplesmente poderia sair andando do hospital sem olhar para trs, sem nem estar consciente do quanto tinha sorte por ser forte e saudvel. E ele a odiava porque a amava. Os dois sempre formaram um casal perfeito. E agora, que tipo de namorado ele seria para uma garota como Charlotte?
- Desculpe, estraguei todos os nossos planos para o futuro  ele mal reconhecia a prpria voz, era ta cheia de amargura e pena de si mesmo.   uma pena pela bolsa de estudos, n? Mas talvez eu ainda tenha alguma chance em Harvard... se eles quiserem um aleijado no time, como mascote ou algo parecido.
Charlotte franziu a testa.
- No fale assim  ela o repreendeu. Voc est se sabotando. Alm disso, nem  verdade. Voc vai melhorar.
Jared a fitou. Repentinamente, ter Charlotte ao lado dele parecia ser mais importante que qualquer coisa.
- Voc realmente acredita nisso?  perguntou ele, tomado por uma mistura de medo e esperana.
- Eu realmente acredito. Voc vai melhorar  repetiu ela.
Subitamente, Jared sentiu que a pouca fora que lhe restava tinha se escoado completamente. No momento em que fechou os olhos, comeou a sentir a mente se embaralhar. Seu ltimo pensamento antes de cair num sono profundo foi: Se Charlotte acredita nisso, ento deve ser verdade.

Captulo SEIS
Uma semana depois, Charlotte sentou ao lado de Jared no banco traseiro da Toyota a caminho de casa. Toda vez que o carro dava um solavanco, estremecia, imaginando a dor que aquilo devia causar a ele. Mas o rosto de Jared permanecia inexpressivo. Charlotte tinha certeza de que ele estava sentindo um milho de coisas diferentes, fsicas e emocionais, mas as guardava para si.
Quando o carro virou a alameda Bayberry, porm, e Jared pde ver todos os carros estacionados ao longo do meio-fio perto da garagem de sua casa, seus ombros ficaram tensos.
- Isso  que vai ser difcil  murmurou ele.
Charlotte apertou a mo do namorado.
- Voc vai se sair bem.
Ele olhou para ela, ensaiando um sorriso sem graa.
- , devo olhar por lado bom da coisa. Eu vou estar numa cadeira de rodas, ento nunca vou cair com a cara no cho.
Esse era o tipo de piada que Jared fizera durante toda a semana., mas Charlotte sabia que era necessrio um grande esforo para que ele mantivesse o bom humor num momento como aquele. Tudo o que ele tem de fazer  ir do carro para casa, mas este vai ser um dos maiores desafios de sua vida, ela se deu conta. Ele vai precisar de muito mais fora e coragem do que j teve que demonstrar em qualquer partida de futebol ou beisebol.
Impulsivamente, Charlotte inclinou-se e abraou Jared.
- Vamos l  sussurrou em seu ouvido.
O senhor Colburn estacionou o carro e abriu o porta-malas. A senhora Colburn andou at a parte de trs do carro, e Charlotte se prontificou a ajud-la.
Juntas, retiraram a pesada cadeira de rodas do porta-malas. Durante os dois minutos que levaram para armar a cadeira, vrias pessoas comearam a sair da casa, se reunindo no jardim e mantendo uma certa distncia do carro.
Charlotte conduziu a cadeira at o lado do carro em que Jared estava, com o senhor Colburn pronto para ajudar o filho. O rapaz colocou um brao ao redor do pescoodo pai e sentou na cadeira de rodas.
- Confortvel?  perguntou a me, inclinando o corpo para colocar um travesseiro de suporte da lombar atrs das costas do filho.
- No sei se algum dia vou me sentir confortvel nessa coisa  replicou Jared baixinho.
Charlotte caminhou ao lado de Jared enquanto ele conduzia a cadeira lentamente ao longo do piso de tijolos em direo  porta. Da frente, sobre a qual havi uma faixa onde se lia: Bem-vindo, Jared. Depois de alguns metros, ele parou para recuperar o flego e segurar a mo de Charlotte.
Seus amigos no conseguiam mais se conter. Correram para dar-lhe tapinhas nas costas, beijar suas bochechas, cumpriment-lo.
- Voc est timo, Colburn!
- A gente sentiu muito sua falta, Jared.
- Que bom que voc est de volta, cara!
Jared segurava firmemente a mo de Charlotte. Ela podia sentir as emoes que tomnavam conta dele; passavam para ela pelos dedos dele como se fossem uma descarga eltrica.
- Obrigado pelo comit de boas-vindas  Jared disse, assim que os cumprimentos terminaram. Ele tirou o cabelo da testa, abrindo seu sorriso tpico, e ento soltou uma piadinha.  O que voc acharam da minha nova mquina?
- Voc trocou seu carro por isso?  Matt seguiu com a brincadeira.
- Ei,  mais fcil para estacionar  protestou Jared.
-Mas no tem muito espao pro carona  acrescentou Paige.
Surgiram mais algumas piadinhas. Ento Jeff falou:
- O time no  o mesmo sem voc, Colburn. Precisamos de voc de volta ao campo, cara.
- No se preocupe, Swanson  respondeu Jared calmamente.  Estarei novamente em forma no final da temporada. S leve o time at as finais, que eu estarei l. Mas eu ouvi um boato de que existe um bolo com meu nome em algum lugar. Vamos, me levem at ele!
A turma comeou a entrar na casa mantendo o clima otimista que Jared estava transmitindo. Apenas Charlotte sabia o tremendo esforo dele para manter um sorriso no rosto.
- Pronto para entrar?  ela perguntou suavemente.
- Mais um minuto  disse ele, ainda segurando a mo dela como se nunca mais fosse soltar.
Por vrias semanas antes do acidente de Jared, Charlotte vinha imaginando o que fazer com a relao deles. Agora percebia com clareza que no conseguiria terminar o namoro. A batida de carro havia mudado o mundo de Jared de ponta-cabea, e o dela tambm. Tudo tinha mudado. No importava quais eram seus sentimentos mais secretos, ela no podia abandonar Jared agora. Ela tinha o dever de permanecer ao lado dele durante sua recuperao.
Charlotte ajoelhou-se no cho ao lado da cadeira de rodas. Levantando a mo de Jared, ela pressionou-a contra sua bochecha. Antes do acidente, tinha pensado que todos os sentimentos por ele haviam desaparecido, mas talvez ainda existisse um pouco de amor. Ela s precisava agarrar-se a ele e ter a esperana de que seria suficiente.
De algum modo, Charlotte atravessou o resto do ms de setembro retomando uma rotina quase normal: escola, bal e visitas a Jared, que estava com um professor particular enquanto permanecia em casa se recuperando.
Numa tarde de sexta-feira, Charlotte saiu correndo da escola Parker sem nem parar em seu armrio. Era a nica maneira de evitar mais uma sesso de simpatia asfixiante de suas bem-intencionadas, mas ignorantes, amigas. Acontecia um workshop sobre diversidade na escola naquela tarde, mas primeiro ela precisaria ir  cidade para uma aula de bal.
A escola estava silenciosa quando Charlotte retornou, algumas horas depois. O grupo estava menor do que no primeiro encontro do qual Charlotte participara. A reunio dessa noite seria feita por estudantes interessados em coordenar o desenvolvimento de um programa educativo sobre diversidade na escola Parker.
- Vamos tirar proveito do fato de que existem apenas dez alunos aqui hoje - sugeriu a senhora Lundgren, professora de biologia e uma das facilitadoras dos workshops  e realmente conhecer uns aos outros. Assim, seremos um grupo bem unido para trabalhar nesse projeto. Vamos ver...  tocou o dedo indicador na bochecha.  Acho que vamos comear com um exerccio bem conhecido de integrao. Vamos nos dividir em duplas para entrevistas informais, depois apresentamos nossos parceiros para o grupo. Entenderam?
- O.k. ento esses so pares: Shizue e Andra, Minh e Craig, Charlotte e Bill, Eduardo e Zoe, Vince e Meera. Achem um canto pra conversar e voltem em vinte minutos. E sem escrever nada, certo? Escutem o outro com ateno. Olhem para o outro com ateno.
Charlotte foi se juntar a Bill Banerjee, que estava em p prximo  porta da sala. Bill, um aluno do primeiro ano, era alto e magro, com cabelos pretos, olhos com clios grossos e pele morena. Haviam se conhecido no primeiro workshop, e Bill tinha participado do grupo que fora tomar caf aps o encontro, mas nunca tiveram a chance de conversar a ss.
- Onde voc quer sentar?  perguntou Bill.
- Que tal aquele banco perto da janela no fundo do corredor?  sugeriu Charlotte.
Sentaram-se no banco, com um espao entre eles. Houve um momento inicial de silncio constrangedor.
- Eu fao a primeira entrevista  Charlotte finalmente se ofereceu.
- Tudo bem  Bill fechou as mos sobre o colo e sorriu timidamente  pode comear.
- O.k.  por um momento, Charlotte desejou que a senhora Lundgren no tivesse proibido o uso de anotaes. Ela gostaria de ter uma caneta ou um lpis para ocupar as mos.
Como  que algum faz perguntas pessoais sem parecer intrometido?, ela se perguntou.  Hum, acho que vou comear com... Onde voc nasceu?
- Nasci em Boston  Bill contou  Alguns anos que meus pais vieram de Bombay.
- Porque eles vieram para os estados unidos?  perguntou Charlotte.
- Meu pai tinha um amigo que morava aqui e que o convidou para participar de um negocio. Ramesh estava fazendo muito dinheiro, ento meu pai escolheu uma esposa e pegou um avio.
Charlotte balanou a cabea para o lado.
- O que voc quer dizer com  escolheu uma esposa?
Bill sorriu novamente.
- Prepare-se para um choque cultural. Meus pais se encontraram apenas uma vez antes de casar, numa exibio de casamento. Meu pai conheceu um punhado de esposas em potencial. Ele escolheu a minha me porque ela vinha de uma boa famlia e teve boa educao escolar; acima de tudo, ela era a garota mais bonita que ele j havia visto.
Charlotte lanou um olhar dbio para Bill.
- Voc est brincando, no ?
-  verdade  assegurou ele .
- Voc quer dizer que sua me no teve nenhuma participao nessa deciso?
- Bem, os pais dela no teriam deixado meu pai colocar os ps na casa deles para conhecer minha me se ele no tivesse passado anteriormente pela inspeo. Mas, basicamente, no.
- Isso  terrvel!  exclamou Charlotte.  Eu nunca tinha ouvido algo to machista!.
Bill soltou uma gargalhada.
- Mas deu tudo certo. O negcio do meu pai fez sucesso, e minha me ama viver nos Estados Unidos. Ela ainda veste sris, mas obteve um diploma de Harvard.  psicloga. Isso nunca teria acontecido se ela estivesse continuado na ndia.
Charlotte no estava convencida.
- Mas esse lance de casar com um completo estranho?
- Eles no foram estranhos por muito tempo  acrescentou Bill  e, acredite ou no, eles tm um excelente casamento. Meu pai respeita muito a minha me. Eu sei que isso parece maluquice, comparado  Amrica, mas  assim que as coisas acontecem por l.
- Eles no fazem isso ainda, fazem?
- Claro que fazem. s vezes, mesmo os indianos que moram nos Estados Unidos entram em casamentos arranjados.  bem comum  Bill gargalhou novamente.  voc devia ver a sua cara, Charlotte.
Ela balanou a cabea.
-  que eu no consigo imaginar. Voc no vai se casar assim, vai?
Ele franziu as sobrancelhas escuras.
- Por que no?  brincou.  Se eu no conseguir encontrar uma garota legal, posso ligar pra minha tia em Calcut e pedir pra ela me arranjar algum.
Os dois deram uma gargalhada.
No inicio, Charlotte no tinha certeza de como comear a entrevista, mas agora as perguntas jorravam. Ela descobriu que a comida favorita de Bill era cachorro-quente com chilli e batatas fritas, assim como especialidades indianas, como samosas e rogan Josh. As duas irms mais velhas dele estavam na faculdade, uma estudando engenharia e a outra, ingls. Ele tocava saxofone e colecionava revistas em quadrinhos. Gostava de assistir a filmes antigos, especialmente westerns, e ouvir jazz. E era um grande f do time de hquei de Boston.
- Mas eu preferia danar como Fred Astaire a ser um bom jogados de hquei no gelo  concluiu Bill.  Meu pai e eu temos ingressos para toda temporada de hquei, mas quase sempre prefiro ir ao bal com minha me.
- Voc gosta de bal?  perguntou Charlotte, mal acreditando.
- Isso  estranho?
Ela balanou a cabea.
- Ah, no. Eu fao aula de bal.
- Eu devia ter imaginado  disse ele, olhando Charlotte como se estivesse analisando o corpo dela.
Charlotte relaxou sua postura esticada de bailarina, ficando com o rosto levemente corado.
-  s que... bal... a maioria dos garotos que eu conheo...  Pelo menos um chamado Jared Colburn, pensou.  Eles no... quer dizer, no ...
- Coisa de macho?  completou Bill, sacudindo os ombros.  no me importo. Eu acho legal. Cara, queria ver um desses jogadores de futebol americano da escola fazer um Rond de jambe em lair!
Os dois soltaram uma gargalhada novamente. Charlotte no tinha certeza se Bill sabia que ela namorava um desses jogadores, mas decidiu no contar nada a ele. A no ser que ele me pergunte sobre isso na entrevista, ela pensou, desejando que isso no acontecesse.
Ele no perguntou. Perguntou sobre a famlia de Charlotte e sua criao, sobre viagens que ela havia feito e livros que tinha lido. Ela se viu contando para ele vrias coisas de sua vida que mesmo suas amigas mais intimas no sabiam: que ela havia sido a primeira garota de sua famlia a optar por escola publica em vez de uma escola catlica s para garotas; que seus pais haviam se separado quando ela estava no primeiro ano do ensino mdio, mas depois reataram; que ela desejava que seu nome no fosse Kenney porque todo mundo perguntava se ela tinha algum parentesco com aqueles Kennedys.
Vinte minutos voaram.
- Vinte e cinco, na verdade  Charlotte disse para Bill, ao olhar o relgio.
-  melhor a gente voltar  disse ele.
Eles correram de volta para a sala.
- Isso foi divertido  comentou Charlotte.
Bill concordou com a cabea.
- Foi um prazer conhecer voc, Charlotte  disse ele, estendendo a mo.
Charlotte apertou a mo de Bill, sorrindo.
- o prazer foi meu  falou ela. E tinha sido mesmo.

Captulo SETE

Jared deu uma olhada no relgio da parede da cozinha que ficava acima da tbua de carne. Com um suspiro de desapontamento, viu que eram apenas duas e meia. As horas estavam passando mais lentamente do que de costume. A escola termina s trs, pensou, mas Jeff e os rapazes todos tm alguma prtica esportiva, e Charlotte tem bal. Ela disse que tentaria dar uma passada aqui no caminho pra casa...
Jared largou seu lpis sobre o tampo da mesa e descansou a cabea sobre as mos, seus ombros largos cedendo de desnimo. Qual a finalidade de tudo isso?, ele se perguntou. Passara a maior parte da manh fazendo fisioterapia, desgastando-se para nada... no havia feito nenhum progresso perceptvel. Depois, teve aulas particulares por duas horas, o que o deixou ainda mais deprimido. Estava muito atrasado em suas aulas, provavelmente nunca conseguiria pr a matria em dia. Estava tentado a colocar seu dever de casa na mochila e ir para a sala tirar uma soneca no sof, ou talvez assistir a pilha de vdeos dos trs patetas que sua me havia alugado para ele.
Estava afastando sua cadeira de rodas da mesa da cozinha quando o telefone tocou. Em vez de seguir para o corredor, Jared aproximou-se do telefone que ficava na parede.
- Al?  respondeu.
- Jared, sou eu.
O rosto dele se acendeu com o som inesperado da voz de Charlotte, ainda que fosse difcil ouvi-la por causa dos barulhos ao fundo.
- E a?  perguntou ele.  Onde voc est?
- Estou num orelho perto da estao de trem  respondeu ela.  Indo pro bal. Eu s queria dar um oi.
- Bem, oi.
- Como foi a fisioterapia hoje de manh?
- Boa  ele mentiu.  Voc sabe, devagar. Vai demorar.
- Voc vai conseguir  ela assegurou.
- .
- Ento, Jared, ontem, quando ns conversamos, esqueci completamente que eu tenho um encontro sobre a diversidade hoje  noite. Depois da aula de bal eu vou direto pra escola. Mas a gente se v amanh, O.K.?
Um desapontamento subiu pela garganta de Jared, azedo como limo, mas se esforou ao mximo para no deixar sua voz denunciar o que ele sentia. No queria se queixar.
- Te bem, Char  disse.  divirta-se.
- Eu vou.
Ele a manteve no telefone por mais alguns segundo, adiando o momento em que voltaria a ficar sozinho, com a longa tarde montona se esticando diante dele.
- Estou com saudade  ele disse.
Ela respondeu alguma coisa que ele no ouviu direito por causa do barulho vindo da estao.
- O qu?  perguntou ele.
- Tenho que ir. Meu trem chegou  gritou ela.  Tchau!
Jared levou a cadeira de rodas at a geladeira e considerou se deveria fazer um lanche. Mas acabou no querendo nada. Por causa dos esportes, estava acostumado a se exercitar tanto que podia fazer cinco grandes refeies ao dia. Mas esse no era o caso agora. Ele precisava se controlar se no quisesse ficar barrigudo.
Voltou para a mesa, decidido a permanecer ali at terminar seus exerccios de matemtica. Se conseguisse avanar mais dois captulos do livro, teria ao menos um assunto inteiramente estudado. Antes de comear a ler, no entanto, permaneceu por alguns minutos pensando em Charlotte.
Engraado, antigamente ele nunca ficaria pensando tanto sobre o que ela fazia quando no estava com ele. Sabia do comprometimento dela com o bal,  claro, mas isso nunca o afetara de fato porque sempre estivera ocupado com seus treinos. Agora, alm do bal, ela tinha entrado nesse programa sobre conscincia da diversidade na escola. Sobre o que era tudo isso, afinal? Ele se lembrou dos comentrios sarcsticos que fizera quando Charlotte lhe havia falado pela primeira vez de seu interesse por aquele assunto. Mas mesmo assim ela mantivera sua opinio, inscrevendo-se no workshop.
Enquanto ele apontava o lpis, preparando-se para mergulhar nos exerccios de matemtica, uma imagem surgiu em sua mente: Charlotte, sentada nas arquibancadas algumas semanas atrs torcendo por ele no primeiro jogo da temporada. E o ltimo para mim, pensou.
Agora ele estava na reserva.
- Levante mais a perna. Mais!  madame Laurent insistia com Charlotte ao chegar perto dela no estdio de dana a fim de criticar sua performance nos exerccios de barra.  Isso  o melhor que voc consegue fazer, e voc ainda diz que  uma bailarina?
Sem virar o rosto para professora, Charlotte manteve o olhar voltado para a frente, o pescoo alongado ao mximo e o queixo inclinado. Madame Laurent andou mais um pouco para observar a garota seguinte na barra, sem esperar que Charlotte lhe desse uma resposta.
Como as outras dez meninas na sala. Charlotte sabia por longa experincia que no deveria levar os comentrios depreciativos de sua professora to a srio. Era o estilo da madame Laurent: ela era severa porque esperava muito de suas pupilas mais avanadas, as quais, depois de dez anos ou mais de aulas, ela amava como se fossem suas prprias filhas. E madame Laurent est certa... eu posso levantar mais minha perna, Charlotte pensou enquanto continuava seus grands batterments, a srie de chutes no ar que conclua seus movimentos de aquecimento feitos na barra.
Desde que comeara a tratar o bal com mais seriedade, Charlotte vinha tendo aulas no conservatrio de dana de New England todos os dias da semana aps a escola. Apesar das longas horas dedicadas a dana, que a impediam de fazer muitas outras atividades extracurriculares, sem falar no ps cronicamente cheios de bolhas, Charlotte nunca se cansara do bal. Ela amava toda aquela tradio: todas as meninas em malhas pretas idnticas, meias e
Sapatilhas rosa, seus cabelos presos em coque; a pianista, a senhora Rosenberg, tocando Tchaikovsky e Copland; os exerccios da barra sempre realizados precisamente na mesma ordem. E, depois de completar a rotina da barra, era o momento de colocar as sapatilhas de ponta e ir para o centro trabalhar en pointe, sobre os prprios ps, sem barra para se apoiar  a parte mais difcil da aula.
Hoje, Charlotte estava apreciando mais do que o normal o aspecto rgido e ainda assim libertador da aula de dana. Depois de todas as coisas traumticas que haviam acontecido em sua vida ultimamente, era bom mergulhar na disciplina pura do bal, para esvaziar a cabea de tudo, exceto da msica e dos movimentos.
Enquanto praticava seus passos, porm, Charlotte sentia uma grande angstia. Tinha perfeito controle de seu corpo. E, assim, no podia evitar uma comparao com Jared, cujo corpo no respondia mais aos comandos dele.
Mas quando eu telefonei ainda h pouco, ele no tentou fazer com que eu me sentisse culpada por no poder visit-lo hoje  noite, Charlotte lembrou, ao pisar na caixa de breu para colocar mais p nas solas das suas sapatilhas de ponta, a fim de no escorregar. Porqu? Ele costumava odiar isso, quando era minha maior prioridade.
Madame Laurent juntou-se a ela antes que pudesse voltar para o centro da sala.
- Charlotte, ma chrie  disse madame Laurent - , o diretor do conservatrio me pediu para recomendar uma ou mais das minhas alunas para estagiar com a companhia durante a produo de frias do quebra-nozes!  exclamou ela.  Mas...
Mas, h um ano, eu estagiei em uma das produes do conservatrio e Jared reclamou que os ensaios extras me afastaram dele. E agora, com os workshops sobre diversidade, eu estou mais ocupada do que nunca, pensou Charlotte.
- Mas no sei se terei tempo  disse, com o corao partido.
 talvez uma outra produo na primavera. Voc diria ao diretor para ele se lembrar de mim?
Madame Laurent fitou-a com um olhar duro.
- Eu posso fazer isso. Mas dizer no para o quebra nozes!  claro que  voc quem tem que decidir. Mas lembre-se do que
eu lhe disse no outro dia. Voc no ter um nmero infinito de oportunidades. Para uma bailarina, elas aparecem apenas quando se  jovem.
Charlotte pensou sobre as palavras da madame Laurent assim que terminou a aula de uma hora e meia. Como sempre, ao final da aula, ela e as outras alunas fizeram reverncia para a professora e para a senhora Rosenberg, inclinando o corpo para a frente. Logo em seguida, Charlotte saiu correndo em direo ao vestirio para trocar de roupa. Enquanto colocava as meias em seus ps machucados, sentiu o mundo real pressionando-a novamente. Escolhas... por que precisavam existir tantas?
***
Charlotte no tinha idia de quantas vezes na vida havia passado pela porta principal da escola Parker e subido pelas escadas at o segundo andar, onde ficava seu armrio. Afinal de contas, j estava no terceiro ano e, portanto, tinha entrado naquele prdio todos os dias por mais de dois anos. Mas nesta manh de segunda-feira, conforme ajudava Jared a seguir pelos corredores em sua cadeira de rodas, pela primeira vez prestou ateno em uma poro de coisas.
O prdio, construdo nos anos 1950, fora renovado para dar acesso de cadeiras de rodas, mas as rampas eram muito mal localizadas e as portas, difceis de serem manuseadas. E tambm havia a escadaria. Charlotte parou no saguo, momentaneamente confusa.
- E agora, o que  que a gente faz?  murmurou ela.
- Tem um elevador ao lado da sala da direo  Jared lembrou.
-  mesmo  disse ela.  Eu sabia disso!  que eu nunca tive de usar antes.
No brinca, ela pensou, imediatamente desejando ter mantido sua boca fechada. Mas Jared no fez nenhum comentrio. Ele estava sentado na cadeira com a coluna esticada, sua mochila sobre o colo, os olhos fixos no lado oposto do saguo.
Ela andou na frente dele em direo ao elevador, abrindo caminho entre a multido que circulava ali pela manh. Conforme Jared seguia conduzindo sua cadeira, muita gente se virava para espi-lo, e de dois em dois metros algum parava para dizer oi ou dar-lhe um tapinha nas costas. Jared abria um largo sorriso para todos, mas assim que a porta do elevador de fechou e os dois ficaram a ss, ele abaixou a cabea, seus ombros desmoronaram;
- Cara, isso  um saco  ele falou baixinho.
- Eu sei  disse Charlotte, passando a mo pelo cabelo dele.  Mas no vai demorar muito tempo pras pessoas se acostumarem com a cadeira de rodas, a elas vo parar de ficar olhando.
- Eu no quero que elas se acostumem com isso  ele disse bruscamente.  Espero sair disso o mais rpido possvel!
A porta para o segundo andar se abriu e Jared partiu rapidamente com sua cadeira de rodas. Charlotte seguiu-o pelo corredor, sem querer parecer uma bab ou um guarda-costas. Quando chegaram ao armrio dele, no entanto, num gesto automtico ela esticou a mo  ela sabia a combinao. Ento, virou-se para olhar Jared.
Charlotte largou seu brao ao lado do corpo. Jared no havia falado nada, mas ela podia ler o pensamento dele: Obrigado, mas eu posso fazer isso sozinho.
Ela baixou a cabea, reconhecendo silenciosamente seu orgulho e independncia. Charlotte sabia que estas eram as qualidades que fariam com que ele atravessasse aquele dia difcil.
Jared parou a cadeira de rodas diante de seu armrio. Inclinando-se para a frente, tentou alcan-lo. Era um verdadeiro alongamento e, depois de digitar os dois primeiros nmeros, seus dedos escorregaram.
- Saco  murmurou ele, recomeando.
Charlotte mantinha-se a uma certa distncia, mordendo o lbio. Era doloroso ver Jared se atrapalhando com o armrio, mas ela sabia que era importante para ele fazer essas coisas sozinho. Depois de mais uma tentativa frustrada, ele deslizou a cadeira de rodas para trs num movimento abrupto e fez manobras para o lado. Estava prestes a tentar a combinao de novo quando uma garota se aproximou.
Era Deirdre, a linda menina do segundo ano e diretora no oficial do f-clube de Jared, mais bonita do que nunca, com seus longos cabelos pretos cados sobre o suter vermelho.
- Oi, Jared  Deirdre disse com um sorriso. O tom da voz de Deirdre era alegre, mas Charlotte podia perceber uma ponta de pena em seu olhar.  Precisa de alguma ajuda a?
Um arrepio subiu pelo pescoo de Jared
- Eu me viro  murmurou ele.  Mas obrigado mesmo assim.
- Tudo bem  disse Deirdre baixando seus olhos.  At mais.
Deirdre acenou para Jared e saiu impetuosamente pelo corredor, balanando seus cabelos brilhantes. Jared a observou indo embora. Suas mos agarravam firmemente os braos da cadeira de rodas. Obviamente, havia sido humilhante para ele ser visto como um impotente, especialmente por Deirdre, uma garota mais nova que costumava endeus-lo.
Charlotte permaneceu silenciosamente por perto, sem querer se intrometer na dor de Jared. Mas ela o conhecia to bem que podia ler os sentimentos dele apenas por sua linguagem corporal: a postura rgida, o ngulo em que mantinha o queixo, o sulco profundo entre as sobrancelhas. Estava tudo l: desconforto, frustrao, orgulho ferido, tristeza.
Ento, Charlotte percebeu que suas prprias emoes estavam igualmente misturas e contraditrias. Seu corao doa por Jared, mas, ao mesmo tempo, ela no conseguia deixar de sentir quase satisfeita por, finalmente, v-lo cair do pedestal de arrogncia em que sempre se mantivera.
Ela sentia um impulso de lanar os braos ao redor dele, protegendo-o; mas ao mesmo tempo era como se quisesse sair andando, deixando que ele descobrisse sozinho seu novo espao na escola Parker. Parte dela queria ajud-lo a se curar, enquanto outra parte continuava com a mesma sensao de antes do acidente de carro: queria se sentir livre. Como conseguiria suportar essa relao, uma vez que no tinha a menor idia de como se sentir em relao a ele?
Jared voltou-se para seu armrio. Agora, quando digitou a combinao de nmeros, a porta se abriu facilmente. Olhando Charlotte de relance, Jared deu um sorriso sem graa.
- Depois de dez tentativas  brincou ele.
O tom de sua voz era leve, mas havia algo de sombrio nas profundezas de seus olhos verdes. Jared resolveu colocar aquele olhar em palavras.
- Obrigado, Char  disse ele com extrema sinceridade.  Obrigado por estar aqui.
Um calor tomou conta do corao de Charlotte, apesar das duvidas que sentia. Ela sorriu.
- Sempre que precisar.

Captulo OITO

- Ento quer que eu v com voc ao jogo contra a escola Walden amanh  Jared repetiu para Charlotte no fim daquela semana.
Era sexta-feira  tarde, e ele e Charlotte haviam parado no Judys, no caminho da escola para casa, para tomar um sundae, o clima entre os dois ia bem at Charlotte mencionar casualmente o jogo de futebol.
- Certo.  isso mesmo que eu disse  falou. E enfiou a colher no chantilly com pedaos de castanhas que cobria seu sundae de creme.  Acho que o dia vai estar lindo, e o jogo vai acontecer aqui, ento todo mundo vai estar l. Eu s pensei que... eu no sei...  ela balanou os ombros, com um sorriso sem graa.  Achei que seria divertido pra voc. Bem, talvez no divertido, mas...
- Esquece  Jared lhe falou, colocando sua colher ao lado da taa do sundae e limpando a boca com um guardanapo de papel.
Charlotte levantou suas sobrancelhas.
-  isso? Apenas esquece?
- .  isso  o tom de voz de Jared era mais frio do que um sorvete.
- Mas Jeff e os outros garotos eram... so... seus colegas de time  insistiu Charlotte.  Tenho certeza de que significaria muito para eles se soubessem que voc estava l, torcendo pelo time.
- No sou da torcida organizada  cortou Jared.  Isso  trabalho para Kelly OConnor.
Charlotte mordeu o lbio, ferida pela negatividade de Jared.
- Eu no estava tentando esfregar na sua cara que voc est machucado e no pode jogar. Eu s pensei que...
- O qu?  ele perguntou sarcasticamente.  O que  que voc pensou?
Agora Charlotte estava ficando irritada tambm.
- Eu pensei que ir a um jogo faria voc se sentir melhor  ela disse nervosa.  Pensei que isso podia animar, dar algum estmulo. Mas estava enganada. Voc prefere ficar sentado em casa sentindo pena de si mesmo.
Empurrando sua cadeira para trs, ela agarrou a bolsa e disparou em direo a sada. Segurou as lgrimas enquanto empurrava a porta do restaurante. Jared Colburn no merece que chore por ele, ela disse a si mesma. Talvez ele no possa andar, mas nada mais mudou. Ele ainda  o cara mais teimoso, vaidoso, egocntrico e insensvel da terra!
Do lado de fora, na calada, Charlotte parou.
-Conte at dez, Charlotte  ela falou baixinho.  No seja to dura... ele est muito magoado.
Mas isso era difcil. Todos aqueles sentimentos que ela guardara para si, antes do acidente de carro, quando estava  beira de terminar com ele, tinham se tornado involuntrios.
Se ela no conseguia mais estar loucamente apaixonada por Jared, queria pelo menos gostar dele, mas Jared tornava isso to difcil! Porque sempre sou eu aquela que d, que apia, que se adapta, que chega a um meio-termo?, ela pensou com ressentimento. Quando  que ele tambm vai comear a ceder?
Tentando se acalmar, respirou to profundamente que suas costelas doeram. Jared havia sido grosso com ela, mas ele andava compreensivamente sensvel naqueles dias, ferido de diversas maneiras. E ela no podia simplesmente se livrar dele. O que  que ele iria fazer, pular num nibus?
Charlotte voltou para o restaurante. Olhando atravs da vidraa, ela observou Jared abrindo a carteira e colocando algumas notas sobre a mesa. Ento, ele conduziu sua cadeira de rodas na direo dela.
Os dois no conversaram enquanto ela o ajudava a se sentar no banco do carona do carro da me dela, que estava estacionado no fim do quarteiro.
Depois de dobrar a cadeira de rodas e guard-la no porta-malas, Charlotte pulou no assento do motorista e enfiou a chave na ignio. Mas no ligou o motor de imediato. Ela se recusava a ficar mantendo aquele joguinho de silencio. Havia suportado muito isso, antigamente. Os humores e opinies de Jared sempre determinaram tudo. No podia mais ser daquele jeito.  claro que ele merecia uma considerao especial por causa de seu estado, mas os sentimentos dela tambm precisavam ser levados em conta. Se no podemos chegar a um acordo, ela pensou, ento  melhor terminarmos agora mesmo.
- Jared, eu...  comeou ela.
Ele comeou a falar na mesma hora.
- Charlotte, eu...
Ambos pararam. Charlotte olhou para Jared.
- Continue  falou ela.
-Char, eu sinto muito  a rouquido da voz de Jared mostrava o quanto era difcil para ele formar aquelas palavras.  Eu agi como um beb l dentro.
- Eu tambm  admitiu ela  , saindo daquele jeito.
- Voc estava certa em me deixar sozinho  ele disse.  Mesmo que as dores de cabea dessa sndrome ps-traumtica me deixem sem pacincia, isso no pode ser uma desculpa. Talvez eu no queira ir ao jogo, mas estava totalmente errado em atac-la daquele jeito. Suas intenes so boas. Elas sempre so.
Charlotte baixou os olhos. Suas intenes no eram sempre boas. No fazia muito tempo, ela pretendera terminar o namoro com ele.
- Eu no sou uma santa  ela afirmou com a voz baixa.
- Ento somos dois  Disse Jared.
Eles se olharam, ambos pegos pela sinceridade daquele momento.
Lentamente, um sorriso apareceu nos lbios de Charlotte.
-Quer dizer que voc esta realmente admitindo que no  perfeito, h, senhor Gostoso-com-um-Futuro-Brilhante-pela-Frente?  ela debochou.
Jared sorriu de volta para ela.
- S no fale isso pro editor do livro anual dos alunos, OK?  disse, relaxando o corpo no banco.  Ento, o que voc ia mesmo dizer?
Ela mal podia se lembrar.
- Seja l o que for, eu no preciso mais falar.
Uma semana depois, numa tarde de sexta-feira, o telefone tocou na casa dos Kennedy um pouco antes do jantar. Charlotte, que estava arrumando a mesa, agarrou o telefone sem fio do balco.
- Al?
- Char,  o Jared.
- Oi.  ela falou, continuando a colocar guardanapos e talheres sobre a mesa, o telefone preso entre a orelha e o ombro.  E ai?
- Eu estava pensando, se voc no for fazer nada amanha, se estiver interessada...  Jared tossiu umas duas vezes, mas para Charlotte no parecia uma tosse verdadeira.  Ah, por acaso  continuou ele  voc estava planejando ir ao jogo de futebol contra Newbury? Ou no?
Charlotte parou com um garfo na mo.
- O jogo de futebol?
- Eu sei que vai ser um pouco longe daqui  disse Jared.  Mas eu estive pensando que talvez eu... eu devesse... voc sabe.
Aquela no era uma frase muito conclusiva, mas j tinha sido um grande passo para Jared.
- Voc gostaria de ir ao jogo comigo?  perguntou ela.
Houve uma pausa. Charlotte teve a sensao de que Jared estava pensando em desligar o telefone e fingir que aquela conversa nunca havia acontecido. Ento, finalmente, o silencio foi interrompido.
- Voc estava certa na semana passada, Char. Eu no estava preparado antes, mas agora estou. Eu acho.
Essa tinha sido a coisa mais corajosa que Charlotte ouvira Jared dizer. E ir ao jogo no dia seguinte como espectador seria a coisa mais corajosa que ele faria na vida.
- Vamos  declarou ela.  Vamos ver os Patriots acabarem com Newbury!
Jared chegou a mudar de idia durante o caminho para o jogo no dia seguinte  uma, duas, trs vezes. Num dado momento, quase pediu para Charlotte voltar com o carro. Mas sabia que no podia desistir. Charlotte estava certa na semana passada. Ele escolhera ficar sozinho em casa, se escondendo, desistindo. No podia fazer isso. Precisava mostrar ao mundo, e a ele mesmo, que ainda tinha uma vida que valia a pena.
Uma coisa, porm, era ter coragem dentro do carro de Charlotte, outra completamente diferente era manter o sorriso enquanto conduzia sua cadeira de rodas pelo cho de cimento do lado dos visitantes do campo de futebol americano da escola Newbury.
Quando se aproximara das arquibancadas, j quase cheia de fs da escola Parker que tinham ido assistir ao jogo, o corao de Jared foi pra sola dos ps. Daquele ngulo, as arquibancadas pareciam extremamente altas e inacessveis.
- Eu nem havia pensado nisso  ele disse para Charlotte, tentando esconder seu pnico.  Como  que eu vou chegar at l, dando um salto com vara?
- Nos podemos ficar ao lado das arquibancadas, na passagem  sugeriu ela.  De l, d pra ver bem o campo todo.
Jared assentiu com a cabea, aliviado.
- Certo.
Eles escolheram um lugar e, alguns minutos depois, Charlotte saiu para comprar uns refrigerantes na lanchonete. Jared insistiu que ela fosse, ainda que ele achasse estranho ficar sozinho na cadeira de rodas, olhando apenas os troncos das pessoas que se espremiam para chegar nas arquibancadas. Ele no queria forar Charlotte a ficar ao lado dele, segurando sua mo, durante todo o dia. E tambm no queria ficar to acostumado  presena constante dela. No podia e no ia se permitir ficar dependente de ningum, especialmente de Charlotte. Ainda tenho o controle do meu destino, lembrou. Estou aqui porque quero estar aqui.
Enquanto esperava Charlotte retornar, ele folheou sem muita ateno o programa do jogo, olhando o perfil do time rival e dando uma espiada nos anncios. Ento, virou a pgina e ficou estupefato.
Abaixo da foto do time de Newbury havia uma foto, em preto-e-branco, do time principal da escola Parker. Como co-capitao, o prprio Jared, sentado no centro e  frente, com um grande nmero 15 na camisa, o capacete apoiado sobre um dos joelhos e um sorriso confiante no rosto.
Jared fitou a fotografia com uma sensao de nusea. O nmero 15 ainda existia? Se este sou eu, Jared pensou, ento quem  esse cara na cadeira de rodas?
- Jared.
De repente, ouviu Charlotte chamar seu nome, dando uma gargalhada.
-Jared! Voc no devia cair no sono. Sou eu que acho os jogos de futebol americano um tdio.
Jared saiu do seu devaneio.
- Desculpe. O qu?
- Eu perguntei: diet ou normal?
Ele pegou o copo de refrigerante diet.
Dez minutos mais tarde, depois que vrios amigos pararam para cumpriment-lo antes de subirem para as arquibancadas, Jared virou a cabea para o lado e lanou um olhar cnico para Charlotte.
- Voc fica entediada em jogos de futebol?
Ela franziu nariz.
- Eu disse isso?
- A-h.
- As vezes, fico um pouco cansada  ela tentou corrigir, enfiando as mos nos bolsos do casaco. Ele continuava olhando para ela. Ela mantinha um sorriso retorcido no rosto.  O.K.,  mentira. Eu fico sempre entendida. Nada pessoal  acrescentou.
- Eu pensei que voc gostava de vir a meus jogos  falou ele.
- Eu gosto... gostava...o que for. Quer dizer, no inicio eu gostava, mas... a novidade desaparece com o tempo, eu acho.
Jared no tinha certeza se devia se sentir ofendido por essa confisso, que fez com que pensasse que Charlotte havia passado dois anos inteiros fingidos estar entusiasmada. Mas ele havia dado outra alternativa a ela? Tinha apenas admitindo que, se ela o amava, tambm amava o futebol americano.
Ele decidiu que admirava a honestidade dela. Alm do mais, isso podia ser uma desculpa para ir embora.
-Ns no precisamos assistir ao jogo todo  ele disse. Nesse momento, os times estavam justamente entrando em campo, sob os gritos das torcedoras, que levantavam seus pompons, e os aplausos da multido nas arquibancadas.  Podemos at ir embora agora.
- Eu nunca disse que no queria estar nos jogos, antes ou agora  replicou ela.  S falei que achava o futebol maante. So duas coisas diferentes.
As palavras de Charlotte permaneceram com Jared enquanto ele observava Jeff e os outros Patriots se reunirem com o tcnico Baldwin para uma palavra de coragem antes do jogo.  engraado pensar que ele nunca tivera uma pista dos reais sentimentos dela pelo futebol. O que mais ele havia perdido?
Os times se posicionaram nos dois lados do campo para o incio. Jared tentou no se importar quando um dos jogadores dos Patriots. Ryan Murphy, correu para a frente e elegantemente tirou a bola do time adversrio, depois avanou por uns vinte metros antes de ser atacado por um jogador do Newbury. Mas ele se importou. Uma dor cortou seu estmago ao mesmo tempo que as arquibancadas explodiam em gritos. Era como se uma parte dele estivesse sendo arrancada de seu corpo, uma parte essencial dele. Ele agarrou os braos da cadeira de rodas to fortemente que seus dedos ficaram brancos.  deveria ser eu ali, ele pensou.
Ele assistiu ao jogo atentamente, quase sem respirar. Os Patriots se atrapalharam e o Newbury recuperou a bola. A ofensiva da escola Parker recuou, com a defesa se posicionando. Jared relaxou seus punhos nos braos da cadeira e esticou os dedos. Cuidadosamente, colocou a mo sobre a perna. Ser que suas pernas ainda pareciam estar mais finas dentro de sua cala jeans? Ele rangeu os dentes, tentou mover a perna direita e foi premiado com um espasmo do p. Era isso.
Ele queria chorar, gritar ou sair empurrando a cadeira de rodas e sumir dali. Antes que pudesse dar vazo a sua frustrao, sentiu uma mo sobre o seu brao.
Charlotte se arqueou para perto da cadeira, o ombro dela contra o dele. Ela deslizou o brao para a frente, pegando a mo dele e entrelaando os dedos.
- Sabe  ela disse calmamente - , voc no  uma pessoa menor s porque est aqui e no l.
Jared no conseguia falar nada. Olhou para ela, e rapidamente desviou a cabea.
Ela havia falado sinceramente, e ele queria acreditar, realmente queria. S no tinha certeza se conseguiria.

Captulo NOVE

- Acho que Jared foi realmente muito corajoso indo ao jogo de ontem  Maddie disse para Charlotte na manh de domingo.
As garotas haviam sado da casa de Charlotte com bicicletas e mochilas. Agora, estavam fazendo um piquenique no gramado do parque da cidade, aproveitando o sol suave de outubro.
- Foi mesmo  concordou Charlotte, usando uma faca de plstico para passar requeijo numa fatia de po.  Foi duro pra ele, especialmente ter de ir falar com os garotos do time depois da partida. Mas honestamente acho que, no final de tudo, ele se sentiu satisfeito por ter ido. Fiquei orgulhosa dele  acrescentou.
- Meu corao fica partido por vocs, fica mesmo  comentou Maddie, girando a tampa de plstico de uma garrafa de suco de laranja.  Vocs estavam vivendo um grande romance, e a... isso.  uma tragdia. Como, sei l, Dr. Jivago ou algo parecido.
Charlotte deu uma gargalhada.
- No  nada parecido com Dr. Jivago!
- O que eu quero dizer  que deve ter sido realmente muito duro pra voc. As coisas costumavam ser to perfeitas, e agora no existe nenhuma certeza do que vai acontecer no futuro. Quer dizer, ser que isso vai deixar seu amor ainda mais forte, vai destruir o relacionamento de vocs ou o qu?  perguntou Maddie.
Maddie no parecia estar esperando uma resposta para o que fora basicamente uma especulao. Havia tirado seu suter e estava deitada de costas no cho, com o rosto voltado para o sol. Mas Charlotte, colocando de lado o sanduche comido pela metade, decidiu aprofundar aquele assunto.
- Maddie, tenho que contar uma coisa  disse ela de supeto.
- O que?  Maddie sentou-se novamente.
-  sobre o Jared  Charlotte fez uma pausa, suas bochechas ficaram rosa.
Maddie examinou o rosto da amiga, intrigada.
-  sobre... sua vida sexual?  ela arriscou, delicadamente.
Charlotte resmungou.
- Ah, Maddie! Voc devia apresentar um daqueles programas de entrevista que passam  tarde na TV!  sobre todo o nosso relacionamento. Eu ia...  ela decidiu se arriscar.  Eu ia desmanchar com o Jared, Maddie. Bem antes do acidente de carro.
Imediatamente, Maddie pediu mais detalhes, e Charlotte contou tudo que podia.
Depois do espanto inicial, Maddie foi compreensiva e tentou se desculpar.
- Tenho sido to estpida, Char!  ela gemeu.  Agora que voc me contou tudo isso, parece to bvio. Eu devia ser sua melhor amiga. Porque no percebi que voc estava infeliz com Jared?
- Foi culpa minha  Charlotte assegurou a ela.  Eu poderia ter confiado mais em voc.
- Desculpe, Char. Mesmo. E como voc est levando as coisas agora?
- Pra dizer a verdade, estou indo bem, melhor do que antes  Charlotte inclinou a cabea para dar uma olhada no cu exatamente quando uma rajada de vento sacudiu uma chuva de folhas amarelas de uma das arvores prximas a elas.  Quando as aulas comearam, eu estava me sentindo to presa...
- E voc no est mais se sentindo presa agora?
Charlotte pensou por um momento e ento balanou a cabea.
- No. Voc imaginaria que sim. Mas por alguma razo...
Maddie esperou impacientemente enquanto Charlotte procurava as palavras certas.
-  estranho  continuou Charlotte.  Oficialmente, ainda sou a namorada de Jared Colburn, e esta  uma pessoa que eu imaginei que no gostaria mais de ser. Mas  como se a definio tivesse mudado. Talvez seja apenas eu, dentro de mim. O modo como eu enxergo as coisas. Quer dizer, tome isto, aqui e agora, eu e voc discutindo esse assunto. Desde que percebi que minha relao com Jared no era tudo o que eu queria ser, comecei a me sentir mais no controle de minha vida. Isso faz sentido?
Maddie concordou com a cabea.
- Uau!  ela suspirou admirada.  Char, voc  to esclarecida!
Charlotte desatou a rir.
- At parece...
- Mas voc est segura de que fez a coisa certa, no terminando com Jared?
Charlotte pensou na garganta emocional que experimentara nas ltimas semanas. Num minuto, Jared estava lhe deixando louca e ela no queria v-lo nunca mais; no seguinte, como no jogo de futebol do dia anterior, ela se sentia mais conectada com ele do que nunca.
- No estou segura se  a coisa certa pra mim ou pro Jared  disse a Maddie.
Deveria ter acrescentado que no sabia se conseguiria ter alguma certeza, sobre isso ou sobre qualquer outra coisa. Essa era a nica coisa que ela parecia ter aprendido ultimamente sobre relacionamentos e vida.
O encontro seguinte sobre conscincia da diversidade aconteceu numa tarde de quinta-feira de outubro. A senhora Lundgren e dez alunos sentaram-se em crculos, pensando sobre possveis pesquisas de campo para o workshop, enquanto uma tempestade de outono lanava chuva e folhas cadas contra as janelas da sala de aula.
- Acho que seria legal visitar diferentes bairros tnicos dentro e fora de Boston  sugeriu Bill.  Pegar o esprito do lugar. Andar pelas ruas, ver as casa, lojas e restaurantes.
- Mas isso no fica parecendo turismo?  Zoe perguntou.  Se a questo da conscincia sobre a diversidade  justamente conhecer pessoas de diferentes origens de um modo menos superficial?
Charlotte parou de fingir para si mesma que estava prestando ateno  discusso que acontecia a seu redor. A possibilidade de que ela estivesse desenvolvendo um interesse por Bill Barnejee era muito surpreendente. Era mesmo? Como ela poderia no gostar dele? Ele adorava musica e dana, assim como ela. Tinha um grande senso de humor e era a pessoa com as idias mais esclarecedoras e inteligentes daquele grupo. Mas, mesmo assim, nunca era mando. Era diplomtico, generoso e sensvel. E atraente, tambm... Ela no podia negar isso. Definitivamente atraente.
Mas existe uma profuso de garotos atraentes no mundo, e garotas que j tm namorado no deviam prestar ateno neles, Charlotte se lembrou.
Ela ainda estava revirando essas coisas em sua cabea quando a reunio acabou. Para evitar que algum percebesse que ela havia viajado durante a maior parte da discusso, Charlotte escapou rapidamente para a porta em vez de demorar-se, como sempre fazia.
Bill foi mais rpido e segurou a porta aberta para ela.
- Posso acompanhar voc at o carro?  ele se ofereceu.  Ainda est chuviscando, e eu tenho um guarda-chuva enorme.
Enquanto atravessavam o corredor, ele levantou o guarda-chuva para que ela mesma pudesse conferir. Era um daqueles modelos antigos, listrados, com um cabo de mogno e mais de um metro de comprimento. Charlotte no conseguiu prender o riso.
- Isso  grande o suficiente para abrigar todo o grupo!
-  perfeito pra duas pessoas  disse ele.  Espere, me deixe sair primeiro e abri-lo.
O vento levava a chuva para todos os lados, mas com aquele guarda-chuva enorme eles conseguiram se manter secos enquanto atravessavam o estacionamento. Dos joelhos para cima, pelo menos.
- Eu teria ficado completamente encharcada. Obrigada  Charlotte disse a ele, assim que chegaram ao carro de sua me, que ela pegara emprestado para vir at a reunio.
- Disponha  replicou ele.
Ela comeou a abrir a porta do carro.
- Charlotte, antes que voc v embora...  Bill disse repentinamente.
- Sim?  ela virou-se para ele.
- Posso te fazer uma pergunta pessoal?
Charlotte sentiu seu rosto esquentar, como havia acontecido durante o workshop quando ela e Bill ficaram se olhando.
- Lgico. Quer dizer, depende... Se no for muito pessoal, entende?
- No se preocupe, no  nada escandaloso  garantiu ele.  Provavelmente deve ser algo de domnio pblico aqui na escola... Eu poderia descobrir perguntando pras pessoas, mas no gosto de bisbilhotice. Acho que, uma vez que isso diz respeito a voc, ento voc seria a melhor fonte.
- Do que voc est falando?
- Eu gostaria de saber, se voc no se importar em me contar...
Bill fez uma pausa, limpando timidamente a garganta com um pigarro. De repente, Charlotte teve um claro pressentimento do que viria em seguida. E ela estava certa.
- Voc e Jared Colburn, o capito do time de futebol americano, o cara que sofreu o acidente de carro  continuou Bill.  Sei que vocs ficaram juntos por bastante tempo. Posso indagar sobre a situao atual do relacionamento de vocs?
A formalidade dele fez com que ambos dessem uma gargalhada.
- Jared e eu...  comeou Charlotte, antes de hesitar. A situao atual do nosso relacionamento... mas o que  isso?, ela pensou.  Ns...ns estvamos... estamos... pra ser franca, as coisas estavam esfriando entre a gente antes do acidente  disse ela.  Pelo menos do meu lado.
Os olhos de Bill brilharam de esperana.
- Ns somos grandes amigos  continuou Charlotte.  Estamos passando muito tempo juntos esses dias porque ele precisa do meu apoio moral e tudo mais.
-  claro.
- Mas nosso relacionamento... no  mais como antes  ela concluiu, vagamente.
- Pode parecer egosta, mas fico feliz de ouvir isso  disse Bill -, porque talvez signifique que voc possa considerar a hiptese de sair comigo neste fim de semana. O que voc prefere, jantar ou cinema?
- Este fim de semana? Hum...  Charlotte sabia que a conversa chegaria nesse ponto. Ela havia dado especo para que isso acontecesse, fazendo Bill acreditar que ela e Jared tinham mesmo se separado. No entanto, ela no se sentia preparada. Ela nunca tinha enganado Jared. Sair com Bill seria uma traio?
- Se voc estiver ocupada...  Bill disse, ao ver a hesitao dela.
No  um encontro romntico de fato, Charlotte decidiu. Eu s gostaria de conhec-lo melhor porque ele  um cara interessante, s isso.
- No, eu no to ocupada  respondeu ela.  Sim, vamos sair.
O rosto de Bill se encheu de felicidade.
- timo. Que tal no sbado?
- Claro.
- Eu te pego s seis.
No posso acreditar que estou fazendo isso, pensou Charlotte. Mesmo assim, no voltou atrs. No queria voltar atrs.
- Seis est bem  concordou.  Vejo voc no sbado!
Na sexta-feira, na hora do almoo, Jared e Charlotte foram juntos para a lanchonete.
- Estou vendo a Paige e o Bob  Charlotte disse.  Quer se juntar a eles enquanto eu pego alguma comida ora gente?
- Eu consigo pegar o meu almoo, voc sabe  Jared respondeu.
- Sei disso, senhor Colburn  ela implicou.  Estou dando a tarefa mais penosa pra voc. Aposto como  pior conduzir sozinho a cadeira de rodas por esse lugar cheio de obstculos!
- Voc est certa. Vamos ver quem chega l primeiro.
Enquanto Charlotte caminhou em direo  fila do almoo, Jared girou a cadeira de rodas e examinou a lanchonete, traando o melhor caminho at a mesa de Paige e Bob. Sorria a cada vez que desviava de uma cadeira, uma mochila ou uma pilastra. Estou ficando bom nisso.
- Pronto  proclamou assim que chegou ao outro lado da lanchonete sem trombar em ningum.
- Ei, cara  Boc cumprimentou-
Com um movimento suave, Jared parou a cadeira de rodas bem ao lado de uma das cadeiras da mesa. Colocando as mos sobre a mesa, ergueu o tronco. Por alguns segundos, antes de escorregar seu corpo para a cadeira da lanchonete, ele se manteve cuidadosamente equilibrado, suportando um certo peso sobre os ps.
- Fico louco toda vez que tento fazer isso sem cair com a cara no cho  ele disse aos outros.
-  incrvel  Paige comentou com entusiasmo.  No d pra acreditar o quanto voc progrediu, Jared!
Para Jared, o ritmo de sua recuperao continuava insuportavelmente lento. Mas era verdade que, graas a muitas horas de suor, havia conseguido uns avanos na fisioterapia, como ser capaz de ficar de p rapidamente, com ajuda. Suas pernas ainda continuavam quase totalmente insensveis e seus ps pareciam dois bicos de madeira, mas pelo menos no estava completamente imobilizado. Sentar-se numa cadeira normal fazia com que sentisse que um dia conseguiria voltar a ficar sobre os prprios ps.
Comeou a se preocupar com a demora de Charlotte  medida que a mesa ia enchendo com a chegada de mais amigos. Finalmente, avistou-a vindo com a badeja do almoo. Mas, no meio do caminho, Charlotte parou para conversar. Jared esticou o pescoo, curioso. Era um grupo de garotas que ele no conhecia, duas orientais e uma negra com longas trancinhas. Amigas do workshop sobre diversidade, imaginou.
Charlotte terminou a conversa com as meninas e seguiu para mesa.Jared ficou hipnotizado pela expresso no rosto dela. Um sorriso se estendia pelos lbios, seu queixo estava levemente levantado, seus cabelos, lanados para trs. Ela parecia relaxada e feliz, e estava com um olhar atraente. Um olhar, Jared percebeu, que no tinha nada a ver com ele. Charlotte deslizou a bandeja sobre a mesa e se acomodou na cadeira vazia ao lado de Jared.
- Peru e batatas fritas  disse.  Espero que goste.
- Parece estar uma delicia  disse ele.  Mas porque essa comida de passarinho?
Charlotte deu uma olhada em seu prprio almoo, uma salada com um punhado de queijo cottage.
- Eu estava combinando com a Andy e a Susie de tomar um sorvete mais tarde  explicou.  Tenho uma apresentao de bale daqui a uma semana e, se no me controlar, no vou caber na malha.
- Sabe que, na verdade, eu nunca vi voc danar?  comentou Paige.  Voc deve ser incrvel. Ela  incrvel, Jared?
Jared estava terminando de abrir o saco de batatas fritas com os dentes.
- J faz muito tempo que no vou s apresentaes dela  admitiu ele.  Provavelmente desde o incio do ano passado.
- Eu j melhorei desde ento  observou Charlotte.
O tom de voz dela foi neutro, mas Jared sentiu-se culpado mesmo assim. Porque no vou aos recitais dela?, ele se perguntou, pensando pela primeira vez sobre isso. Presumiu que estivera sempre muito ocupado. Mas Charlotte tambm era bastante ocupada, e mesmo assim conseguia ir a todos os seus jogos de futebol.
O futebol americano, porm, era a vida dele. Bal era apenas um hobby para ela. Era mesmo? Ele se lembrou da festa de fim de vero na praia, h uns dois meses, e a discusso sobre tentar uma universidade voltada para a dana. Ele havia apagado aquilo da cabea... Tivera outras coisas em que pensar desde ento. Mas, aparentemente, Charlotte era talentosa de verdade. Agora ele olhava para ela, enxergando-a sob uma nova perspectiva. Ela tem muitas qualidades, pensou.  uma garota incrvel.
Paige estava convidando Charlotte para um passeio no shopping na cidade.
- Eu adoraria ir  Charlotte se lamentou -, mas no consigo imaginar quando vou conseguir fazer isso no fim de semana. Tenho uma tonelada de deveres de casa, uma aula extra de ponta e prometi a meu pai que vou varrer as folhas do jardim. E, Jared  acrescentou ela, cirando-se para ele -, nos vemos hoje  noite, certo?
Ele fez que sim com a cabea;
- Se voc tiver tempo, sim.
Ela apertou a mo dele, mas o gesto pareceu mecnico.
-  claro que tenho.
A conversa na mesa passou a ser sobre as atividades da semana do Homecoming, a tradicional festa que celebrava a temporada de futebol americano das escolas e acontecia no incio de novembro. Cada escola organiza sua semana de Homecoming, ao longo da qual so realizados o desfile com os jogadores do time da escola, a eleio da rainha do Homecoming e o tradicional baile. Durante o papo, Jared se manteve calado Comendo seu sanduche de peru. Ele no participaria dos jogos daquela semana, obviamente, e por algum motivo tambm no conseguia se imaginar num desfile com seus colegas de classe. Ele imaginou que pelo menos poderia levar Charlotte ao baile que a escola promovia, assim como fizera nos dois anos anteriores. Franziu a testa. E me sentar perto da janela com meu terno alugado observando Charlotte danar com outros caras?
Jared colocou o pedao que sobrou de seu sanduche dentro da embalagem de papel-aluminio. Ainda restava metade do sanduche, mas ele havia perdido o apetite. Desde o acidente de carro e sua longa estada no hospital, era como se tivesse desenvolvido uma dupla personalidade. Em alguns dias, se sentia animado e confiante de suas chances de recuperao; em outros, estava to cansado da escola e da fisioterapia que no conseguia pensar em Nada. E de vez em quando surgia um dia em que tinha tempo demais para pensar e acabava ficando deprimido. Estava com a sensao de que aquele se transformaria em um desses dias.
Ele enfiou a mo no bolso e arrancou um pedao de papel dobrado. Era um bilhete da senhora Parsons, coordenadora pedaggica da escola, informando-o de que o prazo para enviar propostas de projetos de estudo independentes ainda no havia terminado. Ela aproveitou o bilhete e escreveu para Jared alguns detalhes do concurso de ensaios sobre a histria norte-americana que ela imaginara que poderia interess-lo.
Antes do acidente, Jared nunca teria tempo para esse tipo de coisa. Sempre obtivera boas notas, mas sua vida escolar era bem restrita, sem participaes em atividades extracurriculares. Era nos esportes que se sobressaa, que se tornava um astro. Mas ele no tinha mais isso. Quando tentasse uma vaga nas faculdades, todos veriam que ele costumava se destacar no futebol americano e no beisebol, mas que seu histrico escolar era um tanto vazio. Assim como eram suas perspectivas futuras...
Vazios, Jared pensou. Mais vazios.
Esses vazios, porm, no existiam apenas em sua participao escolar. Repentinamente, sua vida toda parecia cheia deles. Conforme Jared escutava Charlotte contar a Paige sobre os ltimos workshops de diversidade, uma angstia estranha, indefinvel, tomou conta dele. Estava tendo a sensao de que no fazia tanto parte da vida de Charlotte quanto pensava ou quanto queria? Ou simplesmente no gostava que ela tivesse interesses que o exclussem? Sabia uma coisa: os vazios de sua vida pertenciam apenas a ele  eram uma parte dele, como suas pernas machucadas. Charlotte no poderia preencher esses vazios para ele. Jared tinha que se curar sozinho.
-  isso?  disse Jared ao final de Razo e sensibilidade, o filme que ele e Charlotte alugaram na sexta-feira  noite.  Duas horas inteiras, e tudo que aquelas garotas terminam fazendo so dois casamentos para chatear os rapazes? Quer dizer, pega o... qual o nome dele, coronel Brandon? Ele deve ter trs vezes a idade da Marianne.
Eles estavam na casa de Jared, sentados no sof da sala. O modo como Jared resumira o filme, que era baseado em um dos romances de Jane Austen prediletos de Charlotte, fez com que ela soltasse um suspiro de irritao.
- O coronel Brandon  devotado a Marianne. E ele  um homem com dignidade.
- Ele  velho e chato  afirmou Jared.  Agora, o Willoughby...  legal.
- Willoughby  pssimo!  reclamou Charlotte.  Como voc pode...
Ento, ela viu o sorriso de deboche de Jared.
- Desculpe Char  falou ele.  Eu tinha que implicar com voc. No dava pra resistir. Quando escutei voc chorando no final...
- Voc  to ruim quanto o Willoughby  Charlotte disse, balanando a cabea.
- Mas pelo menos eu no fico citando poesias piegas  observou Jared.
-  verdade  admitiu ela.
Jared desligou a TV. Ento, esticou o brao esquerdo para desligar o abajur da mesa ao lado do sof.
- Estava muito iluminado aqui  explicou ele.
-   concordou Charlotte.
Por um minuto, permaneceram sentados sem se mover ou falar. Ento Jared deslizou um brao ao redor dos ombros de Charlotte. O corpo dela ficou tenso quase imperceptivelmente.
Quando comearam a namorar, ela e Jared mal podiam esperar para diminuir a luz aps assistir a um vdeo. s vezes, nem se preocupavam com o filme. Desde o acidente, no entanto, a intimidade entre eles estava meio atravancada... o que no chateava Charlotte, j que no tinha certeza de seus sentimentos por Jared. Ela s vinha dando beijinhos rpidos ocasionais e abraos carinhosos. Mas, naquela noite, ela sentiu que Jared queria algo mais dela.
Ela fingiu um bocejo.
- Voc no est cansado?  ela perguntou a Jared.  Eu sei que eu estou. Talvez fosse melhor voc ir se deitar. No quero deixar voc cansado.
- Voc no me deixa cansado  retrucou ele.  Ou, se deixa,  um tipo bom de cansao.
Ele apertou o brao ao redor de Charlotte e aproximou seu rosto do dela. Charlotte fechou os olhos, tomando coragem para dar um beijo que no sentia em seu corao.
Cinco minutos depois, reabriu os olhos. Jared tinha se afastado e estava com uma expresso sria, observando o rosto dela.
- Voc no est aqui realmente, est?  perguntou ele.
Ela piscou os olhos.
- O que voc quer dizer?
- quero dizer que voc est sentada a meu lado, mas no queria estar.
Charlotte balanou a cabea, mas no conseguiu evitar o rubor.
- Isso no  verdade, de jeito nenhum. Eu estou feliz por estar aqui com voc. E no gostaria de estar em nenhum outro lugar.
Conforme as palavras escapavam da sua boca, ela desejava poder peg-las de volta. Sentiu que estava se justificando muito.
Jared fechou a cara, seu olhar escureceu. Ele retirou o brao, dobrando-o contra o peito.
- No me faa nenhum favor, Charlotte.
- No estou fazendo nenhum favor, Jared  declarou ela, mas a culpa fazia com que quisesse contar toda a verdade.  De certa maneira estou. Voc est certo, quem est sentada aqui no sou eu. E no sei quem .
O rapaz fechou os olhos e respirou profundamente. Quando olhou novamente para ela, seu olhar estava firme.
- Desculpe  falou suavemente.  Eu s... Eu teria que ser de pedra pra no perceber que voc tem andado um pouco... distante ultimamente. Voc tem sido tima... voc tem me ajudado demais, mas... falando de sentimentos...  como se num minuto eu me sentisse prximo de voc, mas no outro voc tivesse se afastado completamente.
Charlotte apertou os lbios, controlando-se para no falar nada. Ela no queria mentir, mas tambm no estava certa se conseguiria falar alguma verdade.
O rosto de Jared ficou vermelho.
- Voc no se sente atrada por mim porque eu no posso...
- No  ela cortou enfaticamente.  No tem nada a ver com seu acidente.
Ele parecia acreditar nela, mas ainda parecia estar aflito.
- Ento, isso comeou antes, no ?
A intuio dele estava surpreendendo Charlotte. Assim como aquele comportamento. O estado emocional dela no era algo com que Jared costumava se preocupar antigamente. Ele no continuaria investigando para tentar descobrir o que se passava com ela.
Jared estava esperando que ela respondesse. Finalmente, Charlotte fez que sim com a cabea. Ela no poderia negar isso por muito mais tempo, no depois que Jared descobrira um modo de olhar diretamente em sua alma.
-   admitiu ela.  Antes do acidente de carro, meus sentimentos estavam... mudando. Um pouco.
Ele digeriu aquilo em silncio, seus dentes cerrados. Ela esperava que ele a atacasse violentamente, extravasando toda dor e raiva. Em vez disso, depois de um longo minuto, um fiapo de sorriso surgiu em seu rosto.
- Acho que no deveria ficar to surpreso  disse ele.  Eu era um idiota, n?
Ela mordeu o lbio, embaraada. Ela deveria falar sim ou no? As duas rerspostas eram inteiramente verdadeiras?
A expresso de Jared ficou sria novamente.
- Entramos numa rotina... eu achava que voc nunca deixaria de gostar de mim. Voc no tem que falar nada, Char. No pude ver isso antes,mas posso ver agora.
Um silncio tomou conta da sala novamente. Charlotte lutava com suas emoes, uma mistura confusa de surpresa, alivio, culpa e tristeza.
Estava quase tentada a dar uma gargalhada,mas sabia que, se fizesse isso, terminaria soluando. A ironia daquele momento era muito bvia para ela. No inicio das aulas, eu queria ter uma conversa como essa com o Jared, mas pensei que seria eu quem tomaria a iniciativa.
- Eu realmente sentia que voc no se importava muito comigo naquela poca  confirmou ela.  Mas no sinto assim agora.
- Ainda que eu esteja pressionando tanto voc pra fazer coisas pra mim?
- Talvez, mas  diferente. E, de qualquer modo, voc no est pressionando tanto assim. Voc  muito teimoso para receber muita ajuda de mim ou de qualquer outra pessoa.
A tenso entre os dois estava aumentando. Charlotte suspeitava que tudo aquilo chegaria num lugar que nenhum dos dois esperava chegar.
- Eu ia convidar voc pro baile do homecoming  Jared disse com a voz rouca.  Mas talvez seja melhor a gente no ir este ano. No quero que voc fique comigo por pena.
O rosto de Charlotte empalideceu.
- Voc est dizendo que quer terminar?
Jared balanou a cabea negativamente.
- Mas no quero segurar voc se est pronta pra seguir adiante. Sei que voc tem feito vrios sacrifcios por mim ultimamente. No vai ser bom pra nenhum de ns dois se voc no estiver nessa relao por sua vontade.
Esse desfecho inesperado deixou Charlotte atordoada. Jared estava lhe oferecendo uma sada. Parte dela queria aceitar esse convite. Ela vinha se sentindo muito culpada por fazer planos com Bill, mas se ela e Jared terminassem, ela poderia ver Bill na noite seguinte sem nenhum conflito interno.  isso o que eu quero, no ?  ela pensou.  Ser livre?
Os ps de Charlotte estavam cruzados firmemente debaixo do sof, seus joelhos mal encostavam as pernas machucadas de Jared. Conforme dava mais ateno  proximidade fsica entre eles, Charlotte sentia uma dor profunda no corao. O rompimento era inevitvel: se no acontecesse agora, aconteceria mais tarde, depois que Jared melhorasse. Ento, por que simplesmente no fao isso?, ela se perguntou.
Teve um mpeto de comear a falar, mas algo a deteve. O qu? Parecia cruelmente desleal abandonar Jared quando ele ainda tinha um longo caminho pela frente antes de ficar forte e capaz novamente? Ou era porque ela achava fcil estar ao lado dele, mesmo quando a situao era to esquisita? Ela conhecia muito bem quem estava  sua frente  aquela camisa de flanela e a cala bege amarrotada, os contornos de seu rosto lindo - , mais s que conhecia a si mesma. Depois de mais de dois anos juntos, o hbito tinha se tornado muito forte para ser quebrado? Ou eu estou com medo de ir atrs do que realmente quero?
- No  Charlotte disse em voz alta.
- No o qu?
- No, eu no quero seguir adiante  ela disse a Jared.  A questo no  essa.  que...  ela parou. Jared havia lhe dado uma chance de sair tranquilamente daquele relacionamento, e ela acabara de recusar. Estaria cometendo um grande erro?  No sei qual  a questo   confessou Charlotte - , mas estou presa nela, Jared. E estou presa a voc.
Na noite seguinte, enquanto Charlotte se vestia para seu encontro que no era encontro de verdade, com Bill Banerjee, no conseguia parar de pensar em Jared.
 Eu me sinto mesmo culpada por estar fazendo tudo isso para um outro cara, Charlotte reconheceu, escolhendo um suter e uma saia de pregas.  E por levar Jared a acreditar que estou saindo com um bando de pessoas em vez de com apenas uma. Mas isso no  tudo o que est me incomodando.
Ela ainda estava tomada pelas emoes que haviam sido reviradas pela intensa conversa que tivera com Jared na noite anterior. Os dois nunca haviam tido um papo to srio. Sempre tinham deixado o relacionamento ser levado pela mar. Agora, mesmo que o fato mais fundamental no tivesse mudado  eles ainda eram um casal - , Charlotte tinha a impresso de que tudo entre eles seria diferente.
Como, porm, as coisas ficariam exatamente? Ela no sabia. E estava de fato arrependida por no ter terminado com Jared? Essa era a questo que mais a preocupava. Ela no estava arrependida. Por qu?
Bill a pegou pontualmente, em seu carro azul usado. No caminho para a cidade, escutaram Louis Armstrong e discutiram se o jazz era ou no a grande criao artstica norte-americana.
 medida que o carro de Bill atravessava rapidamente a ponte sobre o rio Charles em direo a Boston, Charlotte sentia-se alegre. No vou pensar em Jared hoje a noite, decidiu, ou na prova de matemtica da semana que vem, nas inscries para as faculdades ou bal. Vou relaxar e me divertir.
Bill estacionou com seu carro no meio-fio.
- Ento, pra onde vamos?  perguntou Charlotte ao pisar na calada.
- Voc escolhe  replicou Bill.  Se formos para aquele lado  ele apontou para a esquerda -, tem uma rua muito legal, tipo uma pequena ndia, com um punhado de restaurantes indianos incrveis. E, se formos pra esse lado  ele agora apontava para direita -, tem uma lanchonete excelente. Cheeseburgers clssicos, batatas fritas e milk-shakes.
- Vamos tentar os restaurantes  falou Charlotte.  Mas acho que  bom avisar que nunca experimentei comida indiana.  ela sorriu envergonhada.
Ele cambaleou alguns passos para frente, pressionando a mo sobre seu corao, como se tivessem atirado nele.  Nunca experimentou comida indiana? Ento, voc tem perdido muito tempo de sua vida, Charlotte Kennedy.
Quinze minutos depois, estavam em uma mesa aconchegante de dois lugares prxima  janela, num pequeno restaurante que tinha uma loja na frente. Bill havia pedido a comida, falando em sua lngua nativa.
Um depois do outro, os pratos exticos, altamente temperados, chegaram  mesa, e Charlotte adorou todos eles: dal, uma sopa de lentilhas; rogan Josh, o prato favorito de Bill, feito com carne de carneiro temperada com curry; biriyani, arroz com passas e temperos; bharta, um prato com berinjela assada bem condimentada; e deliciosos pes indianos, nan e chapati.
No meio daquela comida, da msica de ctara tocando ao fundo e com Bill sentado  sua frente do outro lado da mesa, Charlotte se sentiu como uma pessoa completamente diferente.
- Eu estou feliz que a gente no tenha escolhido a lanchonete- disse Bill, tomando um gole de ch.  Existem mais coisas em Boston do que a gente imagina, no ?  divertido descobrir isso.
- Vamos andar um pouco depois do jantar  prometeu Bill.  Voe vai poder me dizer se acha que devemos voltar aqui com o grupo dos workshops sobre a diversidade.
O garom recolheu os pratos. Charlotte comeou a estudar o cardpio de sobremesas.
- O que voc acha?  ela perguntou a Bill, se arriscando naquelas palavras de pronncia difcil.  Gulabjamun ou patisapta?
Bill inclinou-se para frente, os cotovelos sobre a mesa
- Acho que ainda prefiro um sorvete  ele sussurrou, em tom conspiratrio.
Eles ainda estavam rindo quando deixaram o restaurante. O sorriso no saiu do rosto de Charlotte durante todo o tempo em que andaram pela cidade brilhantemente iluminada, conversando e brincando sem parar. Quando olhou o relgio no painel do carro de Bill, assim que ele chegou diante da casa dela, Charlotte ficou assustada de ver que j passava da meia-noite.
- Realmente me diverti muito hoje  noite  Bill falou, enquanto estacionava o carro.  obrigado por sair comigo.
- eu me diverti muito tambm  Charlotte disse sinceramente.
O motor parou. Eles se olharam no escuro, seus sorrisos ficaram repentinamente tmidos. E agora?, Charlotte se perguntou. Esse era o momento em que, se o primeiro encontro tivesse sido divertido e as fascas estivessem no ar, duas pessoas deveriam experimentar o primeiro beijo. E o encontro tinha sido divertido.
Na verdade, h um ms, se Charlotte tivesse tentando descrever o tipo de garoto que ela preferia estar namorando, estaria falando de Bill. Ele era bonito, inteligente, atencioso, engraado, aventureiro, culto  o tipo de cara com o qual ela poderia explorar novos horizontes. Ele representava uma parte da vida dela que era nova e excitante. E no outro dia, na reunio sobre a diversidade, ela tinha sentido um ntido arrepio quando ele lhe fitou com seus olhos escuros. Mas existiam fascas?, Charlotte se perguntou.
Se houvesse fascas, ela provavelmente estaria nos braos de Bill agora, percebeu Charlotte, sentindo a atrao dele por ela e percebendo que ele se segurava, esperando que ela fizesse o primeiro movimento.
S havia um meio de descobrir. Bill inclinou-se em direo a ela e Charlotte inclinou-se para ele. Ele segurou levemente os ombros dela e ela levantou o rosto. Os lbios deles se tocaram suavemente.
Charlotte sentiu algo, mas no eram fascas. Era mais como um... pnico.
Ela se afastou rapidamente, sorrindo com vergonha para Bill.
- Obrigada de novo  disse sem ar, enquanto abria a porta do carro com nervosismo.
- Vejo voc na escola, na segunda-feira!
Se Bill estava desapontado, era muito educado para demonstrar.
- Obrigado. Espero que a gente possa fazer isso novamente em breve.
- Claro  ela disse.
Charlotte se precipitou para fora do carro e correu at sua casa.
- Voc jogou essa oportunidade fora  murmurou para si mesma. Uma noite maravilhosa, um cara maravilhoso... Provavelmente teria sido um beijo maravilhoso tambm. Ah, bem. Pelo menos, parecia que ele queria v-la de novo.
Enquanto Charlotte subia silenciosamente as escadas para seu quarto, porm, deu-se conta de que, no final da noite, estava de volta ao ponto de partida: estava pensando em Jared.
Na quinta-feira depois da escola, Jared estava enfurnado na sala de estudo da biblioteca. A mesa estava completamente tomada por vrias pilhas de livros, alguns deles abertos em passagens importantes, outros com dzias de pedaos de papel marcando suas pginas. O caderno novo de espiral que comprara para a pesquisa para o concurso de ensaios sobre a histria norte-americana j estava cheio de anotaes.
O tema do concurso era o governo de Abraham Lincoln na poca da guerra ci vil. Jared estava imerso em discursos de Lincoln h mais de uma hora. Assim que terminou de reler o segundo discurso inaugural pela dcima vez, fechou o livro e exclamou:
- Uau!
Foi ento que Charlotte se materializou ao seu lado da mesa.
- Obrigada  ela sussurrou, com um sorriso malicioso.
Os olhos de Jared brilharam.
- Ei, como voc soube que eu estava aqui?
- Adivinhei  ela sentou em uma cadeira. Largando sua bolsa de livros no cho sob a mesa e cruzando as longas pernas.  Desde que voc se apaixonou por Lincoln, voc est sempre na biblioteca.
- Irnico, n?  Jared balanou a cabea, sorrindo.  Por todo esse tempo, eu devia ter um super cdf escondido dentro de mim. Talvez seja o que acontece quando voc tira o atleta do atleta-escolar; voc fica apenas com o escolar.
- O atleta no se foi para sempre  Charlotte o fitou seriamente.
- , bem, talvez no  concordou ele.  Vamos ver.
Ela bateu a mo sobre a capa de um livro empoeirado .
- Encontrou alguma coisa nova para falar do assunto?
- Na verdade, acho que sim  Jared inclinou o tronco para frente, com um lampejo de entusiasmo em seus olhos verdes.  Estou escrevendo sobre a relao de Lincoln com seus generais. Voc sabe, McClellan, Grant e os outros. E estou pensando que...  Fez uma pausa, rompendo com uma risada.  No vou chatear voc agora, mas pode ler o rascunho geral quando estiver pronto, se isso no for contra as regras do concurso?
- Claro.
Jared tampou a caneta e comeou a recolher seus papis seguindo certa ordem. Estava realmente to surpreso quanto Charlotte por se ver to envolvido pela pesquisa sobre Lincoln. No somente porque o assunto era interessante.   me dedicar a alguma coisa, Jared pensou. Usando todo o meu crebro, indo profundamente. Ele no costumava fazer aquilo com as coisas da escola. Sempre fizera apenas o que era necessrio para tirar boas notas, nem mais nem menos. Estava se dedicando ao concurso de ensaios do mesmo modo como costumava se dedicar ao futebol: com energia, paixo e concentrao.
Obviamente, continuava sentido falta do futebol. Sentia falta de todos os tipos de atividade fsica, e toda vez que pensava em sua situao uma esmagadora onda de frustrao se lanava sobre ele novamente. A dor emocional, s vezes, parecia muito grande para suportar.
O trabalho escolar, porm, havia dado a Jared um meio de canalizar sua energia. E, nas duas ltimas semanas, havia desenvolvido uma reflexo completamente nova acerca da vida acadmica. Recentemente, fizera provas excelentes na escola, e a senhora Parsons se impressionou com sua proposta de fazer um projeto de estudo independente sobre o impacto da legislao dos direitos civis na vida das pessoas com incapacidades.
Ele estava at mesmo gostando de escrever seus textos de solicitao de ingresso para as faculdades. Talvez porque tivesse comeado a ansiar pela universidade de modo diferente. Agora, estava excitado com as mudanas intelectuais e pessoais que a faculdade traria, e no com a oportunidade de participar de jogos universitrios.
Enquanto Charlotte carregava alguns livros para o carrinho de retorno da biblioteca, Jared colocava outros em sua mochila, Que em seguida ele prendeu no encosto da cadeira de rodas. Depois de vestir a jaqueta, colocou-se sobre a cadeira com facilidade. Havia chegado a um ponto em que, se tivesse algo slido para se apoiar, conseguia se levantar e dar alguns passos lentos. Patrick, seu fisioterapeuta, dissera no dia anterior que ele estava quase pronto para trocar a cadeira de rodas por um andador ou muletas especialmente projetadas.
Charlotte segurou a grande porta de vidro aberta para Jared, e saram juntos da biblioteca. Do lado de fora, ele estendeu o brao, apontando para o largo gramado verde, salpicado pela luz do sol de outono e pelas folhas cadas.
- Que tal jogar um pouco de frisbee?
Surpresa, Charlotte arqueou suas sobrancelhas loiras.
- Frisbee?
- Claro  ele se esticou para pegar um disco laranja fluorescente na mochila.  S no me faa correr para peg-lo, O.K.?
Rindo Charlotte largou a bolsa na calada e correu pela grama. Quando se virou para encar-lo, Jared lanou o frisbee.
Jogaram frisbee por cerca de vinte minutos, conversando sobre tudo que passava pela cabea deles: o texto de Charlotte sobre Shakespeare, o projeto de estudo independente de Jared, a fisioterapia dele, a festa que Paige estava planejando para depois do Homecoming. Jared sentia o calor do sol em seu rosto e o ar fresco daquela tarde entrando em seus pulmes. No conseguia se lembrar de alguma vez em que tivesse estado como humor to bom. No desde o incio de setembro, pensou. Antes.
Era engraada a maneira instantnea e definitiva como sua vida havia sido dividida em duas partes: antes e depois do acidente. De primeiro, diria que no havia uma nica coisa de sua vida depois que fosse melhor do que de sua vida antes.  bem difcil encontrar um ponto positivo quando se est confinado a uma cadeira de rodas, sem saber se um dia voc voltar andar.
Exatamente naquela semana, porm, Jared comeara a se sentir diferente em relao a si e a sua vida. Estava se sentindo melhor fisicamente, experimentando menos sintomas ps-traumticos  as dores de cabea, os enjos, a irritabilidade e a insnia que vinham lhe incomodando desde o acidente. Estava progredindo na fisioterapia e se sentia inspirado pelos novos objetivos da vida escolar. Outra coisa, contudo, tambm tinha ajudado talvez mais do que tudo.
Sua conversa na noite passada com Charlotte realmente havia lhe dado uma sacudida. Assustou-se com o modo como os dois estiveram perto de terminar, algo que ele nunca imaginara que pudesse acontecer. Antes do acidente no perdia tempo analisando o relacionamento deles. Era maluco por Charlotte, mas a considerava algo certo em sua vida, assim como o futebol americano. Por que falar em sentimentos o tempo todo? ele imaginava que a conhecia. Nunca havia pensado que conhecer outra pessoa era um processo contnuo.
Agora que tinha exposto suas inseguranas e admitido que no havia dado a devida ateno a Charlotte, sentia como se os dois tivessem em um novo territrio. Jared estava ansioso pra ficar com Charlotte de um modo que nunca imaginara desde que haviam se conhecido. Deu-se conta que, por muito tempo, havia gostado de Charlotte superficialmente. Gostava de olha-la e de estar ao lado dela, de abra-la em pblico, de beij-la quando ficavam a ss; adorava o fato de ela ser linda e de todo mundo tambm achar isso. Ele no esquecera que existia algo mais em Charlotte que sua aparncia mas...
Ele esticou o brao no ar e jogou o frisbee para ela, um lanamento longo que fez Charlotte correr
- J cansou? -brincou ele, enquanto ela tirava p cabelo do rosto antes de jogar o frisbee de volta
Ela abriu um grande sorriso
- No de voc.
Continuaram jogando sob o sol de outono. Seria impossvel para Jared ignorar o fato de que sua namorada era possivelmente a pessoa mais bonita da face da Terra, mas o calor que preenchia sua alma no irradiava nenhum tipo de orgulho de posso. Era o calor de um novo tipo de carinho e apreo. " como se eu estivesse aprendendo a andar novamente no amor tambm"pensou.
Jared concluiu que devia ser o cara mais sortudo da escola. Tinha o incrvel privilgio de sair com Charlotte, de conhec-la completamente mais uma vez.
-Jared, o que voc esta fazendo aqui? - perguntou Charlotte no dia seguinte aps a escola.
ele a havia interceptado do lado de fora do ginsio onde o workshop sobre conscincia da diversidade estava acontecendo
Jared desviou o olhar dela empurrando sua cadeira de rodas alguns centmetros pra frente, ento pra trs de novo.
-esse lance de diversidade -ele comeou, sua voz hesitante
"L vem" Charlotte pensou, segurando a porta do ginsio. Ele vinha agindo de uma forma to madura e compreensiva ultimamente, mas ela deveria saber que cedo ou tarde a verdadeira personalidade dele iria se reflorar
Ela esperava que ele fizesse um comentrio depreciativo sobre o workshop, ou ao menos tentasse persuadi-la de sair dali com ele pra comer uma pizza. Em vez disso, ele falou suavemente:
-S pensei que eu podia ver como  que  - disse ele, mal conseguindo olhar pra Charlotte - Talvez eu aprenda alguma coisa, ahn?
A voz de Jared no tinha o menor tom de sarcasmo, ele estava mesmo falando a verdade. Charlotte ficou momentaneamente chocada
-Talvez sim - ela concordou finalmente - , com certeza.Venha. Estou ajudando a coordenar as coisas hoje. Deve ter um monte de gente. vai ser divertido
- Sabe, me esqueci de perguntar se voc se divertiu no sabado a noite - observou jared, enquanto eles entravam no ginasio.
- Sbado a noite?
- Voc saiu com o pessoal do workshop sobre diversidade
- Ah, um - Charlotte pensou rpido. No queria mentir pra Jared.No era certo, especialmente depois do que aconteceu entre eles na noite de sexta- feira - Hum , eu fui.Fui pra Boston com, bem, vrias pessoas tiveram de desmarcar de ltima hora, ento acabou que, no final das contas s fomos eu e esse garoto, Bill. Voc vai conhec-lo hoje. Fomos a um restaurante indiano. Nada demais
Charlotte ficou se questionando se estava falando rpido demais. Ser que Jared podia pensar que a havia colocado em pnico ao aparecer inesperadamente no workshop?
- Comida indiana- Jared sorriu sem nenhum trao de suspeita - voc acha que um cara "carne-com-batata" como eu gostaria de algo assim?
- voc nunca vai saber se no experimentar - respondeu ela
De qualquer modo, Charlotte ficaria nervosa com o workshop naquele dia j que seria a "coordenadora" pela primeira vez. Com Jared ali, porm ela estava definitivamente a beira de um colapso.
Depois de alguns minutos, contudo,  medida que ela, Bill, Eduardo e Minh conversaram com o grupo sobre as atividades queriam fazer, sentiu-se mais relaxada. O programa sobre conscincia da diversidade era quase como a aula de bal: havia se tornado um lugar confortvel pra ela, um meio natural de se expressar. E Jared no a estava observando como um namorado possessivo. Ele realmente parecia estar l pra experimentar o workshop, no para vigi-la Ela, no entanto, o vigiou. Ele participou de todos os exerccios, at mesmo dos que eram mais fsicos e podiam ser inconvenientes para uma pessoa numa cadeira de rodas. Quando se dividiram em grupos menores para discusso, ela assegurou q ele tivesse com um lder diferente, percebendo muito tardiamente que Jared havia cado no grupo de Bill
O pnico voltou a tomar conta do seu corao. "relaxe". Charlotte pensou, ao se sentar no cho junto com seu prprio grupo. "eles no vo conversar sobre voc, pelo amor de Deus!"
Ela se sentiu aliviada quando o workshop terminou, no entanto avistou Jared parando para conversar com um garoto que conhecia do beisebol, enquanto Bill papeava com Minh
Ento, tanto Jared quanto Bill comearam a vir em sua direo, um sem notar o outro. Com corao apertado, ela percebeu que uma coliso seria inevitvel.
- ol garotos - disse ela, fingindo que aquele triangulo no era terrivelmente estranho - Bill, voc conheceu Jared?
- , acabamos de nos apresentar - respondeu Bill - Legal que voc veio - disse ele pra Jared - Gostei muito de seus comentrio durante a discusso
- Foi interessante- falou Jared
Charlotte comeou a transferir o peso de seu corpo de um p para o outro, tomada por uma ansiedade inimaginvel
- Ento
- Ento Char - Jared falou indicando a porta- o que voc acha de uma pizza?
- Pizza, ahn? - ela repetiu. Naquele exato momento, Charlotte recordou que ela e Bill tinham planos pra depois da reunio - Na verdade, hum, eu e Bill estvamos combinando de dar uma passada num sebo em Cambridge, hoje.
- Ah - disse Jared. Ele olhou pra Bill, que olhou pra Charlotte.Charlotte olhou para o cho.
Bill quebrou o silncio incmodo.
- Por que voc no vem com a gente? - ele convidou Jared de modo amigvel e casual.
Jared voltou os olhos para Charlotte. Ela abriu um enorme sorriso artificial, ainda que no pudesse pensar em nada pior que uma ida at Cambridge com Jared e Bill.
- , por que no vem? - perguntou ela
Jared hesitou por apenas um segundo
- Muito obrigado, gente, mas acho que vou at a biblioteca tentar acabar minha pesquisa sobre Lincoln. Vejo voc amanh, Char
-Claro - ela se inclinou para dar um beijo rpido em sua bochecha - Tchau
Depois que Jared foi embora. Charlotte e boll andaram at o estacionamento dos alunos
- Vocs ainda se do muito bem - observou Bill
- , nos damos
- Sabe, ele  bem diferente do que imaginei
- Mesmo?
Ele foi legal na discusso
- Como assim? - perguntou Charlotte curiosa
- Ele permaneceu calado a maior parte do tempo, atento ao que as outras pessoas falavam - explicou Bill - Mas quando comeou a falar tinha umas coisas muito importantes para dividir com os outros. Sobre como suas idias mudaram desde que ficou temporariamente deficiente, esse tipo de coisa
- Humm- murmurou Charlotte
Bill riu, se lamentando
- Talvez eu devesse entregar meu crach de liderana da conscincia sobre diversidade. Isto , eu tenho que admitir... eu tinha uma idia completamente estereotipada e predeterminada de como Jared seria: Mister Amrica, o arrogante, superatleta de cabea pequena. Estava totalmente enganada "e eu costumava me sentir presa nessa relao porque eu estava mudando e ele no" Charlotte refletiu enquanto entrava no carro de Bill e apertava seu cinto de segurana
Bill tinha acertado na mosca "estava completamente enganada"
O penltimo jogo da temporada para o time de futebol americano da Parker foi num sbado, na escola Riverside. Charlotte, Jared, Maddie, Walker, Bev, Samantha, Bob, Paige e Matt se dividiram em vrios carros. Era o dia da festa de Homecoming na escola Riverside, e haveria uma parada no intervalo do jogo, com bales, banda e o desfile da rainha do homecoming e de sua corte
- Vai ser como um aquecimento para o nosso homecoming no prximo fim de semana - anunciava Bev - Vou trazer a caminhonete da minha me e um monte de comida. Vai ser muito divertido!
Em um dos carros iam apenas Charlotte e Jared. Durante toda a manh ela ficou pensando se o rapaz faria algum comentrio sobre sua participao no workshop. Ser que ele havia percebido seu interesse pelo garoto? ser que ele iria brigar por ela ter ido a Cambridge com Bill??
Jared terminou com aquele suspense rapidamente.
- Comprou algum livro interessante ontem?  ele perguntou casualmente depois de sintonizar a estao de rdio.
- Achei uma edio de capa dura daquele livro sobre a histria do bal que eu estava procurando. Pensei em voc, porque tinham vrias coisas sobre a guerra civil e Lincoln,mas eu no tinha certeza se...  a voz dela desapareceu. No queria falar demais e parecer ansiosa.
- Estou quase terminando o meu texto  disse Jared.
Charlotte sentiu que ele estudava seu perfil e torceu para no ficar vermelha.
- Ah, Char  continuou ele.  Voc me contaria, no ? Quer dizer, se existisse alguma coisa que eu devesse saber...
Charlotte sabia que Jared estava falando de Bill e pedindo para que fosse honesta.
Charlotte e Bill ainda eram apenas amigos, embora na tarde anterior ele a tivesse convidado para o baile do Homecoming. Ela dissera que iria com Jared, em considerao aos velhos tempos.
- Sim  respondeu a Jared.  Eu contaria a voc.
As arquibancadas estavam lotadas, apesar do frio e da chuva. Durante a primeira metade do jogo, Charlotte e Jared permaneceram na primeira fileira das arquibancadas, abraados debaixo de um cobertor de l, que levaram especialmente para proteg-los do frio. Durante o intervalo, bateram em retirada, junto com os outros, para a caminhonete de Bev.
- timo jogo, ahn?  disse Maddie, que, mesmo vestindo luvas, esfregava as mos para se esquentar.
O jogo estava empatado, catorze a catorze.
- , mas est muito frio  disse Walker, levantando os ombros para manter suas orelhas aquecidas pela gola da jaqueta.
O pessoal se reuniu ao redor da parte traseira da caminhonete, que estava abaixada para acomodar um prato de sanduches, potes de cookies, uma grande garrafa trmica de chocolate quente e sacos de fritas. Charlotte e Jared estavam sentados ao lado do carro. A cadeira dobrvel dela colada  cadeira de rodas dele, e um cobertor gigante cobria as pernas dos dois.
- Devamos ficar felizes por no sermos aquelas meninas da torcida organizada, que precisam ficar ali no frio com aquelas roupas minscula  comentou Charlotte.
- Pelo menos elas no param de pular  observou Matt.  O sangue circula.
- Com certeza  brincou Bob, com um sorriso malicioso.
Todos os garotos, incluindo Jared, esticaram o pescoo para o campo, a fim de checar a performance das torcedoras durante o intervalo.
Paige fez uma cara de reprovao para Bob.
- Posso segurar seus olhos para voc, querido?  ela ofereceu com sarcasmo.  eles esto prestes a saltar do seu rosto.
Bob Deu uma gargalhada.
-Ah, vai Paige. Eu s estou dando uma olhada
- existem olhadas e olhadas - disse Paige - Voc acha que eu posso dizer a diferena?
- est bem, ento eu estava olhando OLHANDO - admitiu Bob - Mas  para isso que essas meninas participam de torcida organizada no ? - perguntou ele, virando-se para outros garotos - Dem uma fora caras!
-  - concordou Matt
Jared balanou a cabea afirmativamente
- Eu sempre olhei olhei - confessou ele
- Voc s pode estar brincando - exclamou Charlotte indignada - Voc acha que  s por isso que aquelas meninas ficam l, pros caras poderem ficar babando por elas?
- Por que mais elas vestiriam aquelas sainhas curtas e malhas justas? - argumentou Walker escolhendo um sanduche- Admita isso, senhorita Kennedy, as torcedoras so simplesmente objetos sexuais. Voc no vai conseguir me convencer de que defende esse papo furado de que torcidas organizadas tambm so um esporte.
- O Walker est certo Char - disse Maddie - Eu e voc sempre comentamos sobre como essas meninas de torcida so resqucios(tava difcil ler essa palavra, mas acho q  ela mesmo) da Idade da pedra.
- Eu sei mas... - Charlotte franziu o rosto enquanto procurava um caminho para algum argumento coerente. - Kelly e as outras garotas trabalham duro de verdade.Elas levam a srio aquilo q fazem. Reduzi-las a objetos sexuais  um insulto. um insulto para todas as garotas - concluiu
- Se  to insultante como voc explica o fato de que a cada ano uma centena de meninas faz teste para torcida? desafiou Jared, com um brilho nos olhos. - voc esta dizendo que so todas umas cabea-de-vento que no sabem como ter respeito prprio??
- No estou dizendo isso - Charlotte retrucou- S acho q as torcidas reforam esteretipos da mulher como objeto, e talvez seja por isso que , ainda que diversas garotas as procurem por causa do "glamour" e da popularidade, elas devem ser abolidas
Charlotte no pretendia chegar to longe com a discusso, mas foi para esse rumo que sua lgica levara
Jared franziu a sobrancelha
- uma proposta interessante - afirmou - O.K., vamos votar. Quem acha que as torcidas organizadas devem ser abolidas da escola Parker?
O pessoal gastou o resto do intervalo discutindo aquele assunto e rindo, sem chegar a nenhuma concluso. Charlotte e Jared permaneceram em lados opostos do debate, mas, por alguma razo, aquilo s havia tornado tudo mais divertido.
"No costumava ser assim. Charlotte pensou em algum momento da discusso, maravilhada. Antigamente, Jared teria insistido que ela concordasse com ele : no desistiria do assunto enquanto ela no enxergasse a partir do ponto de vista dele. Por causa disso, freqentemente ela preferia no expor suas prprias opinies.
Agora, entretanto, quando ela falou o que realmente pensava, Jared escutou. No concordou com ela, mas conseguiram brincar com suas diferenas. Havia uma verdadeira comunicao entre eles, equilibrada e relaxada.
E no era apenas a comunicao. Existia algo um pouco mais fsico.
O intervalo estava quase acabando e Bev e os outros comearam a guardar o lanche. Charlotte e Jared colocaram o cobertor sobre suas cabeas para se protegerem contra o vento, e permaneceram bem juntinhos
- Eu s sou a favor das torcidas organizadas porque sempre tive uma fantasia secreta de ver voc numa daquelas saias - sussurrou Jared
Ela soltou uma gargalhada
- eu gostaria de ver VOCE em uma daquelas saias .
- Voc sabe q eu s estou brincando- ele virou a cabea dando um beijo na bochecha dela - fico feliz que voc no seja torcedora
os lbios dele desceram ate aquele ponto sensvel logo abaixo da orelha, permanecendo ali por um breve mas delicioso momento. totalmente entregue, Charlotte tremeu
Ela permaneceu silenciosa enquanto voltavam para as arquibancadas. Se havia algo que, por um longo tempo, vinha faltando em seu relacionamento com Jared era uma certa "qumica". Eles estavam realmente se dando melhor,e ela se percebeu gostando dele de um modo completamente novo. At passara a desejar que eles firmassem uma amizade forte o suficiente pra sobreviver ao rompimento que ela ainda dava como certo
Mas atrao??? Isso era uma coisa do passado.Por parte dela pelo menos. Ser?
Na noite seguinte, Charlotte sentou-se perto da janela em seu quarto admirando o grande circulo branco da lua cheia. O prximo dia seria outra segunda feira e aparentemente no existia nada de especial na semana que estava por vir. Ela seguiria sua rotina normal de escola, bal, sadas com amigos e encontros extracurriculares ocasionais
seria a mesma coisa de sempre... mas como poderia ser igual, depois daquele fim de semana?
O recital daquela tarde no Conservatrio de Dana New England havia transcorrido bem, Charlotte tinha danado perfeitamente. Ela sentia como se tivesse alcanado um novos estgios, na sutileza e intuio de sua interpretao. Sua mente e seu corpo tinham se conectado com a msica de um modo que ela nunca experimentara antes.Depois da apresentao , madame Laurent, que normalmente no era muito de elogios, ficara verdadeiramente exaltada. E outra pessoa tambm se impressionara: Jared
Ela nem esperava que ele aparecesse no recital. Assim, quando o avistara na platia, sentado perto dos pais dela, quase cara do palco. Sucumbira instantaneamente a um ataque de nervos, seus movimentos ficaram tensos e tmidos. Ento, apagou Jared de sua mente, forando-se a focar na dana. Daquele ponto em diante, danou, saltou e deu piruetas em perfeito controle
Logo depois, Jared estavam explodindo de orgulho e admirao.
= Eu no tinha idia de como voc era boa, Char - ele disse no jantar junto dos pais dela- voc  mais que boa. Voc  incrvel!
Quando haviam comeado a conversar sobre audio de Charlotte para a Suny Purchase, que aconteceria em breve, Jared se ofereceu para ir de carro para Nova York com ela
- Para das apoio moral - dissera ele, apoiando a mo sobre a mesa
A noite estava fria e clara enquanto Charlotte olhava pela janela de seu quarto, fragmentos de nuvens sopradas pelo vento passavam diante da lua. Jared compareceu ao recital, ela danou super bem (por causa dele?), eles estavam se relacionando de um modo completamente diferente, como no jogo de futebol anterior
No incio do ano escolar ela estivera disposta terminar com Jared porque, depois de namorar por dois anos ele ainda no conhecia a verdadeira Charlotte Kennedy. E imaginava que ele nunca viria a conhecer
Agora, Charlotte percebia que tambm no conhecia o verdadeira Jared Colburn. O Jared que estava se aproximando dela de uma modo completamente novo e excitante - se aproximava de seus sentimentos e seus sonhos.
- Eu pensava que, a essa altura, j estaria fora da cadeira de rodas  falou Jared, esforando-se para no gaguejar.  Voc disse que em novembro eu estaria pronto para usar o andador.
- Definimos objetivos  replicou Patrick, o fisioterapeuta, com uma voz tranqila.  Ento trabalhamos voltados para isso. Voc est muito bem, Jared; seu progresso est sendo fenomenal. Mas objetivos so apenas objetivos. Cada dia  um novo comeo. Voc tem que trabalhar a partir de onde est agora  ele apertou com fora o ombro de Jared, sorrindo.  E lembre-se de que estamos apenas na primeira semana de novembro. Voc ainda tem trs semanas.
Jared, que estava de p numa espcie de esteira com ferros para sustentar suas pernas e quadris, afastou a mo de Patrick com um movimento brusco. Ele no estava com humor para ouvir aquela conversa sem sentido, muito menos aquele discurso de dar um passo pra frente e dois pra trs. Ele estava querendo andar.
- S quero dar alguns passos  murmurou por entre os dentes cerrados, tentando balanar sua perna sem os ferros de suporte, - Apenas um ou dois malditos passos.
- Voc vai chegar l  prometeu Patrick.  Respire fundo, agora vamos mudar de equipamento e trabalhar um pouco os msculos das costas.
Jared fechou os olhos e respirou profundamente. Apesar do esforo para se acalmar, por trs de suas plpebras ele ainda estava tomado pela raiva. Imagens desconexas comearam a passar por sua mente, imagens que perfuravam seu corpo como agulhas. Jogadores de futebol americano correndo por um campo; meninas de uma torcida organizada fazendo acrobacias; Charlotte dando piruetas, com seu corpo exalando graa e fora. Todos se moviam com tanta facilidade, enquanto ele era uma esttua congelada que precisava reaprender tudo, como se fosse um recm-nascido. Precisava reaprender como dobrar os joelhos e mexer os dedos dos ps.
Ele abriu os olhos. As imagens desapareceram, mas pontos vermelhos continuavam a atravessar seu campo de viso, enfurecendo-o.
Charlotte, futebol, bal, o baile de Homecoming desta semana, Jared pensou com tristeza. Quando tentou imaginar como seria o baile. Viu Charlotte danando novamente. Mas no com ele... com Bill Banerjee.
- Eu s quero dar alguns passos  Jared disse novamente, desesperado.
Os momentos seguintes se passaram rapidamente, como um borro. De algum modo ele havia se livrado dos suportes da esteira. Patrick tentou ajud-lo, mas Jared arremessou seu corpo para longe do fisioterapeuta. Por um instante, permaneceu sem nenhum apoio... no foi? Deu um passo sem ajuda alguma... no deu?
Mas ento se desequilibrou, sendo tragado por dor e escurido.
- Ele no apareceu no apareceu na escola  semana inteira  Charlotte disse a Maddie na sexta  tarde, enquanto elas dividiam uma poro de anis de cebola frita no Judys.  A senhora Colburn me contou que ele no foi  fisioterapia tambm.
- Ele est doente?  perguntou Maddie.
- Jared disse que no est se sentindo bem, mas, de acordo com a me, ele est bem  replicou Charlotte.   alguma outra coisa.
- Depresso?  arriscou Maddie.
- Talvez. No sei  Charlotte franziu a testa, assumindo uma expresso de preocupao.  Ele est me evitando. Quando ligo, s fala comigo por um ou dois minutos, e no deixa que eu v visit-lo.
Depois que terminaram os anis de cebola e pagaram a conta, desceram a rua em direo a uma loja para que Maddie comprasse um par de meias finas que combinassem com seu vestido para o Homecoming.
- E o que  que vai acontecer amanh?  perguntou Maddie.  Voc dois estavam planejando ir juntos ao jogo e ao baile, no ?
- Estvamos, quer dizer, estamos- disse Charlotte. De algum modo, ela se alegrou, lembrando como ela e Jared estavam ligados no jogo do ltimo fim de semana.  Talvez ele s esteja precisando de um descanso  concluiu.  Quando sair de casa amanh, vai e animar. E, alm do mais,  Homecoming!
Meia hora depois, ela entrava em casa no exato momento em que o telefone comeava a tocar.
- Oi!  Charlotte falou empolgada.  Maddie e eu estvamos justamente falando de voc.
- Ah, ?  disse ele, a voz sem nenhuma expresso.
- , estvamos ficando super ansiosas para o Homecoming. Walker alugou uma limusine; eu e voc podemos ir com eles para a festa. No vai ser divertido?
Houve uma longa pausa.
- Jared?- indagou Charlotte.
- eu ainda estou aqui  ele fez outra pausa.   por isso que estou ligando. Homecoming. Eu no posso... Eu no vou ao baile, Charlotte. Sei que est em cima da hora, mas... Desculpe-me.
Um n apertou o estmago de Charlotte.
- Voc ainda est mal?
Mais uma longa pausa.
-   ele finalmente murmurou.
- Jared, qual o problema?  perguntou Charlotte.
- Eu s no estou me sentindo muito bem  ele respondeu bruscamente.  De qualquer maneira, voc vai se divertir mais sem mim;
- Isso no  verdade e voc sabe disso  disse ela.  Jared, se voc acha que no quero ir ao baile com voc porque...
- Olha, eu tenho que desligar  ele a cortou.  vejo voc na semana que vem.
- Voc vai  escola?
- talvez.
- Jared, gostaria que pelo menos voc me dissesse o que est...
De repente, o barulho do telefone desligado comeou a zunir em seu ouvido.
Charlotte desligou e caminhou para a pia, a boca franzida de preocupao.
Ela ficou tentada a ligar para Jared e exigir que ele explicasse porque estava se escondendo em casa. Mas as chances eram de que ele fosse novamente evasivo com ela, ou talvez nem mesmo atendesse.
O que aconteceu?, ela se perguntou, lgrimas escorrendo em seu rosto.

Naquela tarde de sbado, enquanto Jared permanecia afundado no sof da sala assistindo desanimado a um filme dos Trs Patetas na TV a cabo, concluiu que aquele seria o dia mais longo de sua vida. Os ponteiros do relgio se moviam com uma lentido alm do normal e, por mais que aumentasse o volume da televiso, ainda conseguia escutar o tique-taque. Ou talvez aquele fosse o som de um outro relgio, dentro de sua cabea. P relgio do jogo de futebol do Homecoming.
Provavelmente ainda est na metade do segundo tempo, Jared especulou mal-humorado, a uma e meia da tarde. Depois, s duas e quinze, intervalo. s cinco horas, conforma o fim da tarde escurecia a casa silenciosa, uma sensao de vazio tomou conta de seu corpo aptico. A essa altura, o jogo j havia terminado.
Naquele exato momento, enquanto Jared permanecia imvel no sof, centenas de estudantes desordeiros da escola Parker estariam provavelmente atravessando o campo para comemorar a vitria sobre a escola Hawthorne. E eu perdi isso, Jared pensou. Terceiro ano, e eu perdi toda a maldita temporada.
O fim da tarde passou ainda mais devagar. Jimmy retornara do jogo, mas Jared dissera a ele que queria ficar sozinho. E ele sabia que seus pais s chegariam em casa bem tarde  estavam visitando uns amigos numa cidade vizinha. Mas era melhor assim. Jared no queria conversar com ningum mesmo.
Enquanto esquentava uma pizza congelada no microondas, Jared no podia deixar de imaginar seus amigos se preparando para o baile, os garotos em smokings alugados, tocando as campainhas das casas de seus pares, carregando pequenos buqus de flores para as meninas. Charlotte iria ao baile sozinha? Ou ser que ela havia encontrado um par reserva, talvez aquele tal de Bill, que claramente tinha interesse nela?
Seis horas, sete, oito. Jared se cansava da TV e tentou ler, ento se cansou disso e tentou o videogame. Pensou em ir para cama, mas sabia que no conseguiria dormir.
Est acabado, pensou entediado enquanto permanecia sentado na mesa da cozinha, observando o queijo da pizza  que no comera  endurecer. Acabado, acabado.
O Homecoming havia acabado, a temporada de futebol americano estava acabada, sua vida estava acabada. Ela nunca andaria de novo, nunca seria a pessoa que queria ser. Porque se preocupar em voltar  escola na segunda ou retornar  fisioterapia? Por mais que ele se esforasse, nunca sairia da cadeira de rodas. Para que enviar inscries para universidades, e entrar em concursos de ensaios de histria? Quem se importava se ele se formaria ou no?
E por que importunar Charlotte, ligando para ela? Jared decidiu, ignorando a dor do seu corao: Por que no deixar isso morrer tambm?.
 realmente uma pena que Jared no esteja aqui  Bev gritou no ouvido de Charlotte durante o baile.  Nosso ltimo Homecoming. No  a mesma coisa sem ele.
Charlotte assentiu com a cabea, sem falar nada. Sua garganta estava irritada de ficar periodicamente engolindo bocados de lgrimas no derramadas.
Ela tinha ficado tentada a no ir ao baile tambm, mas Maddie e o resto da turma no deixariam que fizesse isso. Jantar antes do Park Point Inn tinha sido bem divertido e, de certa maneira, ela estava feliz de ter usado o vestido curto de veludo que havia comprado numa loja da moda em Boston. E tambm no havia sobrado no baile: danara com Jeff, Bob, Matt e Walker e rira muito com as meninas. At tinha danado duas vezes com Bill. Ele foi acompanhado, mas disse a Charlotte, muito discretamente que Minh era apenas uma amiga e que preferia estar com Charlotte. E a convidara  e ela aceitara!  para um brunch no dia seguinte.
Nada disso, porm, importava: a msica excelente, a animao dos amigos, seu lindo vestido, a ateno de Bill. Uma pedra fria levava Charlotte para baixo, fazendo com que seus braos, pernas e corao se sentissem inacreditavelmente pesados.
s onze horas, sem saber como aquilo acontecera, viu-se indo para a festa de Vince D Agostino com Bill e Minh. Ela queria se divertir na festa, queria mesmo. Mas depois de apenas quarenta e cinco minutos, entrou na biblioteca do pai de Vince para chamar um txi. Simplesmente no podia ficar fingindo. No estava em clima de festa.
Despediu-se rapidamente de Bill, murmurando algo sobre uma dor de cabea, e saiu para esperar o txi. Enquanto permaneceu tremendo de frio, com sua jaqueta fina que no aquecia nada, Charlotte comeou a se arrepender de sua sada apressada. Talvez eu devesse voltar, pensou, apertando a boca para no bater os dentes de frio. Eu realmente quero ficar sozinha hoje  noite?
Naquele momento, deu-se conta de algo. No queria ficar sozinha, mas tambm no queria ficar com Bill, Minh, Vince e nenhum dos outros.
Queria ficar com Jared.
Quando o txi chegou, Charlotte pulou no banco traseiro. Antes que tivesse tempo de mudar de idia, falou o endereo de Jared.
- 1210, Alameda Bayberry  indicou ao motorista.
Seu corao estava disparado quando o taxi parou diante da casa dos Colburn. Agora que estava quase na frente de Jared, comeou a entra em pnico. O que vou falar a ele?, pensou, enquanto pagava ao motorista. Esperava que os pais de Jared no estivessem em casa. Eles no apreciariam aquela visita  meia-noite. E se Jared nem quisesse v-la?
Charlotte tocou a companhia e esperou, os braos fortemente cruzados na frente do peito em uma intil tentativa de controlar o tremor. Um minuto se passou. Ela tocou novamente a companhia, escutando o eco ao longe. Ningum apareceu.
Ela se virou, observando a vaga de carros vazia. Ento olhou novamente a porta.
- Eu sei que voc est a, Jared Colburn  murmurou ela, colocando a mo na maaneta da porta.
Para a sua surpresa, a maaneta virou. Cuidadosamente, Charlotte abriu a porta.
- Jared?  ela chamou no corredor, que estava escuro e silencioso.
Apenas silncio.
Ento, um som veio da sala.
- Char,  voc?
Charlotte atravessou o corredor, seus sapatos de salto alto batendo contra o piso duro, fazendo estardalhao.
Jared estava deitado no sof. Ele sentou-se quando ela chegou, e um livro escorregou de seu colo para o cho.
- O que voc est fazendo aqui?  ele perguntou.  Por que no est no baile?
- Eu precisava ver voc  ela respondeu, colocando a jaqueta sobre uma cadeira.
Jared esticou as mos.
- Bem, aqui estou eu, em toda minha glria  disse secamente.
Repentinamente. Charlotte adivinhou o que vinha acontecendo com Jared durante aquela semana. Podia dizer pelo olhar de desamparo em seu rosto e pelo tom de sua voz.
O corao dela se encheu de compaixo, misturada com um sentimento de raiva. Deixando a compaixo um pouco de lado extravasou a raiva, sabendo que era o nico modo de atingi-lo, o nico modo de ajud-lo.
- Sentindo pena de si mesmo, ahn?  perguntou.
Os olhos de Jared se apertaram.
- E se estiver?
- Alguma coisa deu errado na fisioterapia da segunda  tarde, n?
- Vamos dizer que eu percebi que j perdi tempo demais. Porcaria de fisioterapia.  s pra manter as pessoas em cadeira de rodas to ocupadas que elas no conseguem pensar o quanto so inteis.
O tom da voz de Jared era amargo, mas Charlotte escutava uma outra voz, gritando por socorro.
- Jared, voc precisa voltar pra escola  ela falou.  Tem que dar outra chance para a fisioterapia.
- Por que voc se importa?  disparou ele.  No  sua vida. No so suas pernas que no funcionam.
- No estou falando de suas pernas  gritou Charlotte.  No  com seu corpo que voc est acabando, Jared Colburn, porque, ainda que voc tenha sido um grande atleta, voc  muito mais do que apenas um corpo.  seu esprito  nesse momento, os olhos dele se encheram de lgrimas.   com ele que me preocupo.
A paixo com que ela falara tudo aquilo desarmou a ambos. Jared a fitava, aterrorizado. A mscara do cara duro havia cado.
- s vezes fico to assustado, Char  confessou.  Nunca tive que me esforar tanto por uma coisa assim antes. E se no conseguir? E se ficar paraltico pro resto da vida?
-  exatamente isso.  isso que estou falando  ela se ajoelhou ao lado do sof e agarrou as mos dele.  Acontea o que acontecer, Jared, mesmo que voc no recupere todos os movimentos das pernas, voc no tem que se enxergar como um doente.
Voc no precisa abandonar seus sonhos!
Charlotte sentou-se no sof ao lado de Jared, e subitamente o abraou. Os dois choravam.
- Quero acreditar nisso  Jared sussurrou com a voz rouca.
- Ento acredite  falou Charlotte. Segurando-o com fora.   a nica maneira de tornar realidade.
-  muito cedo pra j est acordado  declarou Bill, depois que a hostess os fez sentar a uma mesa do The Cove, um restaurante, perto do mar, famoso por seu brunch de domingo.
-  meio-dia  observou Charlotte com um sorriso.  Acho que voc ficou at tarde na festa.
- Ficou muito divertido na casa do Vince. Voc realmente deveria ter ficado mais um pouco.
Em vez de fazer algum comentrio, Charlotte abriu o cardpio.
- Hum, esses waffles devem ser uma delicia.
Bill inclinou-se para frente, os braos cruzados sobre seu cardpio, que ainda permanecia fechado.
- Jared devia estar se sentindo muito mal para no ir ao baile  comentou.
-   disse Charlotte, mantendo os olhos grudados no cardpio.  Ou ser que estou com vontade de comer ovos mexidos?
Com o canto do olho, pde ver Bill pegando o prprio cardpio, abrindo-o e fechando-o em seguida. Ento, levantou o copo de gua e agitou-o levemente para chacoalhar as pedras de gelo.
- Sabe, Minh e eu samos juntos agora, mas  totalmente platnico.
Charlotte assentiu com a cabea.
- Foi a impresso que eu tive.
- Charlotte, eu gostaria... eu queria...  Bill comeou a falar e surpreendeu Charlotte ao esticar o brao abruptamente ao longo da mesa para segurar a mo dela.  Eu queria que voc tivesse ficado na festa ontem  noite. Minh foi cedo pra casa, e j que Jared tambm no estava por perto, talvez...  ele no terminou a frase, mas era bvio para onde o pensamento dele seguia: Talvez algo tivesse acontecido entra a gente.
- bem, ahn...  murmurou Charlotte, suas bochechas ficando levemente rosadas.
- O que voc acha de, no sbado que vem, irmos pra cidade fazer alguma coisa?  sugeriu Bill.
Ele ainda estava segurando as mos dela. Quando Charlotte baixou a cabea para olhar os dedos deles cruzados, percebeu que havia algo de errado naquela imagem. Por vrias semanas, seus velhos sentimentos por Jared e seus novos sentimentos por Bill haviam sido completamente confusos. Naquela manh, no entanto, a situao tinha repentinamente se tornado mais clara. Ela gostava muito de Bill. Ele era interessante e engraado, e extremamente atraente. Mas no  ele que eu quero, percebeu.
Ela apertou a mo dele, ento se desvencilhou.
- Bill, acho melhor no. Quer dizer, sair no sbado.
Ele no entendeu muito bem, os olhos escuros ainda estavam cheios de esperana.
- Que tal na sexta, ento?
Charlotte balanou a cabea.
- O que eu quero dizer e...  ela abaixou novamente os olhos, sem querer ver o desapontamento no rosto dele.  no acho que a gente deva sair juntos de novo.
- Ah  ele falou. Charlotte no precisava ver o desapontamento, ela podia escutar.  no percebi. Acho que eu esperava que... bem  Bill gargalhou estranhamente.  A gente ainda no pediu. Se voc no quiser ficar pro brunch, tenho certeza de que a gente pode sair de fininho daqui sem ficarmos embaraados.
Charlotte olhou para ele, com uma expresso de quem pede desculpas.
- Sei que andei enviando sinais truncados. Desculpe. Mas no quero ir embora. Gosto muito de voc.
O sorriso dele pareceu forado.
- Mas no o suficiente.
- Fico lisonjeada de saber que voc est interessado em mim, e se no estivesse comprometida agarraria essa chance de me envolver com voc  disse Charlotte.  Mas estou comprometida. Sei que fiz voc acreditar que estava tudo acabado entre mim e Jared... era o que eu pensava. Mas descobri que no.
- Entendo. Bem, que legal. Pro Jared, pelo menos.
- Ainda podemos ser amigos?  perguntou ela.  isso significa muito para mim.
- Claro  Bill sorriu novamente, mais espontaneamente.  Ei, nunca fomos realmente nada alm de amigos.
Charlotte sorriu.
O brunch acabou sendo divertido, agora que Charlotte havia esclarecido a situao entre eles. Mais tarde, Bill perguntou a Charlotte se ela queria ir com ele a uma loja de discos para dar uma olhada em CDs de jazz.
- No, mas obrigada  falou ela.  Acho que vou ficar um pouco por aqui, talvez dar um passeio pela praia.
Bill deu-lhe um beijo de despedida no rosto.
- A gente se v, Charlotte.
- Com certeza  prometeu ela.
Depois que o carro de Bill partiu, Charlotte desceu as escadas de madeira que saam do restaurante para a praia deserta. O ar de novembro estava frio, mas o sol forte da tarde esquentava seu rosto e pescoo.
Ao final da escada, parou, se apoiando contra a cerca castigada pelo tempo. O verde do vero desaparecer h muito tempo. A grama das dunas estava amarela, as flores silvestres secas como palha. Mas o mar estava mais azul do que nunca, Omo se estivesse compensado o desaparecimento das cores em todo o resto da paisagem.
Charlotte respirou profundamente o ar frio e limpo do oceano. Ainda estava um pouco surpresa com o que acontecera no restaurante. "Eu basicamente dispensei o Bill" pensou. No entanto, no estava arrependida. Tinha contado a verdade a Bill, a Verdade que havia acabado de ficar clara pra ela. Por muito tempo , Charlotte havia pensado que ela e jared tinham um relacionamento apenas de nome. Agora, de repente, a ligao entre os dois estava de volta, e mais forte do que nunca.
"ou talvez no tenha sido to de repente" refletiu Charlotte. Tinha apenas tomado conta dela aos poucos - essa renovao de carinho e atrao. Ainda era presente o sentimento que havia tomado conta dela na noite anterior. Era paixo, pura e simples, mas paixo com uma dimenso emocional e fsica que ela nunca imaginara que sentiria por Jared.
Charlotte fitou o Atlntica, se dando conta que o potencial do relacionamento deles agora parecia to limitado quanto o oceano. Na beira do mar, duas gaivotas brigavam por um marisco. Um bando de passarinhos pequenos se dispensou depois que uma onda molhou areia com sua espuma. O vento soprava o cabelo de Charlotte e ela sorriu. Esta era a praia onde encontrara Jared pela primeira vez
- Eu no quero sair com mais ningum, nem mesmo com Bill - declarou para o mar e para o sol - J tenho um namorado, e o nome dele  Jared Colburn
Durante as semanas seguintes, Charlotte viu Jared todos os dias e a maioria das noites tambm. Nas quartas e sextas, eles aproveitaram o privilgio de ter uma janela na grade horria e saram para almoar e passear pela orla.
Jared havia se lanado na fisioterapia com uma nova dedicao e, quando no tinha aulas de bal, Charlotte lhe dava uma carona para as sesses. Tinham retomado o hbito de ter encontro de estudo durante a semana e encontros de verdade no fim de semana.
Numa tarde de sexta-feira no final de novembro, Charlotte chegou correndo na casa dos Colburn depois do bal. Jared estava na cozinha fazendo uma vitamina de frutas no liquidificador. Agora, Jared era capaz de fazer quase tudo sozinho, j que seus pais haviam reformado a casa para se tornar totalmente acessvel para a cadeira de rodas.
- Morango, banana e grmen de trigo  disse ele, servindo um copo para Charlotte.
Ela deu um golinho.
- Sem sorvete?
- Ei, isso  saudvel!
S ento Charlotte percebeu que Jared estava apoiado sobre o balco da cozinha e sua cadeira de rodas no estava  vista.
- Espera. Como voc chegou at a?  ela perguntou.
Jared deu um sorriso.
- Andei. Com apoio,  claro.
- Jared, isso  fantstico!  Charlotte deu um abrao nele.  Eu no estou acreditando!
- Ei, cuidado. Eu ainda fico um pouquinho bambo - brincou ele, mas ela sabia que ele tinha ficado feliz com a reao dela.
Charlotte deu-lhe um beijo na bochecha
- Estou orgulhosa de voc
- ?
Ela pensou em todas as vezes no passado, um passado bem distante agoa, em que Jared se gabara por alguma conquista esportiva- um ponto marcado no futebol americano ou um arremesso no beisebol. Naquela poca, a admirao dela servia para tornar o triunfo dele mais completo, e ela obediente mente falava o que ele queria ouvir, Charlotte sempre pensara que ser uma namorada dedicada era isso.
Dessa vez, no entanto, o entusiasmo dela foi extremamente sincero. Ela no se importava com esse tipo de bajulao, porque agora no se tratava de inflar o ego de Jared. pela primeira vez na vida, ele tinha obtido sucesso da maneira difcil.
Jared parecia estar lendo a mente dela.
-  um jogo inteiramente novo - ele falou baixinho - apenas contra mim mesmo
Charlotte acariciou o pescoo dele
- Voc  capaz - ela disse com convico - Voc  um vencedor
- Nem consigo dizer o quanto isso  bom - Jared disse cheio de si, na tarde do sbado seguinte -  como sair da priso.
Ele e Charlotte tinham ido de carro at Boston para dar uma volta no Quincy Market, um mercado ao ar livro, e no porto. Era um dia frio de novembro, o sol plido aparecia de vez em quando por entre nuvens baixas que prometiam neve antes do anoitecer. Mas Charlotte nem se preocupava com a temperatura. S enxergava a felicidade de Jared em voltar a andas, por mais trmulas e inseguras que suas pernas estivessem.
- Desculpe, mas preciso ir devagar - falou Jared quando pararam perto de um carrinho de cachorro - quente para que ele retomasse o flego.
Uma vez que Jared precisava se apoiar fortemente sobre as muletas, os dois avanavam lentamente pelos caminhos do mercado. Mas Charlotte tambm no se importava com aquilo.
- Voc est indo superbem - assegurou ele
Continuaram, parando para assistir a um malabarista. Mais adiante, depois de comprar um pacote de biscoitos de chocolate ainda quentes do forno, sentaram-se num banco verde de madeira
-  engraado, j vim um milho de vezes ao Quincy Market - observou Jared - mas sinto como se estivesse vendo isso pela primeira vez
-  porque voc mudou - disse Charlotte trivialmente
- ?
- .
- De que modo?
- De todos. Voc no acha?
- Acho que sim - ele concordou com a cabea -  claro - sorrindo, alongou os braos e envolveu os ombros dela. - Ento, como  estar com um completo estranho?
Ela retribuiu o sorriso
- Eu gosto
- Voc  uma garota danada, Charlotte Kennedy.
- Quem, eu?
Eles ficaram em silncio por um minuto, mastigando os biscoites. Ento Jared surpreendeu Charlotte
- Sabe, Voc  uma das coisas que parecem novas pra mim.
- Eu? - disse, levantando a sobrancelha.
- No preciso dizer que costumava dar meu namoro com voc como algo certo. Que eu no dava ateno que voc merecia. Hoje eu me considero incrivelmente sortudo por voc continuar comigo.
Charlotte fitou os olhos de Jared. Eles nunca pareceram to verdes, to profundos
- Eu me sinto com muita sorte tambm - ela disse suavemente
O olhar de Jared retomou um ar malicioso.
- Agora s falta aquela trilha sonora piegas tocando ao fundo
"comear de novo, baby, yeah, yeah."
Charlotte deu uma risada.
Talvez estejamos comeando de novo, mas voc continua completamente desafinado.
- , se eu conseguisse cantar, a sim seria um milagre.
Eles permaneceram em silncio por um momento, terminando os biscoitos
- Ento, estranha - disse Jared enquanto retirava os farelos de biscoitos das mos - Mesmo depois de todos esses anos, eu aposto que existem vrias coisas que no sei sobre voc
- E eu aposto como existem vrias coisas que no sei sobre voc - ela corrigiu. Nesse momento, Charlotte se lembrou de quando entrevistara Bill num dos workshops sobre conscincia da diversidade - Vamos fazer perguntas um pro outro. Vamos nos entrevistar - sugeriu ela
- Srio?
- Por que no?
- O.K., Eu comeo - disse ele- Charlotte, o que voce mais gosta em si mesma?
Ela balanou os ombros
- No sei
- Vamos - ele respondeu - Voce tem que responder.
Charlotte franziu a testa
- Eu acho... que tenho a cabea aberta. Ou pelo menos tento ter
Ele concordou
- Voc tem. Tambm gosto disso em voc
- Certo, minha vez. O que voc mais gosta em voc?
- Alguns meses atrs, eu provavelmente diria que era ser forte e gil - respondeu Jared - Agora tenho que dizer que sou grato por ser teimoso como uma mula. Minha vez. Se voc pudesse ter nascido em outro lugar e outra poca, o que escolheria?
- Uau. Eu acho ... humm. Talvez a Amrica colonial , um pouco antes da Revoluo, na declarao da Independncia, todas essas coisas. Deve ter sido muito excitante. E voc?
-Na Grcia Antiga - declarou Jared - Imagine competir nos primeiros jogos olmpicos?
Trocaram perguntas por cerca de vinte minutos. Charlotte confessou que sempre desejara andar a cavalo e jogar bem basquete, que no planejava se casar antes dos vinte e poucos anos e que, ainda que Jared adorasse os 3 patetas, ela os achava estpidos. Jared revelou que queria ter cinco filhos, que estava pensando em se tornar um professor de histria ou talvez entrar para a poltica, e que se fosse o governador de Massachusetts declararia feriado estadual toda vez que os Red Sox jogassem em sua cidade natal.
Estavam rindo de alguns itens do plano poltico do governador Colburn quando Charlotte percebeu flocos brancos salpicarem a manga cinza de sua Jaqueta. A neve caia silenciosamente, a primeira do ano
- No  lindo? - Charlotte comentou, apertando o brao de Jared e aconchegando-se ao lado dele.
Ele concordou com a cabea.
-Vamos. Vamos pra casa nos aquecer.
Eles foram para casa de Jared, porque os pais dele planejavam ficar fora durante a tarde. Enquanto Charlotte acendia a lareira, Jared estudava o menu do restaurante chins que fazia entregas. Aps um jantar a luz de velas, os dois se enroscaram no sof para ouvir msica e observar a madeira queimando
Charlotte se acomodou no brao de Jared, com a cabea sobre o ombro dele. Com sua mo livre, ele retirou o cabelo que pendia sobre a testa dela
- Humm - murmurou ela, fechando os olhos - No pare.
- Eu deveria fazer uma massagem de verdade em voc - disse ele - recebo uma como parte da fisioterapia e sempre fico pensando que gostaria de tentar em voc
- Voc  massageado? - ela levantou uma sobrancelha- No por uma mulher linda, espero
Jared deu uma risada
- No, por uma cara de meia idade chamado Ralph. Desculpe-me por desapont-la
Abraaram-se por alguns minutos, sem conversar. Ento, Jared rompeu o silncio.
Faz sculos que no escuto esse CD. Voc se lembra dessa banda?
 claro - replicou Charlotte - Fomos ao show deles quando estvamos no segundo ano. Foi nosso aniversrio de dois meses de namoro.
- Dois meses - ele repetiu. Charlotte no conseguia ver o rosto de Jared, mas podia escutar o sorriso na voz dele - Era como se estiv=essemos saindo juntos por muito tempo, se lembra?
- Bem, ns nos envolvemos muito rapidamente - falou ela - Tnhamos muita atrao um pelo outro
Ele a apertou instintivamente, Charlotte virou seu corpo em direo ao dele. Quando ela levantou o rosto, a boca dele estava pronta para encontrar a dela
Ela no havia pensado em beijar Jared. S estava aproveitando a sensao boa de estar prxima a ele. Mas quando os lbios deles se encontraram, meses de desejo contido vieram a tona e o corpo de Charlotte se esquentou. De algum modo, ela vinha esperando por esse momento... querendo...
Jared a envolveu com seus braos, suas mos quentes repousaram sobre as costas nuas dela por baixo da camiseta. O beijo foi longo e apaixonado. Charlotte desligou seus pensamentos conscientes, se entregando quela sensao.
Depois de um minuto, Jared mudou de posio e os dois se afastaram um pouco, ambos vermelhos e sem flego
- Uau - sussurrou Charlotte - Eu me esqueci como era
- Eu tambm - Jared tambm sussurrou
Repentinamente, ela se sentiu imprudente.
por um instante de felicidade, ela havia se esquecido completamente das pernas machucadas de Jared
- Jared, isso... quer dizer, eu, agora... eu no queria... - gaguejou ela.
- Se voc est preocupada porque pode me machucar ou algo parecido, no fique. No vou quebrar.
- Voc tem certeza de que est em condies?
Ele sorriu.
- Estou em condies. Acredite em mim.
Eles se ajeitaram no sof, numa posio em que Charlotte no esmagasse as pernas de Jared, e depois voltaram a se beijar
Charlotte no conseguia se lembrar de quando havia sido to bom beijar Jared. Esse era o primeiro encontro romntico deles desde o acidente de carro. Mas, mesmo antes do acidente , os sentimentos dela nunca tinham estado to fortes e, naturalmente,a parte fsica tambm no costumava ser to arrebatadora.
Agora, "calor parecia ser uma pavra muito suave para descrever o que o toque de Jared causava nela. Tinham passado um dia maravilhoso juntos, e agora a noite estava se tornando inesquecvel tambm.
- Eu amo voc, Char- murmurou Jared, os lbios dele no cabelo dela
Charlotte mal conseguiu acreditar que aquilo estava acontecendo. O sentimento havia crescido to gradualmente que ela nem percebera. " amor", ela se deu conta, deslumbrada e feliz. "Sincero e verdadeiro. Eu me apaixonei novamente pelo meu prprio namorado"
- Eu tambm amo voc, Jared - disse, do fundo do seu corao.
- Voc j enviou suas inscries?
Essa era a pergunta que todos os alunos do terceiro ano da escola Parker faziam. Com o fim do prazo para inscries se aproximando,todos estavam correndo para terminar seus textos de apresentao e arranjar recomendaes para serem enviadas
Na quarta feira durante o almoo Charlotte e Jared sentaram-se numa larga mesa redonda com seus amigos, discutindo quem tinha mais trabalho para fazer.
- Ainda nem terminei de escrever meu texto para a Faculdade Dartmouth - lamentou Paige- e tem mais uns dez como esse para fazer. No que eu tenha alguma chance de conseguir- acrescentou ela, dando garfadas em sua salada.
- Reescrevi minha apresentao para a Universidade de Massachusetts uma centena de vezes - Walker lamentou -, mas ainda no acertei a mo. Estou comeando a questionar se vale a pena todo esse esforo. Vocs acham que eles chegam a ler essas coisas?
- Eles Lem - declarou Maddie com seriedade - Supostamente, em algumas faculdades muito concorridas, o ensaio  praticamente a parte mais importante de sua inscrio.
- Sorte minha, no precisei suar pra fazer esses ensaios- comentou Jeff, enquanto desembrulhava um sanduche de presunto incrivelmente grande- O tcnico Baldwin deu uns telefonemas e pronto - ele estalou seus dedos- estou esperando minha carta de aceitao antecipada a qualquer dia agora
Houve um momento embaraoso de silncio na mesa. Bev olhava para Jeff de modo feroz, enquanto os outros lanavam olhares de preocupao para Jared. Charlotte apertou os lbios, esperando que seu namorado reagisse ao comentrio impensado de Jeff .
Ele no reagiu. Se Jared estava pensando em sua prpria carreira atltica frustrada, no demonstrou. Com a expresso alegremente inexpressiva,apertou a mo de Charlotte por baixo da mesa como se quisesse assegurar que nenhum mal tinha sado feito
Bev desfez o silncio
- Charlotte, voc no me contou como foi sua entrevista na Suny
Charlotte fez uma cara azeda
- Fui medocre. Eu me senti como se tivesse dizendo todas as coisas erradas, sabe? O avaliador tentou muito me deixar confortvel, mas mesmo assim fiquei inacreditavelmente nervosa. E, durante a audio de dana, parecia que eu tinha 4 patas em vez de 2 pernas. Eu me arrastei pela sala como um elefante.
- Tenho certeza de que voc foi fantstica - Maddie consolou-a
-  um outro mundo l, s isso - replicou Charlotte, tentando soar pragmtica enquanto abria um pote de iogurte de morango - Sei que me destaco nas aulas da madame Laurent, mas todo mundo que se candidata  Suny  excepcional. Se tiver muita sorte, no vou ficar com as ltimas classificaes. Isso se eu me inscrever - concluiu com um suspiro de desnimo.
Jared se ajeitou em sua cadeira
- Ei, no quero ouvir voc falando assim - disse ele, com um tom de voz ao mesmo tempo severo e carinhoso - Voc tem chance, como todo mundo
Charlotte balanou a cabea
- Eu deveria ter me inscrito para a deciso antecipada na Wellesley
- Vou para sua casa esta tarde, ficar do lado da sua mesa at voc terminar sua inscrio para Suny - insistiu Jared, colocando a mo na cabea de Charlotte e desarrumando o cabelo dela - Ouviu?
- Ouvi - disse ela sorrindo
-  srio, Char - ele falou, olhando diretamente em seus olhos - Talvez voc decida que no quer se tornar uma bailarina profissional, mas se voc no se inscrever para Suny Purchase, nem vai ter essa opo. Voc tem a chance de ser a melhor em algo, corra atrs disso.
Charlotte fitou Jared, os olhos dela inesperadamente embaraados. A intensidade do carinho dele era inconfundvel. No fazia muito tempo ele no tinha dado importncia para as ambies dela porque estava completamente afundado nas suas prprias. Agora, ainda que tivesse que lidar com o modo como seu acidente estava mudando seu futuro, no estava sendo egosta. Estava dando apoio a ela de um jeito que nunca fizera antes.
Durante o fim do almoo, Charlotte e Jared continuaram de mos dadas, ainda que isso fizesse com que parecessem esquisitos, sem mencionar que comer se tornou uma tarefa impossvel. Charlotte no se preocupava. Ela e Jared estavam apaixonados de novo, e amor era sempre melhor que comida.
- No consigo acreditar em vocs dois - exclamou Maddie durante a conversa com Charlotte naquela tarde - Parecem recm casados!
-  assim que estou me sentindo - confessou Charlotte, corando.
Charlotte convidara duas de suas novas amigas, Susie Kawamura e Andy Klincaida, para se juntarem aos encontros regulares delas no Judy's, para tomar milk-shake e comer anis fritos de cebola. De antemo, ela havia se preocupado um pouco em misturar os dois grupos, mas Maddie, Paige e Bev tinham sido muito receptivas, e todas se deram bem logo no incio.
- Eu nunca nem soube que vocs estavam tendo problemas - Bev disse, se lamentando - Vocs foram muito discretos
- Era difcil conversar sobre isso - reconheceu Charlotte - mas o importante  que resolvemos tudo. Nossa relao est melhor do que nunca
- Ento o que voc vai fazer no ano que vem se Jared for para Harvard ou Williams ou algum outro lugar e voc for pra Nova York? - perguntou Andy, pegando um anel de cebola do prato no centro da mesa.
Charlotte misturou seu Milk-shake de chocolate com o canudo
- No sei.
Ela ainda estava pensando na pergunta de Andy, quando Jared apareceu na sua casa, como havia prometido, para motiv-la a trabalhar em sua inscrio para a Suny
- Ainda no consegui escrever muito - apontou ela, enquanto os dois permaneciam deitados em sua cama com os braos entrelaados
- Esse  o aquecimento - brincou Jared, beijando a ponta do nariz dela
Charlotte repousou sua cabea sobre o peito de Jared e escutou a batida do corao dele atraves do tecido da camisa de flanela.
- Acho que vou envia a inscrio - ela disse depois de um instante - Voc esta certo sobre deixar minhas opes abertas. Se eu realmente entrar, no entanto, como vou decidir? quero mesmo me concentrar no bal ou seria mais divertido ir para uma faculdade tradicional como todo o mundo?
- Deixe pra se preocupar com isso em abril, quando as cartas de aceitao comearem a aparecer - aconselhou ele
Charlotte sentou-se na cama, retirando uma mecha longa de cabelo do rosto
- Voc no est se inscrevendo para nenhuma faculdade em Nova York- comentou ela- Isso significa que, se eu for para a Suny Purchase, ficaremos separados pelos prximos 4 anos. Voc j pensou nisso?
Ele se apoiou nos cotovelos
-  claro. Mas vou dar um jeito. Ns nos gostamos muito para deixar algumas centenas de quilmetros se tornarem um problema.
Charlotte pensou na ltima conversa com sua irm, pelo telefone. A longa distancia havia atrapalhado o relacionamento de Amlia com o namorado, Tim, um estudante de medicina, e eles tinham terminado recentemente.
- Eu tambm amo voc, Char - disse Jared, levantando uma mo para tocar o rosto dela - E  isso que estou falando. Se formos para faculdades prximas, timo. Seno, vai dar mais trabalho mas continuaremos bem.
- Voc no pode afirmar isso - falou Charlotte - Pode ser que no continuemos bem. Pode ser muito difcil. Voc no sabe o quanto j ficamos perto de...
Ela parou abruptamente. As sobrancelhas de Jared se arquearam.
- De qu? - perguntou ele
Charlotte balanou a cabea
- Nada
- No, o que voc ia dizer? - pressionou ele- O quanto j ficamos perto de que?
Ela colocou as mos sobre o rosto, que estava coberto de lgrimas
- De terminar- ela sussurrou
- Voc quer dizer no ms passado, na noite em que alugamos "Razo e sensibilidade" e tivemos aquela conversa?
- No - ela hesitou. Agora, Jared j sabia que ela estivera insatisfeita com a relao deles no passado mas ela nunca confessara o quanto - L... l no comeo de setembro. Na noite do acidente
- Voc queria conversar comigo sobre alguma coisa - ele se lembrou
- . Eu ia... terminar com voc
Ele piscou os olhos, sem conseguir acreditar
- Voc esta brincando - ele falou
- J conversamos sobre isso - ela disse imediatamente- sobre como as coisas no eram exatamente ideais entre ns antigamente. Est muito melhor agora, Jared. Eu estou muito feliz
Ele ergueu o tronco para sentar-se com as costas apoiadas contra os travesseiras da cama, ento cruzou os braos na frente do peito. A frieza do gesto encheu o corao de Charlotte com um pressentimento ruim
- Ns no conversamos sobre isso - ele a contradisse - voc nunca disse que iria terminar comigo.
- Porque no importava mais- insistiu ela, colocando uma mo sobre o brao dele - eu amo voc agora.
- Mas no amava naquela poca?
Charlotte se contorceu de Embarao. Ela sentiu que havia entrado num beco sem sada, mas no podia mentir. Jared estava fitando-a com um olhar implacvel - Eu no amava tanto naquela poca - admitiu - quer dizer, havia parado de me sentir da maneira que sentia quando nos conhecemos
Jared levantou uma mo
- Chega - ele afirmou com a voz rouca
- Jared, no fique assim- Charlotte se inclinou para abraa-o o que passou, passou.
Ele a empurrou para longe, no muito gentilmente
- No tenho muita certeza. Como voc pode agir como se no fosse muito importante o fato de que estava a beira de terminar comigo na noite do acidente? E o dia seguinte, e o seguinte?
No diga que voc se apaixonou novamente por mim assim que me deitei naquela cama de hospital. Voc ficou comigo por pena?
A pergunta havia sido to certeira que era impossvel para Charlotte mascarar seus verdadeiros sentimentos. Ela se encolheu.
- Foi pena - disse Jared, dor e raiva transformaram seus olhos- Eu devia estar parecendo bem pattico para voc ficar sentindo pena de mim, para fazer um sacrifcio to grande. ou foi mesmo um sacrifcio? - a expresso dele ficou ainda mais escura e irritada- Voc ficou se encontrando com aquele Bill, escondida de mim? Foi assim que voc pde suportar ficar com um namorado que no amava mais?
- Jared! - gritou Charlotte - Bill e eu ramos apenas amigos. Eu no iria...
Ele se virou, desajeitado, esticando suas pernas para a lateral da cama a fim de conseguir alcanar as muletas.Quando Charlotte tentou ajud-lo, ele lhe deu um empurro.
- Preciso ir - murmurou ele.
- Jared, acho que a gente devia conversar sobre isso - declarou Charlotte - Sei que voc est com o orgulho ferido mas no est sendo sensato. Pelo menos me deixe...
- Meu orgulho est ferido? - ele deu uma gargalhada spera- Voc tem toda razo, meu orgulho est ferido. E talvez meu orgulho no seja importante para voc, mas tem algum valor para mim.
Ele foi, sem energia em direo a porta, apoiando-se sobre as muletas.
-Jared, espere - implorou Charlotte
Jared no olhou para ela
- At mais, Charlotte.
Depois que Jared saiu, Charlotte chorou em seu travesseiro por meia hora. Foi ao banheiro lavar o rosto, ento retornou ao quarto e pegou o telefone
Primeiro, ligou para Maddie. Quando ouviu a gravao da secretria eletrnica, desligou. Em seguida, tentou Bev. A senhora Constable disse a ela que Bev havia sado com Jeff. Susie tambm no estava em casa, nem Andy.
- Droga- resmungou Charlotte - onde est todo mundo?
Ela precisava conversar com algum sobre seu terrvel desentedimento com Jared. Os pais dela ainda no haviam retornado do trabalho, mas de qualquer modo no tinha certeza se conseguiria confiar neles. "Amlia?" ela pensou. No, ultimamente Amlia j estava com problemas suficientes, tentando superar o fim do namoro com Tim.
"Talvez eu precise de uma perspectiva masculina", decidiu Charlotte. Fez outra ligao, para um nmero que ela no usava h cerca de 2 semanas.
Bill atendeu
- Charlotte!- exclamou, soando agradavelmente surpreso - E a?
- Precisa de uns conselhos - ela foi sincera - Podemos nos encontrar para uma pizza?
Jared caiu na poltrona da pizzaria Brick Oven , ignorando as dores que irradiavam de sua coluna. No se importava se sua postura desleixada estava colocando por gua abaixo semanas de fisioterapia. O desconforto externo combinava com seu humor.
Matt, Bob e Jeff mataram o tempo enquanto esperavam pelas suas pizzas discutindo sobre que faculdades tinham os melhores times de futebol americano. Jared se desligou completamente deles. No conseguia se interessar por uma conversa sobre esportes quando seu relacionamento de dois anos e meio estava em processa de autocombusto.
"Talvez isso tenha sido inevitvel", ele refletiu, enquanto mordia sem nimo um pedao de po de alho. Charlotte havia arrasado com ele admitindo que estivera planejando terminar antes do acidente, em setembro, mas ele no merecia aquilo? Era to cheio de si naquela poca... Nunca levava os sentimentos dela em considerao. "Teria sido bem feito pra mim se ela tivesse me dado o fora" pensou. E aquele Bill bem que gostaria...
Jared franziu a testa olhando o copo de cerveja. Talvez no tivesse sido Justo com Charlotte sobre o assunto - ele absolutamente no tinha nenhuma evidncia de que ela o houvesse trado. Se disse que Bill era apenas um amigo, ento era apenas um amigo. Charlotte no o enganaria, de jeito nenhum. Ela no era esse tipo de garota.
Sentindo-se um pouco melhor, endireitou-se na cadeira. Ligaria para Charlotte assim que chegasse em casa. Era isso que faria. Ela estava certa: tinha deixado o orgulho ficar no caminho. Eles precisavam conversar
A garonete chegou com as pizzas e assim que sentiu o cheiro delicioso de calabresa e de alho torrado o apetite de Jared voltou. Ento, quando a garonete estava servindo a pizza, Jared olhou para frente imediatamente seu apetite desapareceu.
Duas pessoas tinham acabado de entrar na pizzaria. Matt, Jeff e Bob no notaram - estavam ocupados cortando as pizzas - mas Jared pde ver claramente o casa: Charlotte e Bill
A hostess conduziu os dois para uma mesa no fundo do restaurante, Jared abaixou a cabea, mas nem Charlotte nem Bill olharam em direo a mesa deles. Estavam absortos na conversa, sem perceber o que acontecia ao redor. Quando Bill colocou sua mo nas costas de Charlotte a fim de conduzi-la para a cadeira, Jared virou o rosto.
A dor nos olhos de Jared era tanto de tristeza quanto de raiva. parecia que as coisas tinham definitivamente terminado - Charlotte esteve todo o tempo envolvida com outro cara. Como ele havia sido idiota! Depois do acidente de carro, tinha desenvolvido mais respeito pela independncia e individualidade de Charlotte. Havia deixado que ela ganhasse mais espao, que fizesse as coisas que queria e conhecesse novos amigos e o que havia acontecido?
Jared sentiu dor na coluna, nas pernas, no corao, como se tivesse sido atingido por um carro novamente. "Isso porque ela disse que est me amando mais do que nunca" pensou.
Quando Charlotte voltou para casa, estava mais otimista. Tinha contado toda a histria para Bill, que havia lhe dado todo apoio e ateno
- O ego de Jared est ferido, mas se ele realmente mudou, como voc disso, vai superar isso - Bill previu - D um tempo pra ele esfriar a cabea, ento voltem a conversar.
"Amanh, depois da aula de bal, vou at a casa dele", Charlotte decidiu, enquanto se servia de um copo grande de suco de laranja.
O telefone tocou. Ainda feliz, ela atendeu
- Al?
- Charlotte,  o Jared.
- Jared - exclamou ela - Voc leu minha mente. Estava justamente pensando em voc.
- Mesmo? Estive pensando em voc tambm
- Que bom- disse Charlotte. Como ele permaneceu em silncio, ela ainda fez mais um comentrio. - Bem,  bom, no ?
- Charlotte, acho que a gente no deve voltar a se ver.
Os joelhos de Charlotte vacilaram - ela mal conseguia se manter equilibrada
- O qu?
- Acho que a gent no deve mais ficar junto.
A cor desapareceu do rosto de Charlotte.
- Jared, s porque eu falei daquilo em setembro, eu...
- O problema no  s setembro - ele cortou -  agora.
- Sei que voc ficou louco comigo por causa disso hoje  tarde, mas no v que eu fui honesta com voc porque pensei que nosso relacionamento era forte o suficiente para suportar?
- Voc no sabe do que eu estou falando?
-Ento me ajuda a entender - ela pediu
- No acho que tenha mais alguma coisa para gente discutir
- Jared, voc no est sendo junto" - gritou Charlotte - Voc esta deixando que seu velho ego estpido fique no caminho novamente. Poderamos resolver as coisas se voc ao menos...
Ela percebeu imediatamente que havia falado a coisa errada. Jared interrompeu, sua voz ainda mais fria do que antes.
- Sei que voc esta farta disso, mas esse velho ego estpido sou eu. Eu sou assim - disse ele - e preciso desse ego pra sobreviver. Adeus , Charlotte
A ligao caiu antes que ela pudesse responder, mas isso no importava . Estava claro que no existia nada que ela pudesse dizer para convencer Jared de que ele estava cometendo um erro. Pensou que ele havia mudado, que o relacionamento deles estava diferente, mas obviamente estava errada. Eles no tinham um futuro juntos, afinal de contas
Ainda tremendo do choque, Charlotte desligou o telefone.
-Adeus, Jared  sussurrou.
- Voc acha que vai se sentir melhor amanh para ir  escola? - a senhora Colburn casualmente perguntou a Jared na tarde de domingo.
Jared estava sentado na cosinha, folheando sem nimo as pginas da seo de esportes do Boston Globe. Ele havia faltada as aulas por mais de uma semana, fingindo que no estava se sentindo bem
- Provavelmente- resmungou - Acho que j melhorei dessa gripe
- Que bom - sua me disse
Foi ento que a campainha tocou. Ela saiu para atender, voltando um minuto depois.
-  para voc - ela disse a Jared.
A expresso dela era neutra, mas o corao de Jared pulou. Poderia ser Charlotte? Ele esperava que sim... e esperava que no. Ela havia deixado um monte de recados, mas ele no retornara as ligaes. Estava emocionalmente dividido, morrendo de vontade de conversar com ela, ao mesmo tempo que tinha certeza que no queria falar novamente com ela
Usando suas muletas, foi lentamente para a parte da frente da casa. Um garoto vestindo uma jaqueta vermelha e preta estava no corredor, mudando o peso de um p para outro. Jared parou, surpreso
- Bill - disse ele
Bill sorriu timidamente
- Desculpe por aparecer sem ligar antes. podemos conversar por um minuto?
- Ah, claro - Jared apontou para a entrada da sala - Sente-se
Bill sentou-se no sof, Jared puxou uma cadeira no lado oposto da sala e esperou que Bill explicasse a razo de sua visita. Ele no olhava nos olhos de Bill - nao conseguia. o cara era o novo namorado de Charlotte. Que diabos estava fazendo ali?
- Voc provavelmente vai pensar que estou maluco - Bill finalmente comeou a fala - Primeiro de tudo, Charlotte no sabe que estou aqui. Isso foi idia minha.
- O que foi idia sua? - perguntou Jared
Os dentes brancos de Bill se mostraram rapidamente em outro sorriso acanhado
- Agir como intermedirio. Para fazer as pazes entre vocs
Jared olhou atnito.
- Do que  que voc esta falando?
- Veja, vocs dois terminaram certo? E tive a impresso, quando Charlotte me contou o que favia acontecido, que tinha alguma coisa a ver comigo.
- Alguma coisa - Jared admitiu friamente.
- Eu s queria esclarecer tudo. De homem para homem. Assim vocs podem ficar juntos.
- perai - disse Jared - Como Charlotte e eu podemos voltar se ela esta saindo com voce?
Agora era a vez de Bill ficar de boca aberta.
- Na semana passada, na pizzaria - falou Jared
- . o que  que tem?
- Vocs estavam l juntos - acusou Jared
- Estvamos- admitiu Bill - Ela chorou o tempo todo. A pizza ficou ensopada.
- Quer dizer que no foi um encontro?
Bill balanou a cabea enfaticamente.
- Quer dizer... que vocs no esto juntos?
- Vou ser honesto - disse Bill - Gostaria que estivssemos. Mas Charlotte est muito envolvida com voc. Ela deixou isso claro para mim h muito tempo
Demorou alguns minutos para que Jared entendesse isso, mas finalmente Bill o convenceu de que sua relao com Charlotte era platnica.
- No quero me meter na sua vida- Bill falou enquanto Jared o acompanhava at a porta - provavelmente voc j deve me achar superintrometido.  s que Charlotte  uma grande amiga, e me preocupo com a felicidade dela. Ento no destrua nada, O.K.
Bill estendeu a mo
Jared soltou a muleta para apertar a mo de Bill
- O.K.
Depois que Bill saiu, Jared permaneceu por muito tempo olhando a rua gelada atravs da janela da sala. Ficou imaginando o que Charlotte estaria fazendo, se estava pensando nele, se estava triste porque eles haviam desmanchado o namoro, com raiva ou talvez at aliviada. " ela provavelmente est cheia de sentimentos diferentes sobre tudo isso " decidiu Jared. "Assim como eu"
Jared no sabia o que fazer em seguida. Parecia que devia desculpas para Charlotte. Bill Banerjee no estava no meio do caminho deles, afinal de contas. "Mas isso no significa necessariamente que ela queira continuar de onde paramos", concluiu Jared. No era essa lio mais importante que ele havia aprendido durante aquele longo e duro perodo, que a vida  imprevisvel, que voc no pode ter nada - nem ningum - como garantido?
Parte de Jared queria telefonar para Charlotte imediatamente e implorar que o aceitasse de volta, mas outra parte o segurava.
"Por qu?" Jared se perguntou. Ento, seu pensamento ficou claro repentinamente. A questo no era que no confiasse em Charlotte, mas precisava aprender a confiar mais em si mesmo
Quando se afastou da janela, Jared j havia tomado sua deciso. Se ele e Charlotte iriam reatar, ele precisava voltar para a relao como uma pessoa completa. Isso no significava que seu corpo tinha que estar perfeitamente curado. Estar completo no significava apenas recuperar totalmente o movimento total das pernas. Era algo interno tambm. E, embora o apoio de Charlotte nos ltimos meses tivesse sido inestimvel - ela o ajudara a ficar novamente sobre os prprios ps de mais de uma maneira - Jared sabia que precisava dar os ltimos passos sozinho.
Dezembro havia chegado, e Amlia viera de Wellesley para casa a fim de passar o feriado do Natal com a famlia. As duas irms passaram a tarde decorando o pinheiro que seu pai trouxera para casa naquele sbado.
Era um ritual feito com muito carinho e , como sempre, cada detalhe estava perfeito. Canes de Natal vinham do aparelho de com. o vinho quente era aquecido no fogo, e a senhora Kennedy fazia os cookies de Natal prediletos de Charlotte
Por mais que tentasse, porm, Charlotte no conseguia entrar no esprito da festa, e sabia o porqu, Jared havia voltado para a escola h uma semana, mas deixara claro que no estava preparado para conversar. Ela no tinha outra escolha seo dar um tempo para que ele colocasse a cabea no lugar. Nesse meio tempo, era inacreditavelmente doloroso v-lo todos os dias e ainda sentir que estavam separados por uma enorme distncia. Eles voltariam a ficar juntos?
Amlia se parecia com Charlotte, ainda que no fosse to alta e usasse o cabelo curto. Em termos de personalidade era perceptiva, prtica e direta. No perdeu tempo para quebrar o silncio depressivo da irm.
- Voc me falou que voc e Jared terminaram, mas mo me deu os detalhes. Quer falar sobre isso?
- No h muito o que falar - disse Charlotte, enfiando a mo na caixa de papelo para pegar um enfeite - Ns meio que... terminamos
Quando ela disse isso, no entanto, no pde deixar de dar uma fungada. Amlia lanou-lhe um olhar aguado
- Vamos, Charlie - falou Amlia, usando o apelido que havia colocado em Charlotte quando eram crianas - Voc sabe a regra. No pode sofrer em silncio.
Charlotte despejou a histria completa, pelo menos o que ela sabia.
- S no consigo entender por que ele no fala comigo - concluiu Charlotte
- Talvez ele s precise de um pouco de tempo - arriscou Amlia.
 Charlotte balanou a cabea
- Acho que o recado est bem claro. E fico tentando repetir pra mim mesma que  para melhor. No faz muito tempo que eu queria terminar com ele , sabe? Mas agora no  o que eu quero,definitivamente - ela recomeou a fungar -  terrvel Amlia. Sinto muita falta dele.
Amlia colocou um brao em torno de Charlotte e lhe deu um forte abrao
- Sei o quanto  duro. Acredite em mim.
- Por que voc e o tim terminaram? - perguntou Charlotte, - Foi mesmo s por causa da distncia?
- isso foi s uma parte- replicou Amlia - Mas foi principalmente porque estamos em fases diferentes das nossas vidas, mudando de um modo que acabou nos afastando, ao invs de nos tornar mais prximos.
- Era assim que eu me sentia em relao a Jared no vero passado! - exclamou Charlotte - Ento, depois do acidente, como se Jared tivesse se transformado em outra pessoa - os olhos dela se escureceram - Mas acho que ele realmente no mudou nada. O tempo todo, ele foi sempre o mesmo velho Jared.
Amlia pregou uma fita de lantejoulas em um galho da rvore.
- Humm - ela murmurou pensativa
- O qu?
- Esse negcio de mudana. Voc alguma vez pensou que pode estar esperando muito de Jared? Talvez voc no esteja dando um crdito a ele, para que seja o que deve ser
- O que voc quer dizer?
- Acho que no acredito que as pessoas mudem dessa maneira - explicou Amlia - ou no completamente, pelo menos, para se tornar uma pessoa completamente diferente. Naturalmente, Jared ainda  Jared. Mas ele descobriu novas foras dentro dele, qualidades que provavelmente sempre estiveram l, sem se desenvolver. Todos temos isso. No podemos esperar que elas desapaream, apenas temos que reconhecer quais so e aprender a lidar com elas Charlotte observou o pinheiro, decidindo onde pendurar um enfeite, e tentando digerir a anlise de Amlia.
 -Deixe-me explicar de outra maneira- sugeriu a irm- Jared costumava dar seu interesse por ele como algo certo. Era por isso que, antes, voc queria terminar com ele.  possvel que, ultimamente, desde o acidente, voc tenha agido da mesma maneira?
Amlia no parecia esperar uma resposta para sua pergunta, o que era bom porque Charlotte no tinha a menor idia de como separar e articular o complicado emaranhado de seus sentimentos.
Havia, porm, uma verdade nas palavras de Amlia. Charlotte percebera isso imediatamente
- Sei que tenho pelo menos metade da culpa - admitiu ela. - Fiquei interessada em Bill por um tempo, mesmo que nunca tenha rolado nada. Mas como posso fazer as pazes com Jared se ele no quer nem conversar comigo?
Amlia voltou para a primeira sugesto.
- D um pouco mais de tempo a ele.
Terminaram de colocar os enfeites. Enquanto Amlia pregava uma guirlanda prateada ao redor do pinheiro. Charlotte observava, atravs da janela, a neve caindo. Um pequeno cachorro branco estava atravessando o gramado, cheirando uma monte de arbustos.
- Voc sabe que cachorro  esse? - Charlotte perguntou  irm
Amlia deu uma olhada pela janela, ento balanou a cabea
- Mas no estou muito atualizada sobre nossa vizinhana canina.
O cachorro branco parou de andar e olhou para a casa, com o que Charlotte imaginou ser uma expresso de sofrimento
- Acho que ele no est usando coleira - notou Charlotte, sentindo uma pena daquela pequena criatura perdida - Vou ver se consigo descobrir a quem ele pertence.
Charlotte colocou um casaco pesado de inverno e saiu de casa. o cachorro havia chegado perto da porta, mas, quando ela apareceu, levou um susto e se afastou.
- Voc est perdido? - perguntou Charlotte gentilmente.
O cachorro manteve uma certa distancia, mas seus olhos permaneceram em Charlotte. Ela sentou-se no degrau
- Venha aqui - ela chamou - No vou machucar voc
O cachorrinho cheirou a grama morta . Quando levantou a cabea, seu nariz preto estava sujo de neve. Ele espirrou
- Que palhao- disse Charlotte, rindo
Gradualmente, o cachorro chegou mais perto de Charlotte, para matar a curiosidade. Levantando-se lentamente, Charlotte deu alguns passos em sua direo. O cachorro estava usando uma coleira, afinal; ela se inclinou e o agarrou. Dessa vez, o cachorro no tentou fugir.
- Sem coleira  Charlotte passou a mo atrs da orelha do cachorro.  Voc  um rfo, no ?
O cachorrinho olhou para ela, seus olhos escuros silenciosamente expressivos. O choro apertou a garganta de Charlotte. Ele  to sozinho quanto eu, pensou.
- Venha  Chamou o cachorro, virando-se para abrir a porta  Voc no deve ficar a fora no frio durante o Natal. Pode ter um lar comigo.
Quando o telefone tocou uma semana depois, na tarde do domingo antes do Natal, Amlia e Charlotte estavam assistindo a TV comendo pipoca de microondas. O pequeno cachorro branco, que Charlotte tinha batizado de Harpo por causa de sua expresso engraada e como um tributo triste a Jared, f dos Trs Patetas, estava muito contente, enrolado no carpete aos ps dela.
Amlia atendeu ao telefone.
-  pra voc  ela disse a Charlotte. Cobrindo o fone com a mo, acrescentou num sussurro excitado: - Acho que  ele!
Com a mo tremendo, Charlotte tomou o telefone.
- A-al?  Gaguejou.
- Charlotte,  Jared  ele falou, com a voz levemente vacilante .
- Jared, ah, oi  ela continuou.
- Hum, sei que faz tempo desde que... e eu no a culparei se voc no quiser... mas, bem, estava pensando se...- ele tossiu levemente e, ento, recomeou.  Tenho uma espcie de presente de Natal para voc  falou ele.  Voc no gostaria de vir aqui?
-Ah, claro, eu acho. Quando?
- Que tal agora?
Ser que ele est escutando meu corao disparando?, ela se perguntou.
-O.K.  ela concordou, quase sem ar.
Quinze minutos depois, Charlotte estava dirigindo para  casa de Jared. Harpo estava sentado no banco traseiro, com um lao vermelho amarrado ao redor do pescoo e a lngua pendurada alegremente. Enquanto isso, Charlotte estava to nervosa que suas mos suadas escorregavam no volante.Jared havia terminado com ela, depois ficaram sem falar por semanas. Agora queria v-la...ele tinha um presente para ela! O que estava acontecendo?
Quando ela tocou a campainha dos Colburn, o irmo mais novo de Jared veio at a porta.
- Ei, Charlotte  Jimmy falou casualmente, como se no se tivessem passado anos desde a ltima vez em que ela aparecera ali.  Cachorro bonitinho. Entre Jared est na sala.
Carregando Harpo, Charlotte atravessou o corredor at a sala de estar. Jared estava sentado no sof, lendo uma revista.
- Oi - disse ele, levantando a cabea assim que ela entrou na sala.  Ei, quem  esse seu amigo peludo?
Charlotte deu alguns passos hesitantes, ainda segurando Harpo em seus braos como um escudo. Queria entender qual era o humor de Jared, suas intenes, mas sua voz e expresso estavam neutras, sem revelar nada.
- Este  o ...hum...Aqui  Charlotte  Charlotte esticou seus braos abrutamente, oferecendo Harpo, mas voc pode mudar o nome dele, ou nem precisa ficar com ele, mas Feliz Natal- concluiu.
Ela colocou Harpo no cho, e ele parecia saber o que fazer. Depois de um olhar de Charlotte, caminhou em direo a Jared e cheirou o sapato dele.
Jared olhou para aquele cachorrinho, seu rosto ainda permanecia branco.
- Obrigado  ele disse baixinho, depois de uma longa pausa.
Houve mais uma pausa estranha. Impaciente com a tenso e o suspense, Charlotte cruzou e descruzou os braos, esperando que o rapaz lhe contasse por que a convidara para ir at l. Ela havia dado um presente de paz, agora era a vez dele.
Finalmente, Jared olhou para ela.
- Como disse no telefone, tenho um presente pra voc tambm  ele disse, um pouco spero.  Mas no est embrulhado.  algo que tenho que mostrar.
Jared colocou suas mos sobre as almofadas do sof, dos dois lados, ento se levantou. Pela primeira vez, Charlotte percebeu que as muletas dele no estavam por perto. Por um bom tempo, Jared permaneceu em p como uma esttua. Depois, lenta e cuidadosamente, dobrou seu joelho direito e escorregou o p para a frente. Quando seu peso estava novamente equilibrado, ele levou a perna esquerda para a frente da mesma maneira metdica. Um passo, dois passos, trs.
Charlotte olhava, espantada.
- Jared  gritou ela.  Voc est andando!
Jared sorriu para ela, um orgulho tmido em seus olhos vermelhos de lgrimas. Os olhos de Charlotte estavam vermelhos tambm. As lgrimas corriam pelo seu rosto.
-   ele falou simplesmente.  Este  o meu presente pra voc, Char. Eu no poderia ter feito isso sem voc. De verdade.
Os ps de Charlotte estavam fincados no cho. Agora ela corria para Jared, que a envolveu em seus braos.
- Desculpe  ele sussurrou, o rosto dele contra o dela, as lgrimas de ambos se misturando.  Tirei umas concluses precipitadas sobre Bill. Fui injusto com voc.
- Tive tanta culpa quanto voc.
Jared a beijou suavemente.
- Podemos resolver isso? Ou  tarde demais?
Eles se sentaram juntos no sof, de mos dadas.
- Eu amo voc, Char, e quero que a gente fique junto de novo  comeou Jared.
Charlotte concordou com a cabea, os olhos dela brilhando.
- Eu tambm quero.
- Mas quero ter certeza de que vamos nos entender  disse ele.  Quero que saiba por que eu amo voc  ele sorriu timidamente.  Isso parece idiota?
Ela balanou a cabea.
- No.
- Eu amo voc porque voc  uma pessoa forte e confiante  Jared disse.  Porque  complexa e porque, as vezes,  difcil decifrar o que se passa com voc.
Ela levantou as sobrancelhas.
- Isso  uma coisa boa?
Jared deu uma gargalhada.
- . E, voc sabe, antigamente, eu no gostava disso em voc. Ou talvez eu devesse dizer que nem percebia isso.
- Eu no era to confiante naquela poca, quando comeamos a namorar  respondeu Charlotte.
- Isso  outra coisa que eu admiro tambm em voc  disse Jared.  Voc busca melhorar, voc se arrisca.
- E?
- . Voc no fica sentada, satisfeita com quem voc  agora, ainda que voc seja uma pessoa maravilhosa.
- Bem, voc tambm se esfora muito para melhorar  ela disse.
- Agora sim  concordou Jared.
- O.K. , minha vez de dizer por que eu amo voc  disse Charlotte.
Jared sorriu.
- Sou todo ouvidos.
- Existe realmente uma razo  ela escorregou um brao ao redor da cintura dele e descansou a cabea sobre seu ombro.  Eu amo voc porque deixou o mundo ver quanto potencial voc tem.
Por alguns minutos, eles se abraaram fortemente, os lbios juntos, num beijo. Ainda havia um monte de coisas que Charlotte gostaria de falar, perguntas que ela precisava fazer, mas no estava preocupada. Sabia eu aquela era a primeira de muitas conversas sinceras que os dois teriam. De agora em diante, no haveria mais problema de comunicao.
Os dois ainda estavam envolvidos num beijo apaixonado quando Charlotte sentiu uma pequena pata em seu joelho. Harpo estava em p sobre as patas traseiras, olhando para eles com a cabea erguida e uma expresso cmica nos olhos escuros.
- Voc se importa?  Jared perguntou ao cachorro.  Estamos um pouco ocupados agora.
- Ele deve estar precisando sair  falou Charlotte.
- Bem, ento...  Jared deu um tapinha na cabea de Harpo e abriu um sorriso para Charlotte, o sorriso mais feliz que ela j havia visto no rosto de algum em toda sua vida.  O que voc acha de darmos uma volta com ele?


Eplogo
A primavera finalmente chegara a Massachusetts. As chuvas de abril haviam derretido os ltimos montes de neve suja. Um arco-ris de plantas surgia da terra descongelada, flores amarelas se abriam ao longo das cercas, os galhos de vrias rvores estavam envolvidos por uma nvoa de minsculos brotos verdes. O sol estava alto e o ar era fresco e suave.
- Voc no ama a primavera?  perguntou Charlotte.  ela no faz voc se sentir uma pessoa completamente nova?
Ela e Jared tinham se encontrado no parque da cidade para dar uma volta com Harpo depois da aula de bal.
- Sempre  concordou Jared.  Este ano mais do que os outros  eles estavam de mos dadas; Charlotte apertava os dedos dele firmemente.  Em setembro, deitado naquela cama de hospital, nunca imaginei que estaria andando novamente em abril. Sou o cara mais sortudo do mundo.
Quatro meses haviam se passado desde que Charlotte e Jared tinham reatado, e durante aquele tempo ele havia continuado sua fisioterapia com uma disciplina e uma dedicao inacreditveis. O esforo foi recompensado. Seus passos ainda eram lentos e cuidadosos, mas ele estava andando melhor do que nunca e no precisava mais de ajuda nem mesmo de uma bengala. O doutor Belsky havia lhe dito para esperar uma recuperao completa no final do vero ou outono, ainda que muito provavelmente ele continuasse sempre tendo uma leve dificuldade para andar.
O mundo parecia novo e brilhante e cheio de potencial para Charlotte tambm. Ela estava estagiando na produo do lago dos cisnes do conservatrio de dana de New England e, recentemente Havia sido nomeada a representante da escola Parker para um comit regional consultivo que trabalhava no desenvolvimento de programas sobre a conscincia da diversidade em escolas locais. Seu relacionamento com Jared era uma fonte de felicidade e satisfao, e ela havia sido aceita tanto na faculdade de Wellesley quanto na Suny Purchase.
Jared parou para arrancar a flor de uma rvore perto da trilha que percorriam. Enfiou a flor atrs da orelha de Charlotte, ento a beijou suavemente nos lbios.
- Ento, voc j enviou seu formulrio de aceitao para Suny?
Charlotte assentiu com a cabea, excitada.
- Ainda tenho a sensao de que estou sonhando, como se isto estivesse acontecendo com outra pessoa. No consigo acreditar que estou indo pra l!
- Tambm no consigo acreditar que entrei na Williams  disse Jared.
Ela envolveu o brao no dele e retomaram a caminhada.
- Voc est triste porque no estamos indo para Harvard e Wellesley, como planejamos antigamente?
Jared balanou a cabea.
- Provavelmente pode parecer maluquice, mas, mesmo que pudesse, no voltaria no tempo. No estou falando daquele ultimo outono, logo depois do acidente de carro,  claro. Mas de como estou agora... Eu quero esta vida.  praticamente perfeita!
Charlotte concordava plenamente.
- Mas vou sentir falta de voc no ano que vem  admitiu ela.  Sei que iremos nos ver na maioria dos fins de semanas, mas de segunda  sexta vai ser bem solitrio.
- Ainda temos mais alguns meses. A festa de graduao, e depois todo o vero. A praia  ele sorriu.  Os jogos do Red Sox.
-  verdade  ela deu uma gargalhada.
Alguns metros  frente, eles se sentaram num banco com vista para um esturio que seguia para o mar. A gua brilhava intensamente sob o sol; uma gara branca procurava peixes ao longo do curso daquela foz.
- Ei, olhe isso  exclamou Charlotte. Com o dedo indicador, ela traou um corao entalhado no encosto do banco.  Algum outro casalzinho apaixonado j esteve aqui antes de voc.
- J.C. + C.K.. , para sempre  Jared leu em voz alta.  Estou feliz que tenha durado, voc no est?
Charlotte concordou com a cabea. Num dado momento, aquele smbolo entalhado, aquele para sempre, tinha parecido uma armadilha. Agora ela no se via mais como a metade de um casal: ela e Jared se gostavam e se respeitavam como indivduos.
Jared esticou a mo para enrolar uma mecha do cabelo loiro de Charlotte ao redor de seu dedo.
- Preciso fazer uma confisso  ele falou repentinamente.
- O que ?
- Voc se lembra de dezembro passado, quando tivemos aquela conversa sria? O dia em que voltamos a namorar?
Ela revirou os olhos.
- No, eu esqueci. D...  claro que me lembro!
Jared deu uma gargalhada.
- Bem, se lembra de como eu disse tudo aquilo sobre amar voc porque voc era inteligente e intrigante e cheia de talentos e tudo o mais?
- Lembro. E da?
- Eu quero que voc saiba que acredito em cada uma daquelas palavras. No estava apenas tentando amolecer voc para me desculpar pelo fato de que eu costumava ser um idiota que a amava principalmente por causa de seus cabelos loiros e grandes olhos azuis e pernas maravilhosas.
- Espero que no, Jared Colburn!  exclamou Charlotte, gargalhando.  ento, qual  a grande confisso?
Os olhos de Jared estavam brilhando.
- A confisso  que, embora eu ame voc por sua cabea e por sua ambio e por todas as maneiras como me desafia e me surpreende, ainda sou maluco por seus cabelos loiros, seus grandes olhos azuis e suas pernas maravilhosas.
Ele envolveu-a com os braos e ela o abraou.
- Espero que sim, Jared Colburn  disse Charlotte, um pouco antes dos lbios deles se encontrarem num longo e doce beijo.

                          FIM





